Woody Allen e a (falta de) perspectiva privilegiada

Ontem, fui assistir o filme mais recente de Woody Allen, Meia-Noite em Paris. O filme é divertido, ainda que não seja dos melhores do diretor. Sem contar muito da história, o tema principal do filme é a nostalgia do personagem interpretado por Owen Wilson, que imagina que teria sido muito mais feliz se tivesse vivido os anos 1920 em Paris (o que, sem dúvida, remete à conhecida nostalgia do próprio diretor em relação à primeira metade do século XX). Se, por um lado, eu entendo perfeitamente querer poder interagir com gigantes da literatura e das artes como F Scott Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Man Ray e outros tantos retratados no filme, por outro lado isso me parece trair o privilégio do personagem e, por tabela, do próprio diretor.

 

A noção de privilégio diz respeito ao poder e vantagens disponíveis às pessoas que ocupam posições de dominação em relação às diversas desigualdades presentes na sociedade. Homens ocupam uma posição privilegiada em relação a mulheres, brancos ocupam uma posição privilegiada em relação a negros, ricos em relação a pobres e por aí vai. Mais: deter privilégio geralmente significa não se dar conta disso. Uma pessoa que nunca sofra qualquer discriminação, nem encontre qualquer barreira por causa, digamos, de sua raça, dificilmente consegue perceber todas as formas sob as quais o racismo se manifesta. Dizer que uma pessoa é privilegiada não é um julgamento de valor; afinal, o privilégio é determinado por estruturas de dominação que estão além do controle individual de cada um. O que não desculpa a ignorância: quem tem privilégio precisa buscar entender de que forma as desigualdades (de raça, gênero, classe, etc.) operam em seu favor, lembrando que é possível que uma pessoa ocupe uma posição privilegiada em relação a uma coisa, mas não em relação a outra.

 

O que nos traz de volta ao filme de Woody Allen. Apenas um homem branco, rico, heterossexual e cissexual poderia sentir nostalgia pelo passado. Que mulher em sã consciência pode ter saudades da época em que as mulheres não tinham direito ao voto? Em que não tinham os mesmos direitos de propriedade que os homens? Em que recebiam ainda menos pelo mesmo trabalho que seus colegas homens? Que trabalhador pode ter saudades da época em que não havia leis trabalhistas? Que pessoa negra pode ter saudades da época em que racismo ainda não era crime? Quando pessoas negras tinham, em média, uma escolaridade ainda pior do que hoje? Que homossexual sente saudades da época em que homossexualidade era vista como doença? Etc. etc. A verdade é que os avanços feitos pelas minorias mundo afora se devem a mobilizações muito recentes – o movimento trabalhista, o movimentos feminista, o movimento negro, o movimento LGBTTI. Só quem é cego ao próprio privilégio pode ver o passado como idílico, porque só terá sido idílico para os poucos privilegiados.

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