His dark materials

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Minha casa sempre foi cheia de livros. Na verdade, acho que nosso apartamento sempre teve como principal função guardar livros. Todo o resto é secundário. Quando eu era criança, meus pais tinham o hábito de me dar livros de presente, do nada (hoje em dia eu já compro livros o suficiente para me manter ocupada). Lembro de meu pai chegar em casa, uma vez, com um livro de histórias do Oscar Wilde. Lembro de outro dia, em que minha mãe chegou em casa com um livro que tinha comprado porque ganhara a medalha Carnegie, prêmio máximo da literatura infanto-juvenil no Reino Unido. Tinha uns nove anos e minha primeira tentativa de ler o tal livro, A bússola dourada, de Philip Pullman, não deu muito certo. Não devo ter lido mais do que algumas páginas antes de fechar o livro e colocá-lo de volta na estante. Entretanto, por algum motivo, me incomodava ver o livro ali, largado, solitário, e resolvi tentar de novo. Não sei o motivo, mas, da segunda vez, não consegui largar a história de Lyra e Pan. A bússola dourada tornou-se meu favorito, aquele livro que eu queria fazer todas as pessoas lerem, porque como é possível viver sem conhecer essa história? Meu envolvimento com os personagens era tamanho que, quando cheguei no momento em que algo ruim acontece no segundo livro da trilogia*, parei de ler durante meses por medo do que viria em seguida.

Não sei dizer bem o que me encanta tanto no livro. Ou melhor: não sei escolher apenas uma coisa. Há a mensagem da trilogia, da necessidade de se questionar a autoridade e de se buscar o conhecimento. Há os personagens, que conheci como criança e que passei a ver de outra forma, não menos interessante, como adulta. Há os percursos épicos, por vezes atravessando vários mundos, das jornadas dos personagens. Há os seres fantásticos: bruxas, galivespianos e, meus favoritos, panserbjørne. Suspeito, contudo, que o que me prendeu foi a mesma coisa que me afastou do livro na primeira vez em que tentei ler. A noção, presente desde a primeira página, e cada vez mais clara, especialmente no fim do livro, de que esse mundo era muito maior e mais perigoso do que qualquer outra coisa que tivesse encontrado. Um mundo em que adultos fazem mal a crianças, em que ninguém está seguro, em que traições são sempre possíveis e em que não há uma luta do bem contra o mal, apenas pessoas fazendo o que creem ser o certo, ou avançando as próprias ambições.

 

Recomendo a leitura. Ah, e, por favor, esqueçam o filme.

 

*Este post não terá spoilers.

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