Racionalidade e escolhas em saúde*

Estava pensando neste anúncio hoje:

O vídeo, chamado 5 razões para não usar preservativo, começa mostrando um casal. A cada uma das tais cinco razões (“o preservativo corta o momento”, “o preservativo tira o prazer”, “o preservativo é desconfortável”, “o preservativo é difícil de colocar”, “o preservativo reduz a sensibilidade”), o anúncio contrapõe imagens de uma pessoa sendo testada, outra recebendo a notícia de que é soropositva, outra tomando remédios e a última, um paciente esquálido, coberto de marcas roxas, sozinho num hospital, sendo cuidado por um enfermeiro. O casal do início do anúncio resolve usar preservativo e o anúncio termina com a recomendação: “aventura-te: usa preservativo”.

Esse anúncio, parece, ganhou um prêmio. Nem quero saber quais os critérios dessa decisão. Devia ser óbvio, a esta altura, que tentar amedrontrar as pessoas dessa forma apenas reforça o estigma contra pessoas soropositvas e contra as que vivem com AIDS, além de minar os esforços de prevenção e tratamento. Não existe intervenção bem-sucedida sem que as pessoas façam o teste e, caso necessário, o tratamento. Agora, me diga: quem vai querer fazer o teste para HIV depois de ver um anúncio desses?

Mais do que isso: é um anúncio mentiroso. No mínimo, exagerado: faz parecer que ser soropositivo hoje é a mesma coisa do que no início da epidemia. Esquece (ou melhor, esconde) que a AIDS, por mais séria que seja, não é mais uma sentença de morte, que é possível viver, e bem, com AIDS.

Isso não é um evento isolado. Existe uma tendência entre pessoas da área de saúde de omitir ou exagerar informações de forma a tentar manipular o comportamento dos pacientes. Não acho que sejam “más pessoas”, com “más intenções” (odeio ambas as categorias, por sinal; me parecem inúteis para avaliar o comportamento das pessoas). É uma reação compreensível se você se vê na situação de querer ajudar pessoas que tomam decisões prejudiciais à própria saúde. Faz sentido querer assustar a pessoa para que ela tome a decisão certa. Isso pressupõe, contudo, que o médico, enfermeiro, ou formulador de políticas e campanhas de saúde pública é mais competente para tomar essas decisões do que as pessoas. Que esses profissionais da área de saúde simplesmente know best.

Não quero aqui cair no erro que Isaac Asimov apontou, de achar que “democracy means that my ignorance is just as good as your knowledge” (“democracia significa que minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”). Por mais que nossa capacidade de auto-diagnóstico nos pareça infinita com o auxílio do Google, existem informações de que não dispomos, sendo leigos, e decisões que requerem treinamento específico. Desconsiderar as recomendações de profissionais de saúde porque “me parece” que eu estou certa e eles, errados, é o tipo de atitude ignorante que leva à proliferação de pseudo-tratamentos. Meu problema é quando decide-se propositalmente esconder informações porque, se a pessoa souber que não é tão ruim assim, vai tomar a decisão errada e continuar correr riscos “inaceitáveis”. É a lógica que opera em quase todo o mundo no que diz respeito ao uso de drogas. A mensagem é apenas “não use”, sem discutir as diferenças entre as drogas, nem contemplar ações de redução de danos. É a lógica desse anúncio, que tenta usar o medo para fazer com que as pessoas ajam de forma “responsável”.

Esse tipo de atitude, para mim, é inaceitável; é contraproducente, porque nunca é possível fazer as pessoas se comportarem exatamente da forma que se quer, e é antiética. Qualquer que seja a estratégia adotada, ela tem de fornecer mais informações – sempre mais, nunca menos – ao público-alvo.

* acho necessário o disclaimer: apesar de já ter trabalhado numa ONG AIDS e de ter um tema de pesquisa que dialoga com a área da saúde, não tenho formação nessa área, estou longe de ser expert e o que ofereço são apenas reflexões a partir de experiências próprias.

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