O que você precisa saber sobre a vacina contra HPV

A partir de amanhã a vacina contra o HPV será distribuída no SUS. É uma vacina que previne doenças sexualmente transmitidas que é aplicada em meninas novas (este ano, o público-alvo da vacinação serão meninas de 11 a 13 anos de idade). Essa combinação infelizmente tende a gerar reações histéricas, então achei que valia a pena disponibilizar algumas informações sobre a vacina.

Começando pelo HPV em si. O HPV, ou vírus do papiloma humano, é um vírus transmitido por via sexual e que causa verrugas e alguns tipos de câncer. Estima-se que até 75% de homens e mulheres sexualmente ativos contraiam o HPV durante suas vidas e não existe tratamento para o vírus, uma vez contraído. Felizmente, a maioria das infecções por HPV são assintomáticas, mas o HPV é responsável por cerca de 70% dos casos de câncer de colo de útero[1]. O câncer de colo de útero, ou cervical, é o “terceiro tumor mais frequente na população feminina, atrás do câncer de mama e do colorretal, e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil”, de acordo com o INCA [2]. O objetivo da distribuição da vacina é justamente reduzir o número de mulheres que desenvolvem o câncer de colo de útero e, consequentemente, que morrem da doença. Contudo, a vacina só é eficaz quando aplicada antes da exposição ao HPV (ver [1]), o que, dada a alta prevalência do vírus na população sexualmente ativa, requer que as pessoas sejam vacinadas antes de iniciar sua vida sexual. É por esse motivo que a vacina será oferecida a meninas de 11 a 13 anos*.

Agora que cobrimos o básico, vamos às críticas:

1) A vacina não é segura
Como pode ser visto neste infográfico, depois de serem vacinadas contra o HPV, cerca de 0,1% das pessoas sofreram efeitos colaterais leves (desmaio, tontura, enjoo, dor de cabeça, febre, dor no local de aplicação); 0,009% das pessoas sofreram efeitos colaterais sérios (que exigiram internação hospitalar); e 0,0004% morreram – mas nenhuma dessas mortes foi causada pela vacina em si. É importante entender que quando se diz que alguém morreu “depois de tomar a vacina”, isso significa apenas que um evento seguiu-se ao outro no tempo. Se alguém tiver tomado a vacina e depois sofrido um acidente de carro e morrido, ela terá morrido depois de tomar a vacina, mas não por causa da vacina. Algumas pessoas ignoram essa distinção para tentar fazer a vacina parecer menos segura do que é.

É possível que a vacina cause efeitos no longo prazo, o que ainda não é possível avaliar devido ao seu desenvolvimento recente. Contudo, isso é verdade de qualquer medicamento que chegue ao mercado. A lógica que se aplica nesses casos é de que os benefícios que o medicamento traz valem o risco de efeitos colaterais de longo prazo inesperados. No caso da vacina do HPV, que se mostrou, até agora, altamente eficaz e segura, essa lógica cabe. O que nos leva à segunda crítica:

2) A vacina não é custo-efetiva
Não existe tratamento para o HPV, mas existe tratamento para o câncer de colo de útero, que é altamente eficaz quando o câncer é detectado cedo. O exame usado para detectar o câncer é conhecido como papanicolau e é altamente eficaz e muito mais barato do que a vacina. Além disso, o câncer de colo de útero se desenvolve lentamente, dando bastante tempo para que seja detectado ainda nos estágios iniciais. Realizando esse exame regularmente, é praticamente garantido que a mulher não morrerá de câncer de colo de útero. Além disso, as vacinas atualmente disponíveis cobrem apenas dois ou quatro subtipos do HPV, mas o papanicolau detecta os efeitos de todos os subtipos. Somando tudo isso, não há motivos para que se vacine, certo?

Errado. Se tivéssemos um sistema de saúde perfeito, que garantisse todas as consultas a todos os pacientes, bem como o processamento com qualidade e em tempo hábil de todos os exames, esse argumento poderia ter validade. Acontece que o SUS certamente não é esse sistema perfeito e a realidade com que nos deparamos é outra. Os estudos apontam que a cobertura do papanicolau varia de acordo com as regiões e características como renda e escolaridade. A história é a mesma que já estamos cansados de ouvir: mulheres de renda e escolaridade altas e que vivem em áreas urbanas realizam o exame mais dos que as de renda e escolaridade baixas e que vivem em áreas rurais [3].

Estudos de escopo nacional realizados em 2003 apontaram uma cobertura do exame abaixo de 70%, sendo que, de acordo com a OMS, a cobertura mínima necessária seria de 80%. Não só isso, mas a qualidade dos exames realizados no Brasil está aquém do necessário e um número elevado (cerca de 45%, entre 1995 e 2002) de mulheres que só recebem o diagnóstico num momento em que o câncer está avançado demais para que o tratamento seja efetivo [3]. Olhar para essa realidade e dizer, “não precisamos de vacina, o exame nos basta” é demonstrar total ignorância da realidade do acesso à saúde no país.

Isso não significa que devemos abandonar o exame. Da mesma forma que não sabemos se a vacina tem efeitos colaterais de longo prazo, também não sabemos qual será sua eficácia no longo prazo. Além disso, como dito acima, ela só previne contra alguns subtipos do vírus. Nos Estados Unidos, identificou-se que os subtipos do HPV encontrados em mulheres negras são diferentes dos encontrados em mulheres brancas – e a vacina só previne contra os subtipos encontrados em mulheres brancas [4]. É óbvio que é importante fortalecer o SUS e garantir o acesso a esse exame e tantos outros. O que a vacina representa é uma proteção extra. A eficácia da vacina está perto de 100%, de acordo com os estudos realizados (ver [1]). Por que não oferecê-la também, ao lado do papanicolau?

Se você for razoável, provavelmente não conseguirá pensar em nenhum motivo. Para certas pessoas, contudo, o motivo é:

3) OH NÃO, VÃO FALAR DE SEXO PARA GAROTINHAS

Olha, eu sei que para muita gente é profundamente desconfortável pensar que seus bebês um dia vão fazer sexo e é pior ainda ter que falar sobre sexo com seus filhos, especialmente quando eles são novos. Acontece que seus filhos quase certamente vão fazer sexo em algum momento de suas vidas. Aliás, é melhor partir do pressuposto de que isso certamente vai acontecer porque 1) na grande maioria dos casos é verdade; e 2) você precisa se assegurar de que, quando isso acontecer, seus filhos saberão se proteger. E não, falar com seus filhos sobre sexo não vai fazer com que eles iniciem suas vidas sexuais mais cedo, nem que tenham mais parceiros, nem que se comportem de maneira mais arriscada. Pelo contrário: pesquisas que compararam os resultados de programas de educação sexual que apenas falavam de abstinência com os que discutiam uso de contraceptivos mostram que os jovens que aprendem sobre contracepção iniciam a vida sexual mais tarde, têm menos parceiros, relatam uma proporção mais alta de uso de camisinha e proporções mais baixas de gravidez na adolescência [5]. A vacina contra o HPV não só protegerá suas filhas contra uma doença gravíssima, como dá a oportunidade de ter uma conversa sobre doenças sexualmente transmissíveis e sexo seguro. Isso pode ser difícil, mas é necessário. Mais importante: não se sentir à vontade para falar sobre sexo com seus filhos não é motivo para se opor a uma vacina que pode salvar suas vidas.

E é isso por hoje. Ficou longo, mas eu espero que ajude.

[1] Informações disponíveis em: http://www.ghjournal.org/jgh-print/fall-2012-issue/human-papillomavirus-a-canadian-investigation-into-the-global-vaccination-controversy/
[2] http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/colo_utero/definicao
[3] Informações disponíveis em: http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v30n5/a02v30n5.pdf
[4] http://www.dukehealth.org/health_library/news/hpv-strains-affecting-african-american-women-differ-from-vaccines
[5] Informações disponíveis em: http://www.advocatesforyouth.org/publications450

*Mais adiante, a idade de vacinação será aos 9 anos.

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