Dicas para preparar um texto para tradução

Perguntei aos meus amigos se este guia seria interessante e obtive respostas positivas suficientes para escrevê-lo. Tenha em mente algumas coisas:
1) Tenho experiência basicamente com textos acadêmicos e alguns textos de divulgação. O objetivo de todos é comunicar alguma informação da forma mais clara possível e é esse o critério que orienta estas dicas. Em outros tipos de texto, questões de estilo pessoal ou de aproximação da forma de falar de certas pessoas podem ser mais importantes. 2) Há casos em que alguém escreve um texto, publica-o e depois alguém decide que vale a pena traduzi-lo. Óbvio que, nesses casos, as pessoas devem escrever da forma que for mais conveniente e os tradutores que se virem. Aqui, estou pensando nos casos em que alguém escreve um texto com o propósito específico de traduzi-lo para outra língua. 3) Faço traduções português-inglês e as dicas aqui refletem isso. Traduções entre línguas latinas costumam ser mais acomodadoras das particularidades dos estilos de cada uma. O inglês introduz uma diferença maior (e, portanto, requer mais trabalho). Acho que ainda assim vale porque o inglês é * a * língua internacional, o que significa que em muitos, quando não na maioria, dos casos, é a língua para a qual o texto será traduzido. Além disso, muito do que vou dizer aqui ajuda independentemente de qual seja a língua. 4) Bons tradutores são capazes de compensar muitos dos problemas sobre os quais trato aqui. Contudo, há limites até para o que bons tradutores podem fazer e, como a qualidade do trabalho das pessoas varia, me parece melhor ter um texto que assegure o mehor resultado possível, independentemente de quão boa a pessoa é que irá fazer o trabalho.

O cerne dos meus conselhos é: simplifique. Aqui no Brasil não somos exatamente objetivos quando escrevemos e isso se reflete em más traduções que não conseguem tirar a gordura dos textos e ficar apenas com o que importa. Em termos práticos, simplificar significa:

usar menos a voz passiva. Por algum motivo que me escapa, é considerado de extremo mau gosto dizer diretamente que você fez alguma coisa em textos acadêmicos. Escrevemos que “a pesquisa foi feita”, “dados foram coletados”, “resultados foram encontrados”, e por aí vai (ou dizemos “nós fizemos” mesmo quando há apenas um autor). No inglês, esse tipo de estrutura é a morte. É claro que há muitos casos em que é simples fazer a mudança (“coletei os dados”, “encontrei os resultados”), mas nem sempre é o caso. Melhor fazer o esforço de usar menos a voz passiva.

escrever frases mais curtas. Já vi textos com frases de sete, nove, doze linhas (e, geralmente, textos assim costumam ter vários exemplos de frases longas). Isso já não funciona muito bem em português. Em inglês, é um desastre. Considere bem o que você está escrevendo. Qualquer frase com mais de duas linhas merece ser encarada com suspeita. Na maior parte dos casos, é possível separá-las em várias com facilidade. Fazer isso aumenta as chances de um bom texto final.

não usar termos diferentes para se referir à mesma coisa. Isso é muito comum. Para evitar a repetição, dizemos, por exemplo “as trabalhadoras”, “as funcionárias”, “as mulheres empregadas pela empresa X”, “as entrevistadas”, “as informantes” para descrever um mesmo conjunto de pessoas. O número de sinônimos aumenta quanto mais central ao texto for o conceito. Em inglês, isso só serve para gerar confusão. Tente usar apenas um termo e usar mais pronomes – no caso do exemplo, ao invés de substituir “as trabalhadoras” por qualquer um dos outros termos, usar apenas “elas”.

mudar a forma de introduzir parágrafos. Outra coisa muito comum em textos em português: começar parágrafos com “Em termos de…”, “Com relação a …”, “No que diz respeito a …”. Isso na verdade não adiciona nada em termos de conteúdo, é apenas uma forma padrão de se fazer a ligação entre parágrafos – o que é ótimo em português, mas não funciona em inglês. Num texto em inglês, esse tipo de introdução parece excessivo e torna a leitura chata. Quando for revisar seu texto, tente ter isso em mente.

Algumas dicas adicionais, que não cabem sob o rótulo de simplificação, são:

incluir os termos técnicos em inglês. Em muitos casos, quando estamos escrevendo textos acadêmicos, usamos termos técnicos e conceitos de origem inglesa. Pesquisar esses termos faz sim parte do trabalho dos tradutores, mas, se você já sabe o que eles são, não custa incluí-los. Isso agiliza o trabalho e garante que o seu texto não acabará com termos errados.

incluir informações que não são de conhecimento de estrangeiros. Informações sobre o contexto local ou nacional podem parecer auto-evidentes, mas, para leitores estrangeiros, não são. Seu texto cita leis específicas? Órgãos de governo? Políticas públicas? Regras institucionais? Mesmo que não cite diretamente, saber alguma dessas coisas é importante para entender do que você está falando? Inclua uma pequena explicação para situar seus leitores. Novamente, bons tradutores adicionam informação de contexto ao texto final, mas não necessariamente terão familiaridade suficiente com o tema para saber que uma informação é importante.

enviar o texto original mesmo em pedidos de revisão da tradução. Saber se uma tradução está bem feita depende de saber o que estava escrito no original. É bom lembrar que se a tradução não estiver bem feita, a revisão pode dar mais trabalho do que fazer uma nova e a pessoa que você contratou cobrará de forma condizente com esse trabalho.

ter um só tradutor. Eu entendo que isso nem sempre é possível. Textos acadêmicos passam por muitas revisões, especialmente quando são escritos por muitos autores. Às vezes você contratou alguém para fazer a tradução e depois não quer jogar fora nem o trabalho, nem o valor que pagou só porque fez algumas alterações no texto original. De qualquer forma, é sempre preferível ter só uma pessoa encarregada da tradução, da mesma forma que, num texto escrito a muitas mãos, é bom ter alguém encarregado da redação final. Tradutores têm estilos diferentes, fazem escolhas diferentes e o resultado final corre o risco de ficar pouco coeso se mais de um for responsável pelo trabalho.

E o último, e mais importante: O GOOGLE TRANSLATE NÃO É SEU AMIGO. Se você não consegue escrever o texto em uma língua também não tem capacidade para julgar se o que o Google Translate sugeriu é absurdo (e com frequência é). Afaste-se do computador e peça para alguém com domínio da língua e conhecimento de tradução fazer o trabalho.

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One thought on “Dicas para preparar um texto para tradução

  1. Recebi retorno de um artigo da área de Saúde Coletiva sugerindo aos autores (meus colegas e eu mesma) usarem menos a voz passiva. Acho que agora entendi o porquê;-)

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