Lilo e Stitch, gênero e ridículo

Quando decidi adotar uma cachorra, fiz uma lista de nomes possíveis. Havia alguns critérios de inclusão. Eram nomes de personagens de livros, filmes, séries de TV, ou mesmo músicas, de que eu gostava. O nome em si tinha que ser bonito; a personagem mais legal do mundo não me convenceria a colocar um nome feio na minha cachorra. O nome tinha que ser curto, porque nome de cachorro serve um propósito: tem que ser algo que o cachorro aprenda e a que responda quando chamado. Nomes como Lord Benedict Pickles III são engraçados, mas atrapalham. Também queria um nome simples de entender. Meu cachorro anterior se chamava Einstein (minha escolha) e qualquer consulta ao veterinário tornava necessário dizer “Einstein. E-i-n-s-t-e-i-n.” Dado tudo isso, acabei optando por Lilo, personagem principal do filme Lilo e Stitch, da Disney.

Sou fanática por animações, cresci com os filmes clássicos da Disney (Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin, Rei Leão…) e considero Lilo e Stitch um dos melhores do estúdio – certamente o melhor desde Mulan. É uma história bastante atípica para padrões Disney (aliás, para padrões Hollywoodianos também). O centro do filme é o relacionamento entre duas irmãs. A história não dá espaço para romance. Ao contrário da grande maioria dos filmes do estúdio, nenhum dos personagens principais (e quase nenhum dos secundários) é branco. As mulheres e meninas que aparecem no filme fogem do padrão magra-com-cintura-de-5cm que a Disney instituiu para suas personagens principais. Nani e Lilo são raras também por serem uma família pobre, ao menos nos padrões de pobreza dos Estados Unidos: menos uma ausência de bens do que uma instabilidade e insegurança permanentes, expressos no impacto devastador e imediato que a perda de emprego de Nani tem na vida das duas.

Essas características todas são fantásticas, mas não importariam tanto se não fosse pelo fato de Lilo e Stitch ter uma história ótima com personagens incríveis. Cobra Bubbles parece, no início, uma piada simples: o cara durão que está no papel de cuidar de crianças (Arnold Schwarzenegger e Vin Diesel já fizeram filmes cuja premissa inteira se resumia a isso). No fim, é um personagem que genuinamente se importa com o bem-estar de Lilo e que parece totalmente razoável, mesmo quando insiste em tirar Lilo de Nani – algo que facilmente o tornaria o vilão em uma história menos bem feita. Nani é uma adolescente, o que geralmente a relegaria ao papel de desmiolada inconsequente. Ao contrário, o filme retrata-a como uma pessoa fazendo o melhor que pode em circunstâncias extremamente difíceis. Talvez o mais interessante numa história voltada para crianças é que Nani é indiscutivelmente uma pessoa boa que tenta ao máximo e ainda assim falha – algo muito mais complexo do que se costuma ver nesse tipo de filme, em que os maus sempre perdem e os bons sempre ganham. Os alienígenas conseguem ser antagonistas simpáticos, por quem você acaba torcendo (ao menos um pouco) e totalmente hilários sem serem irritantes, como personagens “alívio cômico” costumam ser. E, claro, a própria Lilo é fantástica porque é uma criança. Não um mini-adulto em corpo infantil, mas uma criança crível, que briga com a irmã, bate nas outras crianças, não sabe lidar com a solidão que enfrenta como órfã pobre e excluída, e, ao mesmo tempo, é criativa, fofinha e engraçada.

Com todos esses motivos, Lilo me pareceu perfeito. Não imaginei por um segundo que isso se tornaria um problema. “É um filme da Disney”, pensei, “super conhecido e adorado. Claro que todo mundo vai entender na hora”. Aparentemente superestimei a popularidade do filme; acho que umas três pessoas, no máximo, captaram a referência. Isso, por si só, não seria um problema. O problema é a dificuldade de enteder que um nome terminado em “o” pode ser feminino. Minha escolha inocente acabou sendo um exemplo gritante de como as estruturas de gênero são introjetadas ao ponto do ridículo.

Começando pelo (que deveria ser) óbvio: cachorros não têm gênero. Cachorros têm sexo, mas gênero é um fenômeno de outra ordem. Sabe como cachorro acha que está vendo outro cachorro quando se vê no espelho, e até mesmo começa a latir e chamar para brincar? Isso é porque cachorros não têm consciência de si, como humanos têm, assim como não têm identidade. Para um cachorro, seu nome é apenas um sinal sonoro a que foi treinado a responder. Não tem qualquer conexão com uma imagem de si, uma identidade. Cachorros tampouco classificam e distinguem-se uns aos outros de acordo com diferenças sexuais como humanos o fazem. Qualquer atribuição de gênero a um cachorro é mera projeção.

Qual a necessidade, então, de se dar nomes femininos e masculinos para fêmeas e machos, respectivamente? De comprar vestidinhos e sainhas para uns e gravatas para outros? Não vou entrar na discussão de como animais domésticos, e cachorros em particular, são pessoalizados em culturas como a brasileira. O fato é que atribuímos tantas características humanas a cachorros, não é de se espantar que se atribua as noções introjetadas de gênero também. Assim, cachorros machos passam a ser a expressão dos traços associados a homens, enquanto fêmeas passam a ser expressão do que se atribui a mulheres. As divisões de gênero são a tal ponto naturalizadas que passa a ser impensável dar um nome que não seja absolutamente feminino a uma fêmea, ainda que para ela isso não faça a menor diferença, ainda que gênero seja um conceito inteiramente externo a sua existência. As pessoas que encontro na rua ficam chocadas – chocadas! – ao descobrir que minha cachorra tem um nome terminando em “o”. Pedem para repetir, assumem que ela é macho, ficam confusos. Alguns dizem até coisas como “que diferente, né?” e eu pensando É UM NOME DE CACHORRO, por que essa surpresa?

A moral da história, até agora, parece ser: cachorro pode ter nome de comida, de instrumento musical, de time de futebol, de cidade, de objeto, etc etc. Mas uma fêmea com nome terminado em “o”, aí não dá. É demais para as pessoas processarem.

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One thought on “Lilo e Stitch, gênero e ridículo

  1. Bárbara says:

    Uau!
    Minha cachorra também se chama Lilo e eu passo por isso sempre quando perguntam o seu nome! Chega a ser ridículo, né?
    Texto muito bom! Parabéns!

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