Sobre amamentação

Qualquer pessoa que tenha filhos ou que conheça quem tenha conhece a recomendação de amamentar crianças exclusivamente pelos primeiros 6 meses de vida e de continuar amamentando depois disso até, no mínimo, dois anos. Não é difícil se deparar com declarações ou campanhas de órgãos internacionais como a Organização Mundial de Saúde ou a Organização Pan-Americana da Saúde ou do próprio Ministério da Saúde defendendo a amamentação como crucial para a saúde das crianças. Com base nisso, amamentar é hoje visto como uma das principais responsabilidade de mães para com seus filhos e, para muitos (talvez a maioria), amamentar por si só garante que a criança crescerá saudável. Só que não é bem assim.

Os resultados de uma pesquisa publicada recentemente indicam que os benefícios da amamentação foram em muito superestimados. Essa pesquisa não encontrou qualquer diferença entre crianças amamentadas e não-amamentadas em relação a medidas como IMC, obesidade, hiperatividade e desempenho escolar.

Por que devemos levar em consideração o que esse estudo aponta? Os autores do estudo fizeram duas comparações: a primeira, entre o conjunto de crianças que foram amamentadas e as que não foram, que mostrou um efeito positivo da amamentação. A segunda comparação foi feita apenas entre irmãos que foram alimentados de forma diferente. Isso é importante porque existem muitos fatores que afetam tanto a saúde da criança quanto a capacidade da mãe de amamentar. Pessoas em situações de emprego precárias, autônomas, ou que trabalhem no setor informal não podem contar com a certeza da licença-maternidade. Se também tiverem renda baixa, essas pessoas provavelmente terão que voltar a trabalhar antes que o filho complete seis meses, o que interfere na sua capacidade de amamentar. Mesmo quem tem a licença não necessariamente terá condições de continuar amamentando, especialmente se tiver mais de um trabalho e/ou gastar muito tempo se deslocando de casa para o emprego – algo também mais comum entre pessoas de renda baixa.

Contudo, seguindo o exemplo, ser de família de renda baixa, por si só, já faz com que crianças tenham saúde pior do que as que nascem em famílias de renda alta. Fica a pergunta então: as diferenças percebidas entre as crianças amamentadas e não-amamentadas na primeira comparação se devem à amamentação ou ao conjunto de fatores que faz com que amamentar seja mais fácil para uns do que para outros? O estudo tenta resolver esse problema comparando irmãos. Assim, é possível garantir que as características das famílias das crianças comparadas são iguais e, com isso, gerar resultados que se aproximam do efeito exclusivo da amamentação.* Isso não significa que a pesquisa seja perfeita, nem que deva ser a única informação considerada em relação à decisão de amamentar ou não (Este post lista algumas das limitações do estudo e outros tipos de investigação relevantes para o tema, para quem tiver interesse).

Se a pesquisa mostra que sobrevalorizamos a amamentação, não significa que ela deva ser abandonada. As conclusões a serem tiradas dessa pesquisa, na minha opinião, são duas:

1) Ainda que a amamentação seja positiva, ela não precisa ser vista como prioridade máxima, nem como fundamental para o desenvolvimento saudável de crianças. Isso é importante porque muito do discurso ao redor da amamentação segue um padrão preocupante da forma como mães (ou mesmo pessoas que somente têm a capacidade de engravidar) são vistas. De acordo com esse padrão, não existe benefício pequeno demais para as crianças, nem sacrifício grande demais para as mulheres. Desde o momento da concepção, as mulheres grávidas deixam de ser vistas como pessoas autônomas e dotadas de subjetividade** e tornam-se nada mais do que sistemas de suporte à vida. Espera-se que a mulher grávida não só assim permaneça, mas que torne-se então mãe e, com isso, subordine todas as suas decisões de vida à criança – mesmo que isso não seja o que deseja, mesmo que isso não implique em qualquer benefício tangível para nenhuma das duas. A cobrança em relação à amamentação deixa clara a expectativa de que a mulher planeje a vida inteira ao redor da disponibilidade para os filhos e nenhum motivo é bom o bastante para deixar de fazê-lo. Se olharmos de forma mais racional os benefícios que a amamentação traz, podemos tirar essa pressão social e deixar que mulheres tomem as melhores decisões para si e para suas famílias, sem sofrer da neurose de não ser uma boa mãe por não conseguir/querer amamentar.

2) O que determina a saúde de uma pessoa não é um único fator, mas sim um conjunto de fatores que se relacionam entre si de forma complexa. A discussão sobre amamentação transforma um problema social numa responsabilidade individual: as mães precisam amamentar os filhos e, com isso, eles serão saudáveis. O que esse discurso esconde é que, na verdade, um compromisso de fato com a saúde infantil requer que se reduza a pobreza, aumente a escolaridade, melhore os serviços de saúde públicos, garanta o acesso a saneamento básico, combata todo tipo de discriminação e toda longa lista de problemas estruturais que estão longe de ser resolvidos em nossa sociedade. Não existe cura milagrosa, nem adianta esperar que as mães, sozinhas, garantam que seus filhos cresçam saudáveis.

Ah, e mãe: desculpa por ter implicado com você por ter me amamentado pouco. Era só brincadeira, mas não custa deixar claro.

*Outro ponto positivo do estudo destacado no link é que ele seguiu crianças dos 4 aos 14 anos, dando uma perspectiva de longo prazo dos efeitos da amamentação.
**Se é que chegam a ser totalmente vistas assim.

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