Introdução ao gênero: sexo

Primeira parte da introdução ao gênero que começou na apresentação

***

Esta parte é fácil, certo? Seres humanos têm diferenças físicas óbvias relacionadas à reprodução que dividem-nos em dois grupos. Podemos encerrar a discussão por aqui e partir para outras coisas.

Exceto que a realidade é mais complicada do que isso.

Vamos primeiro pensar no que o sexo é. O sexo, tal como o entendemos, é a combinação de diferentes características: cromossomas, hormônios, órgãos reprodutores e características secundárias de sexo (como ter ou não seios ou a quantidade de pêlos no corpo, para citar apenas dois exemplos). Ao contrário do que aprendemos na escola, nenhuma dessas categorias é binária; ou seja, há mais de duas opções em cada uma delas. Além disso, há mais de uma forma de essas diferentes características se combinarem. Para dar apenas um exemplo, existem pessoas que têm cromossomas XY mas que são insensíveis à testosterona e, por isso, desenvolvem fenótipos do sexo feminino. Elas são, assim, intersex, um termo que descreve todas as pessoas que não se enquadram na definição de sexo masculino ou feminino. Existem muitas formas de se ser intersex e pessoas intersex são de todos os gêneros possíveis (mas falaremos mais sobre identidade de gênero mais tarde). O que acontece com a espécie humana é que o sexo biológico existe num contínuo. A maioria das pessoas está em uma das duas pontas (sexo feminino ou masculino), mas existem inúmeras possibilidades no meio. Mais importante: essas possibilidades não são erros ou problemas de desenvolvimentos. Elas são parte da diversidade natural humana*.

Reconhecer essa diversidade é importante por vários motivos. Isso nos permite refutar a ideia de que humanos naturalmente se dividem em dois grupos e que, portanto, rejeitar esse binarismo é antinatural. Também é importante porque pessoas intersex são alvo de discriminação, além de frequentemente serem submetidas a intervenções médicas desnecessárias que visam a adequar seus corpos ao que se considera “normal”. Educar pais, médicos e a sociedade em geral sobre o que significa ser intersex é passo fundamental na garantia dos direitos dessas pessoas.

Mesmo com toda essa diversidade, seria possível argumentar que aquelas pessoas que se encontram nas pontas do contínuo (e que, afinal, são a maioria dos humanos) são essencialmente diferentes devido à diferença de sexo. Hoje em dia, com o desenvolvimento da neurociência, esse argumento geralmente se baseia na ideia de que os cérebros de homens e mulheres são fundamentalmente diferentes. Já dá para saber que o que vem agora é um “não é bem assim”.

Em primeiro lugar, a forma como o conhecimento produzido pela neurociência é veiculado pela mídia deixa a desejar (para dizer o mínimo). Vaughan Bell aponta um problema sério na forma como entendemos os estudos sobre o cérebro:

Imagens extremamente coloridas de cérebros são favoritas da mídia porque são simultaneamente atraentes e aparentemente fáceis de se compreender, mas, na realidade, elas representam algumas das informações científicas mais complexas que temos. Elas não são mapas de atividade, mas mapas do resultado de comparações estatísticas complexas de fluxos sanguíneos que se relacionam de forma desigual ao funcionamento real do cérebro. Isso é um problema de que os cientistas estão perfeitamente cientes mas que com frequência é deixado de lado quando os resultados chegam à imprensa.

Brightly coloured brain scans are a media favourite as they are both attractive to the eye and apparently easy to understand but in reality they represent some of the most complex scientific information we have. They are not maps of activity but maps of the outcome of complex statistical comparisons of blood flow that unevenly relate to actual brain function. This is a problem that scientists are painfully aware of but it is often glossed over when the results get into the press.

Mesmo antes das distorções introduzidas pela mídia, os estudos que supostamente indicariam diferenças nos cérebros de pessoas do sexo masculino e feminino já sofrem de limitações sérias. Em primeiro lugar, e como o próprio Bell reconhece, querer usar um estudo desse tipo como prova biológica da existência de uma diferença é um argumento circular porque os estudos de neurociência “tipicamente comparam grupos baseados em diferenças identificáveis e depois buscam saber como isso se reflete no cérebro” (“typically compare groups based on identifiable differences and then look for how this is reflected in the brain.”). Ou seja, estudos desse tipo que comparam homens e mulheres partem do princípio de que há uma diferença entre os dois grupos e depois buscam demonstrá-la no cérebro. É claro que um estudo com esse desenho já está enviesado para encontrar diferenças e o argumento, como diz Bell, torna-se circular.

Em segundo lugar, mesmo quando alguma diferença é identificável, ela é tênue. Neste vídeo (com legendas em inglês), a professora Daphna Joel explica que algumas características do cérebro são diferentes entre pessoas do sexo feminino e masculino, mas que essas diferenças se invertem em resposta a diferentes estíumlos. Longe de um todo masculino ou feminino, ela conclui, o cérebro de cada pessoa é um mosaico único de características femininas e masculinas. Já Cordelia Fine, autora do livro “Delusions of gender”, mostra como as diferenças identificadas em estudos de neurociência entre homens e mulheres em relação a habilidades específicas (como localização no espaço ou empatia) são mínimas. Fine também ressalta que esses estudos raramente dão conta de discutir a plasticidade do cérebro. Dizer que o cérebro é plástico significa que seu desenvolvimento responde aos estímulos que ele recebe. Considerando-se a forma diferente como meninos e meninas são tratados em nossa sociedade, não é possível olhar para as (mínimas) diferenças que existem e concluir que elas são, necessariamente, reflexo de diferenças biológicas, sem descrever seu desenvolvimento.

O resumo disso tudo, para quem tem preguiça de ler: o sexo biológico é uma articulação – que pode se dar de diferentes formas – de várias características, nenhuma das quais é binária. Os seres humanos existem num contínuo em termos do sexo biológico, com a maioria das pessoas ocupando as pontas (sexo feminino ou masculino) e uma diversidade imensa no meio. Essa diversidade é parte natural da nossa espécie. Mesmo em relação os grupos que estão nas pontas, não é possível afirmar que existam diferenças necessárias e biológicas com base numa ideia de que o cérebro masculino é diferente do feminino.

Continua na parte 2 e na parte 3!

*A quem se interessar mais, recomendo também este post, que descreve um estudo sobre o switch que controla a expressão do cromossoma Y e que conclui que fetos masculinos “se denvolvem perto da fronteira da ambiguidade sexual” (“human males actually develop near the edge of sexual ambiguity”)

Tagged , , , , ,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: