Cultura de estupro

Recentemente, Rafinha Bastos, numa apresentação em São Paulo, fez os seguintes comentários:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço.”

Rafinha é um de muitos a declarar guerra ao “politicamente correto”. Não vou entrar nessa discussão aqui; sugiro a leitura deste blog. Quero discutir como esse tipo de humor se configura numa violência simbólica e faz parte da cultura de estupro.

“Cultura de estupro” é um conceito já bem estabelecido entre as feministas de língua inglesa, mas menos discutido aqui. Cultura de estupro descreve um conjunto de representações e crenças que sustenta a violência contra a mulher. É, por exemplo, ver a sexualidade masculina como agressiva e incontrolável; ou igualar estupro a sexo; ou culpar as vítimas de violência sexual por seu ataque porque se vestiram de forma “provocadora”, ou ficaram bêbadas, ou aceitaram os avanços de um homem.

Só para que fique bem claro: estupro não é sexo. Estupro é violência, é o exercício de poder sobre outra pessoa, negando sua autonomia e seus desejos. A vítima nunca tem culpa. Não há nada que uma pessoa possa fazer que tire seu direito de dizer não ou de ter seus desejos respeitados. Dizer que a mulher não deve se vestir de certa maneira, ou agir de certa forma, porque senão ela pode ser atacada é contribuir para um estado de coisas em que agressores frequentemente escapam qualquer punição, enquanto as vítimas tem de lidar com a vergonha e o estigma.

Rafinha Bastos une-se ao coro de vozes dizendo às mulheres que o espaço público não nos pertence, que nossa segurança e nossa integridade física e moral não podem ser assegurados e que se, porventura, formos atacadas, temos que agradecer aos nossos agressores por nos concederem o privilégio de fazer parte de seu mundo.

Mais sobre cultura de estupro (em inglês): http://shakespearessister.blogspot.com/2009/10/rape-culture-101.html

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5 thoughts on “Cultura de estupro

  1. Ana Luiza says:

    Adorei!!!! Se tem algo que me deixa p… da vida ?? gente que v?? uma mulher de saia ou vestido curto e colado e fala "Depois reclama que ?? estuprada…."

  2. Tamy says:

    O infeliz coment??rio do Rafinha Bastos est?? dando o que falar. Que bom! Sinal que h?? pelo menos uma parcela da popula????o feminina no Brasil que tem consci??ncia do nosso espa??o, dos nossos direitos, e que sabem identificar, numa piadinha aqui e outro coment??rio ali, o discurso machista t??o interiorizado na nossa sociedade.

  3. Carol says:

    show de bola, thais.

  4. Gabi says:

    Thais, seu blog t?? muito bom. Eu sei o quanto d?? trabalho manter um blog, mas nem que seja para trocarmos ideias, cada vez mais acredito que n??s devemos criar um Partido Feminista Carioca. Que estaria mais para um partido IGUALIT??RIO, mas igualdade hoje ainda ?? feminismo. Fazer o qu??? Estamos a?? representando as meninas da matem??tica, hehe!

  5. Bia Medeiros says:

    Mandou bem Theis!

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