A pseudo-ciência da saúde

Vi hoje este vídeo:

 

 

É uma campanha a favor da inclusão da homeopatia, acupuntura, fitoterapia e antroposofia no SUS. Confesso que nunca tinha ouvido falar desse último, mas segundo a Sociedade Antroposófica do Brasil, trata-se de um “método de conhecimento da natureza” que afirma, como um de seus princípios, que “o universo não é constituído apenas de matéria e energia físicas, redutíveis a processos puramente físico-químicos. Ela descobre um mundo espiritual, estruturado de forma complexa em vários níveis. Por exemplo, os seres humanos têm um nível de “substância” espiritual, não-física, mais complexa do que a das plantas e dos animais, daí sua distinção em relação a eles”. Isso pode ser muitas coisas; ciência, certamente, não é.

 

Quanto aos outros três, a Portaria 971 do Ministério da Saúde já determinou que fossem incluídos no SUS. O problema não é a falta da assim-chamada “medicina alternativa” no SUS; o problema é justamente que ela existe.

 

Perdoem o sarcasmo, mas Tim Minchin resume de forma perfeita: “By definition, “alternative medicine” has either not been proved to work or been proved not to work. You know what they call “alternative medicine” that’s been proved to work? Medicine”. (“Por definição, “medicina alternativa” é o que ou não foi provado que funciona ou foi provado que não funciona. Sabe como se chama “medicina alternativa” que se provou funcionar? Medicina.”)

 

Tome por exemplo homeopatia* (e aplica-se aos demais). A homeopatia se baseia em dois princípios: primeiro, que “os semelhantes curam-se pelos semelhantes”. Por exemplo: se arsênico causa falta de ar, então arsênico também pode ser usado para tratar doenças que provocam falta de ar, como asma. O segundo princípio é o da diluição: o composto (no caso do exemplo, arsênico) é altamente diluído, de forma a estimular o sistema imune da própria pessoa. Quão diluído é o composto? A ponto de não sobrar nem uma única molécula na solução final. O que significa que o que as pessoas ingerem como remédios homeopáticos nada mais é do que água (ou pílulas de açúcar). A teoria homeopática é que não é necessário haver traço algum do composto porque a água, ao ser sacudida, lembra dos compostos que por ela passaram.

 

O único artigo a jamais relatar a existência da memória da água foi desacreditado. Todos os estudos feitos sobre homeopatia concluíram que a homeopatia não é mais eficiente do que um placebo. Um elemento que, imagina-se, é de fato benéfico na homeopatia é que as consultas homeopáticas são longas, dando aos pacientes a possibilidade de falar sobre seus problemas a um(a) médico(a) receptivo(a) que os trata como indivíduos. A homeopatia, assim, teria um benefício psicológico para os pacientes.

 

Qual o problema de se disponibilizar placebos no SUS? Nenhum, desde que se saiba os limites desses tratamentos. O meu problema é o tipo de atitude presente nesse vídeo, que afirma que a tal “medicina alternativa” traz soluções, com remédios “sem efeitos colaterais”. Para que fique bem claro: os limites da homeopatia, da fitoterapia e da acupuntura são os limites de qualquer placebo. Em certas condições (casos de dor crônica, por exemplo), podem ser benéficos. Não é uma alternativa ao tratamento médico. Dizer qualquer outra coisa é não apenas errôneo como perigoso.

 

Para quem acha que estou exagerando, apresento o caso de Matthias Rath (e encorajo-os a ler o texto inteiro no link). Como muitos do movimento de “medicina alternativa”, Rath se opõe aos tratamentos médicos convencionais. Rath afirma que a indústria farmacêutica vende remédios que, na verdade, são tóxicos, deixando as pessoas morrerem para ter lucros. Em particular, ele se posicionou contra tratamentos para câncer e AIDS, encorajando as pessoas a se tratarem com vitaminas – as vitaminas que ele vende e com as quais fez fortuna. Rath levou suas vitaminas à África do Sul, onde o governo de Thabo Mbeki se recusou a implementar programas de distribuição de antirretrovirais porque o então-presidente faz parte de um grupo de “AIDS dissenters” que não aceitam as evidências cientificas. Para eles, a AIDS não é causada pelo HIV, a epidemia de AIDS é uma invenção e são os remédios, e não a doença, que deixam as pessoas doentes. Estima-se que, entre 2000 e 2005, 330 000 mortes poderiam ser prevenidas e 35 000 bebês poderiam ter nascidos sem o HIV se o Estado tivesse implementado um programa de antirretrovirais. Enquanto isso, Rath, com o apoio, senão explícito, então tácito, da então ministra da saúde Manto Tshabalala-Mishmang estabeleceu suas clínicas e saiu espalhando anúncios encorajando as pessoas a se tratarem com suas vitaminas.

 

As pessoas têm, sim, que poder tomar decisões sobre suas próprias vidas e sobre suas própria saúde, mas elas precisam ter a informação correta. Não aceito que se apresente a “medicina alternativa” como uma alternativa, de fato, ao tratamento médico.

Editado para adicionar estes quadrinhos sobre acupuntura.

 

*Recomendo fortemente ler este quadrinho (de onde, inclusive, roubei o exemplo) e os demais de Darryl Cunnigham.

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2 thoughts on “A pseudo-ciência da saúde

  1. Anonymous says:

    Muitas vezes essa medicina alternativa ?? simplesmente inofensiva em sua inefic??cia. Mas, sem d??vida, h?? um grande risco quando se leva o paciente de alguma enfermidade grave a abandonar ou postergar um tratamento s??rio. Um outro problema ?? que nessas pretensas pr??ticas m??dicas, como nessa antroposofia a??, seus m??dicos (ou deveria dizer curandeiros?) est??o imunes a qualquer tipo de acusa????o de erro. Isso ?? algum muito perigoso. Se j?? ?? dif??cil condenar um m??dico por neglig??ncia, numa pr??tica imune a qualquer tipo verifica????o emp??rica de sua efic??cia isso se torna imposs??vel. Um curandeiro desses pode muito bem nunca se responsabilizar pelo fracasso de seu tratamento, ou a dosagem t??xica de sua medica????o, ou por ter induzido o paciente a correr o risco de abandonar seus rem??dois convencionais etc, alegando simplesmente que se trata de uma conjuntura espiritual, ou influ??ncias de energias desconhecidas pela f??sica ??? mas que eles sabem exatamente o que ?? -, influ??ncia de vidas passadas e por a?? vai. ?? um risco grande, sobretudo, pra crian??as, as quais, em regra, n??o podem escolher em que tipo de m??dico em que querem se tratar.

  2. Anonymous says:

    Com certeza. Como eu disse, o problema ?? colocar a "medicina alternativa" em p?? de igualdade com os tratamentos m??dicos que foram desenvolvidos e testados cientificamente. E voc?? destacou um ponto importante que eu n??o inclu?? no texto; realmente, qualquer cren??a que se afirma para al??m da possibilidade de comprova????o emp??rica ?? infalsific??vel e, portanto, imposs??vel de fazer as pessoas arcarem com a responsabilidade.

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