Testes de sexo e policiamento de gênero entre atletas profissionais

Em um artigo publicado recentemente no The American Journal of Bioethics, as autoras Katrina Karkazis, Rebecca Jordan-Young, Georgiann Davis e Silvia Camporesi criticam as políticas de teste de sexo da International Association of Athletics Federation (IAAF) e do Comitê Olímpico Internacional (COI). Confesso que me surpreendi ao descobrir que ambas as organizações exigiram, durante a maior parte do século passado, que as atletas comprovassem que eram mulheres, dado o medo de que homens se disfarçassem de mulheres para competirem em provas mais fáceis. A IAAF abandonou essa exigência apenas em 1992; o COI, apenas em 1996. Contudo, o caso de Caster Semenya levou ambas as organizações a estabelecerem novas políticas de comprovação de sexo.

Para quem não lembra, Caster Semenya é uma corredora sul-africana que se destacou por sua performance em 2009 e que logo em seguida teve seu gênero publicamente questionado. Em resposta, a IAAF forçou Semenya a passar por testes humilhantes, cujos detalhes foram vazados para a mídia. Descobriu-se que Semenya tinha uma condição intersex. Apesar de ser proibida de competir enquanto os testes eram realizados, Semenya voltou a competir (e teve sua vitória reinstituída) posteriormente. Ainda assim, a organização foi fortemente criticada pela forma como lidou com as acusações contra a corredora.

Em resposta às críticas, a IAAF e o COI instituíram uma política nova, não mais testando todas as atletas, mas apenas aquelas suspeitas de serem “masculinas demais”. Mulheres “masculinas demais” seriam aquelas com níveis de testosterona acima da média, o que (imagina-se) lhes conferiria uma vantagem injusta. Mulheres com níveis acima da média de testosterona – que, as autoras apontam, são predominantemente intersex – poderão competir apenas se se sujeitarem a intervenção médica ou se for demonstrado que são “insensíveis” à testosterona. O tratamento consistiria em intervenção farmacêutica ou em gonadectomia.

As autoras apresentam algumas críticas a essas políticas. Em primeiro lugar, afirmam que não é tão simples assim definir e estabelecer o sexo biológico de uma pessoa. Os marcadores de sexo biológico (cromossomos, gônadas, hormônios, características sexuais secundárias, genitália externa e genitália interna) não se dividem de forma binária; tampouco sua expressão se distribui de uma forma consistente na população. A variabilidade humana é maior do que o que a visão binária levaria a concluir. As autoras concluem que sexo é sempre complexo e que não existe um marcador decisivo, que por si só sirva para estabelecer o sexo de uma pessoa.

Em segundo lugar, a relação entre capacidade atlética e testosterona não foi provada. Não existe evidência de que atletas bem-sucedidos têm mais testosterona do que atletas menos bem-sucedidos. As autoras afirmam que “excelência atlética é o produto de uma combinação complexa de fatores biológicos e recursos materiais que têm o potencial de influenciar a vantagem atlética.”

Ainda que testosterona confira alguma vantagem, as autoras acreditam que ela deve ser vista como qualquer vantagem biológica. Como exemplo, citam as variações mitocondriais encontradas em corredores e ciclistas que lhes dão capacidade aeróbica e resistência contra fadiga excepcionais. Pessoas com essas variações mitocondriais não são proibidas de competir por terem uma vantagem injusta; por que mulheres com níveis naturais de testosterona mais altos do que a média deveriam ser tratadas de forma diferente?

As autoras também levantam preocupações com o caráter coercitivo do tratamento imposto às atletas para que possam competir, especialmente quando o tratamento não for medicamente necessário. Apontam ainda que as propostas não são claras; o que seria o nível de testosterona necessário para competição? O nível médio para mulheres? Ou apenas algo abaixo do nível dos homens? Além disso, as autoras levantam preocupações com a privacidade das atletas, dada a dificuldade de se manter o sigilo das investigações.

O artigo (que recomendo fortemente) não apenas demonstra como certas concepções equivocadas de sexo biológico e de sua relação com gênero são amplamente difundidas até mesmo entre supostos experts, como mostra que essas preocupações com competição justa servem apenas para acobertar o policiamente de gênero que as atletas sofrem. Afinal, os fatores apontados como indicativos de excesso de testosterona (sem que haja fundamentação para tanto) são traços vistos como “masculinos” – e, paradoxalmente, também associados com atleticismo. Como dizem as autoras, “mulheres atletas sempre estiveram sob suspeita e mulheres com traços intersex serviram com frequência de bodes expiatórios para ansiedades amplas sobre a contradição de gênero inerente no próprio conceito de uma atleta de elite.”

Tagged , , , , ,

One thought on “Testes de sexo e policiamento de gênero entre atletas profissionais

  1. carol says:

    muito interessante, thais

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: