A misoginia da guerra dos sexos

A esta altura, o machismo e misoginia dos anúnicos de cerveja já não devia me surpreender. Ainda assim, de vez em quando me deparo com uma coisa destas e me irrito:

 

 

No anúncio, homens e mulheres são apresentados como dois exércitos prestes a lutar. Um homem e uma mulher fazem discursos a cada um dos “exércitos” para motivá-los para a batalha. A mulher chega a dizer, no início, que “nos custou muito chegar até aqui” e pergunta se as mulheres querem voltar a como as coisas eram antes, se querem voltar a não votar. A partir daí, contudo, o anúncio é uma sucessão de estereótipos batidos da velha guerra dos sexos. As mulheres reclamam porque os homens querem passar mais tempo com os amigos, os homens reclamam porque as mulheres são controladoras e os impedem de se divertir. Há uma breve alusão ao fato de que os padrões de beleza cobram mais de mulheres do que de homens (nós ficamos gordas, mas, neles, a barriguinha é sexy), mas aí o comercial consegue ficar ainda pior. Homens e mulheres partem para o confronto e vários casais se formam (esqueceram de avisar que alguns homens gostam de homens e algumas mulheres gostam de mulheres, aparentemente). As mulheres se dispõem a ir a jogo de futebol (coisa de que mulher nenhuma gosta, como vocês sabem) e a lavar a roupa íntima dos homens (porque uma namorada ou esposa nada mais é do que uma empregada a quem não se tem que pagar, aparentemente) e os homens dizem às mulheres que invadam sua privacidade lendo suas mensagens (somos todas fofoqueiras e inseguras) e estourem seus cartões de crédito (porque mulher só quer saber de gastar o dinheiro de algum homem, não é verdade?). E quando você acha que não podia ficar pior, o comercial encerra com: “Quando o machismo e feminismo se encontram, nasce o igualismo.”

 

Eu queria por um fim, de uma vez por todas, a essa falsa equiparação entre feminismo e machismo. Entre as feministas, é comum dizer que o feminismo nunca matou ninguém; o machismo mata todos os dias. Mas quero deixar bem claro o que isso quer dizer. Cheris Kramarae e Paula Treichler definiram o feminismo como “a noção radical de que mulheres são pessoas” (“Feminism is the radical notion that women are people”). Não é a afirmação da superiordade de um gênero sobre outro, mas o reconhecimento de que existem desigualdades estruturais de gênero, mantidas e reforçadas por atitudes e concepções machistas. É o motivo de mulheres serem 80% das vítimas de estupro e 87% das vítimas de violência doméstica no estado do Rio de Janeiro, um padrão que se repete em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 40% das mulheres de São Paulo e 48% das de Pernambuco relataram terem sofrido ao menos uma vez na vida violência psicológica e 27% e 33%, respectivamente, terem sofrido violência física. As mulheres brasileiras têm mais anos de estudo, em média, do que os homens, mas ganham apenas 70% do rendimento dos homens. A taxa de desocupação ainda é maior entre as mulheres do que entre os homens. Dados da PNAD de 2007 mostravam ainda uma grande desigualdade na realização do trabalho doméstico, com as mulheres trabalhando mais do que o dobro de horas por semana em afazeres domésticos do que os homens. E isso sem falar na sub-representação das mulheres na política.

 

Às mentes brilhantes que criaram esse comercial – e que acreditam que feminismo e machismo são, de alguma forma, equiparáveis: o mundo real merece uma visita um dia desses.

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2 thoughts on “A misoginia da guerra dos sexos

  1. Nivaldo says:

    Uau. Grande produ????o, bons atores, lindo roteiro. De arrepiar.Propaganda n??o ?? filosofia, in??til perder seu tempo analisando e se incomodando.

  2. Anonymous says:

    mais in??til ainda perder seu tempo comentando em blogs

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