Mulheres e ciência

Por que as mulheres ainda estão subrepresentadas em algumas áreas científicas? Por incrível que pareça, ainda há quem defenda que isso simplesmente reflete uma menor capacidade das mulheres para as ciências exatas (o mais notório nos últimos anos talvez tenha sido o presidente de Harvard, Larry Summers). Eu poderia passar algumas horas discutindo como essa ideia de diferenças inatas entre homens e mulheres é absurda, ou discutindo os n mecanismos que tornam algumas carreiras quase totalmente dominadas por homens, mas vou deixar essas discussões para outro momento e simplesmente apresentar dois exemplos do passado recente*:

 

Rosalind Franklin era uma biofísica britânica. Trabalhando com a difração dos raios-X, ela fez contribuições cruciais para o descobrimento da forma do DNA. Na época, suas imagens foram mostradas a James Watson sem seu consentimento (sem mesmo seu conhecimento). Watson, ao lado do Francis Crick, formularia a hipótese sobre a estrutura do DNA com base nessas imagens e nas interpretações de Franklin. Contudo, os dois minimizaram as contribuições de Franklin à descoberta, se recusando inclusive a citar seu trabalho no artigo que publicaram sobre o DNA. James Watson, em seu livro, chegou a fazer a declaração absurda de que Franklin não sabia interpretar seus próprios dados (além de se referir o tempo inteiro a ela como “Rosy”, apelido pelo qual ela nunca foi chamada em vida).

 

Na graduação, Jocelyn Bell-Burnell era a única mulher entre os alunos de física. Quando ela entrava em sala para ter aula, os homens assobiavam e batiam os pés no chão. Ainda durante seu doutorado, Bell-Burnell descobriu pulsares, núcleos densos de estrelas que entraram em colapso. A descoberta recebeu o prêmio Nobel, que foi concedido não a Bell-Burnell, mas a seu supervisor, em conjunto com o chefe de departamento no qual trabalhava.

 

Quando a descoberta dos pulsares foi divulgada pela imprensa, os jornais se referiram a Bell-Burnell como uma garota (girl). Segundo ela, ainda pior foi o fato de pedirem “what were my vital statistics and how tall I was and, you know, – chest, waist and hip measurements, please, and all that kind of thing. They did not know what to do with a young female scientist, if you were a young female, you were page three**, you weren’t a scientist.” (“quais eram minhas estatísticas vitais e qual era minha altura e, você sabe, – medidas dos seios, cintura e quadril, por favor, e esse tipo de coisa. Eles não sabiam o que fazer com uma jovem cientista, se você era uma mulher jovem, você era página três**, você não era uma cientista.”) E, sendo apenas uma aluna de doutorado que dependia de seus supervisores para seguir na carreira acadêmica, Bell-Burnell não podia ofender os jornais porque o laboratório precisava da publicidade – supervisores esses (homens, todos) que não viam nenhum problema em deixar uma de suas alunas ser tratada desse jeito.

 

* Sim, a situação hoje em dia é melhor. Ainda assim, estamos longe do ideal.
** A página três é uma seção de tabloides em que aparecem fotos topless de mulheres. As modelos que aparecem regularmente nessa seção são conhecidas como “Page Three girls” (garotas da página três).

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2 thoughts on “Mulheres e ciência

  1. Anonymous says:

    argh ?? uma resposta apropriada.

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