Abaixo as princesas

Eu confesso que adoro contos de fadas; tenho alguns livros de contos em casa que leio e releio sempre. Também adoro os filmes da Disney, com suas histórias de príncipes e princesas e finais felizes. Contudo, pensar que as princesas dessas histórias, tão tradicionalmente femininas, delicadas e, em geral*, não empoderadas são a referência para crianças me incomoda. Incomoda mais ainda ao ver a indústria das princesas Disney e seus mil produtos cor-de-rosa que tiram qualquer valor que essas personagens podiam ter e as reduzem a princesas em vestidos bonitos. Pensei, então, que poderia fazer uma lista de alguns livros infantis e infanto-juvenis com boas personagens femininas. Esta lista não é apenas para meninas; meninos que só entram em contato com histórias em que homens são heróis e mulheres são princesas a serem resgatadas têm mais chance de crescer achando que mulheres não importam tanto quanto homens, que são menos corajosas, capazes, inteligentes e por aí em diante. Esta é uma lista para crianças, ponto. Para começar, dois livros para crianças pequenas:

Cabelo Doido

Ela disse: “Não que seja do meu interesse, mas, senhor, que cabelo doido é esse?”

Cabelo doido é um poema escrito por Neil Gaiman e ilustrado por Dave McKean. O poema é um diálogo entre Bonnie, uma menina de três anos**, e o dono do tal cabelo doido e totalmente indomável, que abriga animais selvagens, navios de piratas, dançarinos, músicos e muitas coisas mais. As ilustrações são lindas é o poema é muito divertido. Apesar de ter poucas falas, Bonnie é uma personagem bem interessante. Ela é curiosa, corajosa e tem espírito aventureiro. Em pouquíssimas palavras, ela se mostra uma referência muito mais positiva do que certas séries inteiras *coff* Crepúsculo *coff*

OS LOBOS DENTRO DAS PAREDES

Se os lobos saírem de dentro das paredes, está tudo acabado

Outro livro de Neil Gaiman e Dave McKean, Os lobos dentro das paredes é a história de Lucy, que um dia escuta barulhos estranhos em sua casa e conclui que há lobos dentro das paredes. Incapaz de convencer sua família, ela ouve de todos – mãe, pai e até do irmão mais novo – que “se os lobos saírem de dentro das paredes, está tudo acabado”. Lucy não se rende tão fácil e é quem toma a atitude para resolver o problema. A história é curta, mas muito bem escrita e ilustrada. É engraçada, um pouco assustadora, e tem um final inesperado.

Além de Lucy, o livro tem outra personagem feminina: sua mãe, com quem ela tem uma boa relação. Isso pode não parecer muito, mas em muitas histórias há uma única personagem feminina em meio a um mar de personagens masculinos. Mães, em particular, com frequência são deixadas de fora da história (pense em quantos filmes da Disney os personagens principais não têm mãe) ou dão lugar a madrastas malvadas (basicamente todos os contos de fadas ever). Histórias com representações verdadeiramente positivas de mulheres não podem mostrá-las apenas em relação a homens, como parte da história maior e mais importante dos homens. Também não podem mostrar as relações entre mulheres como sempre negativas, marcadas pela competição e pela inveja. Histórias com representações positivas refletem o que é a realidade: as histórias inter-relacionadas de muitas mulheres e homens, às vezes cooperando, às vezes competindo, às vezes se ajudando e às vezes se prejudicando mutuamente, e por aí em diante. Só princesas e madrastas malvadas não capturam o que há, de fato, no mundo.

Menção honrosa:

11011206 Quem quer este rinoceronte?, de Shel Silverstein, apresenta as muitas vantagens (e algumas desvantagens) de se ter um rinoceronte de estimação. O único personagem de fato da história é o rinoceronte do título, mas meninas e meninos aparecem interagindo igualmente com ele, e mesmo brincando em conjunto, contrariando as expectativas de 90% da indústria de brinquedos.

* Mulan é a exceção óbvia, mas Tiana, do A Princesa e o Sapo, e Rapunzel, do Enrolados, não ficam muito atrás.
** Na versão original do poema, Gaiman escreve “I’m forty, Bonnie’s three”. Na tradução, contudo, o verso virou “Nós estávamos calados ali” e essa informação se perde para que se mantenha a rima.

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