#protesto?

A capa da Carta Capital desta semana traz na capa uma matéria sobre a onda de protestos, articulados a partir das redes sociais, que têm ocorrido em todo o país. O argumento da matéria é que essas manifestações passariam ao largo dos partidos e sindicatos, formas mais tradicionais de representação, consituindo, assim, um novo tipo de mobilização. Parece fazer sentido; não são poucos os que dão crédito das revoluções na Tunísia, no Egito e a mal-sucedida mobilização no Irã às redes sociais. Como sempre, as coisas não são tão simples assim.

Há anos, pesquisadores perguntam o que leva ao surgimento de mobilizações em alguns momentos e lugares, mas não em outros. Não há uma única resposta. Existem recursos óbvios aos quais ativistas precisam ter acesso para que possam se mobilizar. Movimentos requerem tempo, dinheiro e espaço para a mobilização. Também requerem habilidades, treinamento, informação e repertórios de confronto. O conceito de repertórios de confronto foi cunhado por Charles Tilly e pretende dar conta não só das habilidades empregadas num conflito, como as formas culturais mais amplas em que esses conflitos se inserem. O protesto nas ruas seria um tal repertório de confronto que é passado de geração em geração e apropriado pelos mais diferentes movimentos.

Esses elementos são necessários, mas não suficientes. Indivíduos atomizados não se mobilizam. Eles precisam estar inseridos em algum tipo de rede social que os permita partilhar informações ao mesmo tempo em que sirva de base para a ação. As redes sociais são os canais de comunicação e troca que permitem a mobilização dos recursos, a circulação de informações, a coordenação de atividades e o recrutamento de novos ativistas.

Historicamente, movimentos sociais se formaram a partir das redes já existentes entre os fiéis de uma mesma igreja, os moradores de um mesmo bairro, os alunos de uma mesma universidade ou os trabalhadores de uma mesma fábrica. A grande diferença, hoje em dia, é que uma parcela grande da população, especialmente entre os jovens, encontra-se inserida em redes sociais na internet que envolvem milhares de pessoas. Nunca foi tão fácil disseminar informações, coordenar ações ou levar sua mensagem a possíveis aliados. Ainda é cedo para julgarmos a capacidade das redes virtuais darem origem a movimentos expressivos de longo prazo.

A única novidade evidente desses movimentos, portanto, é o tipo e escopo das redes a partir das quais se constituem. É precipitado vê-las como uma rejeição das formas tradicionais de representação. Por mais importante que a esfera política formal possa ser, ela não esgota todas as possibilidades de conflitos de uma sociedade. A mudança cultural mais ampla requer mais do que partidos políticos ou sindicatos são capazes de fazer. Isso não é mais verdade hoje do que há 50, 60 ou 90 anos. Num certo sentido, minha geração está re-inventando a roda. Resta ver se de fato essa onda de manifestações será fundamentalmente diferente do que os movimentos sociais vêm fazendo desde antes da internet.

Sobre movimentos sociais:

Alvarez, Sonia; Dagnino, Evelina e Escobar, Arturo. “Introdução: o cultural e o político nos movimentos sociais latino-americanos.” In Alvarez, Dagnino e Escobar (orgs.) Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

Diani, Mario. “Networks and participation.” In Snow, David A., Soule, Sarah A. e Kriesi, Hanspeter. The Blackwell companion to social movements. Malden: Blackwell Publishing, 2004.

McCarthy, John e Zald, Mayer. “Resource mobilization and social movements: a partial theory.” In American Journal of Sociology, v. 82, n. 6, 1977..

Tilly, Charles. From mobilization to revolution. Reading, MA: Addison-Wesley, 1978.

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