Babel fish

“Excuse me, but can I be you for a while?”

(“Licença, posso ser você por um tempo?”)

O primeiro verso da música mais famosa de Tori Amos me veio à mente quando estava lendo esta resenha de um livro sobre tradução. O autor do livro Is that a fish in your ear? Translation and the meaning of everything* se opõe a certas ideias amplamente difundidas sobre tradução. Por exemplo, que poesia (ou qualquer obra que se preocupe com a forma) seria, no fundo, intradutível. Na verdade, o autor argumenta contra traduções literais, em favor de adaptações que transmitam ideias similares, ainda que às custas de uma equiparação de um para um. (Um exemplo que eu acho perfeito é a tradução da música Under the sea, do filme da Disney A pequena sereia. Under the sea é, literalmente, embaixo do mar. Os tradutores optaram, contudo, por traduzir por “onde eu nasci”, que não apenas soa parecido – e, portanto, se encaixa melhor na música – como, no fim, quer dizer a mesma coisa. Quem canta a música são animais marinhos que, afinal, nasceram embaixo do mar)

O que não desmente a percepção de que certas coisas são intradutíveis, mas desloca o objetivo final da tradução de uma reprodução perfeita (a mesma coisa, mas em outra língua) para uma aproximação adequada (nas palavras do autor, algo que “provides for some community an acceptable match for an utterance made in a foreign tongue.” [“fornece a alguma comunidade uma correspondência aceitável para um pronunciamento feito em uma língua estrangeira”]).

Na minha opinião, a tradução é impossível na mesma medida em que o pedido de Tori Amos é impossível. No fundo, os outros nos são inacessíveis porque nunca é possível saber exatamente o que é ser outra pessoa. Nunca é possível transmitir aos outros exatamente como vivenciamos certos eventos, o que sentimos ou pensamos. No fundo, toda comunicação é impossível. “No fundo” não é o mesmo que “totalmente”, no entanto. Não é nem o mesmo que “quase totalmente”. Somos mais ou menos capazes de nos entender uns aos outros, mas ainda assim algo é comunicado. Em alguma medida, nos sobrepomos a essas impossibilidades. Paul Ricoeur resume, em uma frase: “Communication (…) is the overcoming of the radical non-communicability of the lived experience as lived.” (“A comunicação (…) é a superação da incomunicabilidade radical da experiência vivida tal como vivida.”)

A música:

* Referência ao Guia do mochileiro das galáxias ftw.

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