A Época e os ateus

Este artigo da Revista Época argumenta que a expansão das igrejas neopentecostais tem tornado o Brasil mais religioso e que isso, por sua vez, tem tornado a vida mais difícil para ateus. Na minha opinião, é uma discussão importante colocada em termos equivocados. Em primeiro lugar, não aceito a premissa de que seja mais difícil ser ateu hoje em dia do que no passado. O artigo não oferece nenhum dado que sustente essa afirmação, relatando apenas um encontro de uma pessoa ateia com um taxista. A minha impressão é que a própria facilidade de se declarar ateu/eia a um completo estranho é fruto da liberalização de atitudes em relação à religião. É claro que esse processo não é linear; não é à toa que o censo de 2000* apresentou o crescimento no número tanto de pessoas que se denominam evangélicas quanto de pessoas que afirmam não ter religião.

 

E aí entra o segundo grande problema do artigo, que é afirmar que a Igreja Católica “mantém uma relação de tolerância com o ateísmo”. Para ser bem clara: a Igreja Católica é tudo, menos tolerante com ateus. O Papa, falando este ano em Londres, denunciou a exclusão da religião da vida pública e equiparou os ateus aos nazistas, afirmando que “a tirania nazista (…) queria erradicar Deus da sociedade e negava nossa humanidade comum a muitos, especialmente os judeus, que se julgava indignos de viverem. (…) Quando formos refletir sobre as lições sombrias do extremismo ateísta do século 20, nunca nos deixemos esquecer de como a exclusão de Deus, religião e virtude da vida pública leva em última instância a uma visão truncada do homem e da sociedade, e portanto uma visão reducionista das pessoas e seus destinos.” Aqui no Brasil, o presidente para a comissão da juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declarou, este ano mesmo, que a “centralidade em Jesus Cristo, a eclesialidade do encontro, o espírito familiar juvenil chegarão a todos os cantos do mundo com a voz profética de uma Igreja que, acreditando nos jovens, desafia esta sociedade que insiste em defender o consumismo, o hedonismo, o ateísmo, o egocentrismo, a violência, a exclusão, o relativismo”.  (por sinal, nas vezes em minha vida em que me mandaram ler a Bíblia, ou que exclamaram “Ai, não” ao descobrir que sou ateia, eu estava interagindo com católicos)

 

Mesmo que se sustente a visão absurda de que a Igreja Católica é mais tolerante, acho a análise das diferenças entre o catolicismo e as religiões neopenctecostais apresentada no texto um pouco hiper-simplista. Deixando de lado a analogia com o mercado, que é complicada demais para ser satisfatoriamente discutida aqui, a questão do texto é o quanto a religião se tem feito sentir no espaço público. Por um lado, o artigo ignora que as formas pelas quais a Igreja Católica se faz sentir nesse espaço – e na vida privada das pessoas – nos são quase invisíveis justamente por serem onipresentes. O catolicismo é mainstream. Sempre foi a religião dominante, sempre ocupou os espaços de poder e nunca precisou se preocupar com qualquer concorrência – até o início da onda neopentecostal, há uns 30 anos. As igrejas neopentecostais ainda são, em grande medida, igrejas de conversão (apesar de isso estar mudando); é claro que vão ter estratégias de conversão mais agressivas. Da mesma forma, não surpreende a quantidade cada vez maior de políticos evangélicos. A Igreja Católica já ocupa esse espaço; são os evangélicos que precisam lutar por ele. Por outrolado, a autora não parece perceber que as mudanças que ocorreram, tanto entre evangélicos quanto entre católicos, precisam ser vistas como resposta a um processo mais amplo de laicização e liberalização da sociedade. A autoridade religiosa precisa se manifestar apenas no momento em que é questionada. Um exemplo: apenas quando as feministas começaram a se mobilizar pelo direito ao aborto, e em particular a partir da implementação dos programas de aborto legal, que a oposição religiosa ao aborto passou a se articular de forma agressiva, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

 

O que leva ao maior problema desse artigo. Ao focar a questão do crescimento das denominações neopentecostais, o artigo desloca a discussão para o direito de evangélicos professarem sua fé (e recrutarem novos seguidores) no espaço público. Nada se fala sobre a Igreja Católica, que é ainda o maior e mais importante ator a violar a laicidade do Estado e, portanto, ameaçar os direitos dos ateus (e de todos os outros brasileiros). Nada se fala sobre a atuação conjunta de parlamentares católicos e evangélicos em sua campanha contra a autonomia reprodutiva das mulheres. Querer culpar os neopentecostais é transformar uma discussão ampla sobre os limites da liberdade religiosa num referendo sobre o direito de certas denominações a existir. É ignorante, moralmente errado e contraproducente.

 

*Sim, os dados estão desatualizados, mas ainda não vi nada sobre religião no censo de 2010.

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3 thoughts on “A Época e os ateus

  1. Anonymous says:

    Oi Thais,Encontrei seu blog fazendo uma busca aleat??ria com os termos ate??smo no posterous e gostei muito dele. Esse seu artigo em especial, eu fiz alguns breves coment??rios sobre ele no meu blog. Se quiser dar uma olhada: http://danielrodrigues.posterous.com/83616675 Abra??o.

  2. Anonymous says:

    Oi Thais,Encontrei seu blog fazendo uma busca aleat??ria com os termos ate??smo no posterous e gostei muito dele. Esse seu artigo em especial, eu fiz alguns breves coment??rios sobre ele no meu blog. Se quiser dar uma olhada: http://danielrodrigues.posterous.com/83616675 Abra??o.

  3. O'Brien says:

    Quem disse que os pentecostais, ou crentes de qualquer g??nero, s??o capazes de dificultar a decis??o de algu??m de viver livres de fantasmas e outras assombra????es??

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