Os MRAs atacam

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Qualquer manifestação feminista sofre reações. Uma manifestação como a Marcha das Vadias, que se recusa a acatar ideias tradicionais do que é apropriado e desejável, recebe reações ainda mais ferrenhas. A imagem que ilustra este post nem é dos piores exemplos, mas reflete o que é possivelmente a reação mais bizarra ao feminismo: os grupos de direitos dos homens, ou men’s rights activists (MRAs, na sigla em inglês).

Jeff Fecke, do blog Shakesville, explica perfeitamente:

Todos esses grupos [os MRAs, a “National Association for the Advancement of White People” (“Associação Nacional para o Avanço de Pessoas Brancas”) e as pessoas que pensam que os cristãos são perseguidos nos Estados Unidos] compartilham de uma mesma visão de mundo, de que os grupos tradicionalmente oprimidos, sejam eles mulheres, minorias, ou não-cristãos, de alguma forma tomaram controle do país e estão sistematicamente negando os direitos dos homens heterossexuais, brancos e cristãos.

[O motivo da reação é que] os privilégios tradicionais dos homens realmente estão sob ataque. Mas esses direitos, como o direito de bater e estuprar sua esposa com impunidade, são anátema para uma sociedade verdadeiramente livre e igualitária.

Uma das principais críticas de Fecke aos MRAs é seu posicionamento em relação à violência sexual e doméstica. MRAs partem do princípio de que as vítimas mentem e que o sistema está enviesado para favorecer as acusadoras contra os acusados – coisa que claramente não é. Na imagem, aparece a demanda “Revisão da lei sobre violência doméstica”. Algo me diz que o autor da imagem não está criticando a leniência da lei com os agressores.

Fecke continua:

(…) MRAs também não querem pagar pensão aos filhos. Existe um segmento enorme do universo MRA que é alimentado por homens que têm raiva porque a ex ganhou a guarda dos filhos e agora eles têm que dar dinheiro para ajudar a sustentá-los.

Mas e o fato de que as mães geralmente ganham a guarda dos filhos? Fecke aponta o óbvio:

Numa sociedade realmente justa e equitativa, [a guarda seria divida igualmente]. Mas não vivemos numa sociedade realmente justa e equitativa. As mulheres acabam sendo as cuidadoras primárias na maioria dos casos. E o sistema de tutela é desenhado para favorecer o(a) cuidador(a) primário(a) na decisão da guarda dos filhos. Se homens fossem os cuidadores primários com mais frequência, eles ganhariam a guarda com mais frequência.

Evidentemente, isso não impede que o sistema seja enviesado para favorecer as mães, independentemente de como for dividido o cuidado com os filhos. A resposta a isso, contudo, é dada justamente pelo feminismo: é a divisão justa do cuidado dos filhos e a mudança de padrões culturais mais amplos que afirmam que cabe à mulher cuidar da casa e dos filhos.

Aliás, a primeira demanda da imagem também só pode ser resolvida pela própria ideologia que os MRAs tanto combatem e da qual tanto se ressentem. Dizer que é injusto que mulheres se aposentem mais cedo é ignorar que elas ainda realizam a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos – uma jornada dupla, ou até tripla, que não é contabilizada como tempo de serviço. Quando homens e mulheres trabalharem o mesmo número de horas também em casa, aí sim será possível ter a mesma idade de aposentadoria. Nesse sentido, concordo, sim, e sem ressalvas, com a demanda de licença paternidade de seis meses.

Quanto ao serviço militar: me parece uma atitude extremamente mesquinha de querer impor a todos o que é desagradável a um grupo. É claro que pode-se dar o benefício da dúvida e alegar que o autor queria apenas chamar a atenção para a necessidade de as mulheres cumprirem sua parte na provisão de um bem público realizando o serviço militar. Só que mulheres já estão nas forças armadas; não seria tempo de discutir a necessidade de serviço obrigatório em si? Mas isso é um outro tema para outro dia (e, provavelmente, outro blog)

PS: Antes que levem a sério, o título do post é referência a isto.

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