Category Archives: Feminismo

Sex from scratch

Nota: este post é uma resenha de um livro recém-lançado nos Estados Unidos e, por isso, apenas disponível em inglês. Fica como dica para quem lê inglês ou para quando for publicado por aqui, se isso chegar a acontecer.

Há pouco mais de três semanas, terminei um relacionamento longo e importante. Sendo o tipo de pessoa que sou, minha reação foi a de hiperanalisar tudo, de buscar entender o que houve e o por que e o que fazer agora – e de buscar ajuda com essas perguntas. Em meio a isso, descobri o livro Sex from scratch: making your own relationship rules e me vi, para meu total horror, interessada em um livro de auto-ajuda.

Eu poderia dizer que na verdade o livro é uma análise sobre como certos padrões de relacionamento são impostos a pessoas, ou que o que interessa são as entrevistas com pessoas com os tipos mais diferentes de experiências, mas isso seria desonesto. É um livro de auto-ajuda, ponto. Surpreendentemente, acho que é isso que o faz funcionar.

Explico: o propósito do livro é fazer com que os leitores reflitam sobre o que pensam e o que querem de relações românticas e, com isso, tenham relacionamentos melhores e vidas mais felizes. Se você for como eu, isso provavelmente não parece muito promissor, mas as ideias que temos sobre essas questões são tão arraigadas que me parece frutífero colocá-las nesses termos: o que você quer? Por que você quer isso? Há muito que as feministas dizem que o pessoal é político. Existe toda uma série de expectativas de como as pessoas devem ordenar suas vidas pessoais que é restritiva e opressora e talvez uma forma de se mudar isso seja levá-las a pensar por que querem o que querem e a encarar que existem outras possibilidades no mundo.

A verdade é que existe uma narrativa sobre o que as pessoas fazem e o que as pessoas fazem é casar e ter filhos e ficar com só aquela pessoa para o resto da vida. Isso é considerado uma vida bem-sucedida e qualquer desvio desse padrão é recebido com resistência e hostilidade (quando não violência). Para mulheres, em particular, a ideia de não estar em um relacionamento direcionado ao altar e filhos é em grande medida inaceitável – o que, como Amanda Marcotte ressalta, é uma ótima forma de assegurar que mulheres invistam uma boa parte de seu tempo e energia em “conseguir um homem” e que permaneçam em relacionamentos mesmo quando não valem a pena, só para estar com alguém.

Sex from scratch funciona ao focar no que é tabu e buscar desconstruir essas expectativas machistas, heterossexistas e furadas. O livro ataca, em sequência, a ideia de que estar em um relacionamento necessariamente é indicativo de “sucesso” na vida, ou melhor do que estar solteiro; de que todo relacionamento romântico deve ser mongâmico; de que todas as pessoas se conformam a uma visão binária de gênero, ou que o gênero é algo estável e idêntico para todas as pessoas; que ter filhos é necessário; que casar é necessário; e que o tempo de duração de um relacionamento é a maior marca do seu sucesso. No meio do caminho, ainda dedica um capítulo à necessidade de se construir relacionamentos feministas – especialmente, mas não apenas, no caso de pessoas em relacionamentos heterossexuais.

Para um livro sobre relacionamentos, Sex from scratch é muito pouco romântico. Ele está pouco interessado em dar dicas sobre como conquistar alguém e muito mais com questionar padrões e levar os leitores a confrontarem o que querem. Se me perguntar o que eu aprendi com ele, a verdade é que não muito. Para alguém que já pensa e discute essas coisas, o livro não tem muito a adicionar. Para quem ainda não tem familiaridade com essas ideiais, pode servir como uma boa introdução.

Sarah Mirk. Sex from scratch: making your own relationship rules. Microcosm Publishing: 2014. 192p.

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Cultura de estupro, de novo

“Ao tentar entrevistar o diretor teatral, Nicole [Bahls] foi atacada por ele. Gerald Thomas enfiou a mão dentro do vestido de Nicole, que ficou visivelmente constrangida com a atitude do entrevistado.” (da matéria do Ego)

Imagino que já tenham lido a notícia. Esse último exemplo da cultura de estupro só se destaca, talvez, pelo grau do absurdo: uma agressão aberta, em público, anunciando ao mundo a certeza de Thomas de ter direito ao corpo de uma mulher.

Não tenho muito a adicionar ao que já escrevi sobre a cultura de estupro. Fico feliz em ver a rapidez com que denunciaram não só a agressão, mas a falta de reação do público, que assistiu a tudo sem interferir, e a mídia, que minimizou o que ocorreu, dizendo apenas que “Por essa Nicole Bahls não esperava”.

A história não acaba aí, contudo. Thomas agora publicou um post se defendendo em que deixa clara não só sua misoginia, mas também sua arrogância. Ele não parece se conformar com o fato de que reles mulheres ousem criticá-lo. Se acham que exagero, cito diretamente:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido !

a mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas!

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa.

Ou seja: ela teve o que merece por se vestir de forma “provocadora”, ele só fez o que todos os homens querem fazer (porque todos os homens são, secretamente, agressores) e como é o que todos os homens querem é válido e, anyway, ele é artista, então ele pode. Como o Gerald Thomas adora misturar inglês e português para mostrar como ele é tão especial e inteligente, deixo aqui meu recado a ele: go fuck yourself.

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This is my body

Vídeo (infelizmente sem legendas) de mulheres defendendo seu direito ao próprio corpo. Algumas afirmações são respostas a situações específicas dos Estados Unidos, como as tentativas de políticos republicanos de retirarem o financiamento da organização Planned Parenthoood, impor barreiras ao acesso ao aborto (que é legal no país) e excluir a contracepção hormonal dos remédios que devem ser obrigatoriamente cobertos pelos planos de saúde. O que importa é a mensagem: este é o *meu* corpo.

 

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Os MRAs atacam

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Qualquer manifestação feminista sofre reações. Uma manifestação como a Marcha das Vadias, que se recusa a acatar ideias tradicionais do que é apropriado e desejável, recebe reações ainda mais ferrenhas. A imagem que ilustra este post nem é dos piores exemplos, mas reflete o que é possivelmente a reação mais bizarra ao feminismo: os grupos de direitos dos homens, ou men’s rights activists (MRAs, na sigla em inglês).

Jeff Fecke, do blog Shakesville, explica perfeitamente:

Todos esses grupos [os MRAs, a “National Association for the Advancement of White People” (“Associação Nacional para o Avanço de Pessoas Brancas”) e as pessoas que pensam que os cristãos são perseguidos nos Estados Unidos] compartilham de uma mesma visão de mundo, de que os grupos tradicionalmente oprimidos, sejam eles mulheres, minorias, ou não-cristãos, de alguma forma tomaram controle do país e estão sistematicamente negando os direitos dos homens heterossexuais, brancos e cristãos.

[O motivo da reação é que] os privilégios tradicionais dos homens realmente estão sob ataque. Mas esses direitos, como o direito de bater e estuprar sua esposa com impunidade, são anátema para uma sociedade verdadeiramente livre e igualitária.

Uma das principais críticas de Fecke aos MRAs é seu posicionamento em relação à violência sexual e doméstica. MRAs partem do princípio de que as vítimas mentem e que o sistema está enviesado para favorecer as acusadoras contra os acusados – coisa que claramente não é. Na imagem, aparece a demanda “Revisão da lei sobre violência doméstica”. Algo me diz que o autor da imagem não está criticando a leniência da lei com os agressores.

Fecke continua:

(…) MRAs também não querem pagar pensão aos filhos. Existe um segmento enorme do universo MRA que é alimentado por homens que têm raiva porque a ex ganhou a guarda dos filhos e agora eles têm que dar dinheiro para ajudar a sustentá-los.

Mas e o fato de que as mães geralmente ganham a guarda dos filhos? Fecke aponta o óbvio:

Numa sociedade realmente justa e equitativa, [a guarda seria divida igualmente]. Mas não vivemos numa sociedade realmente justa e equitativa. As mulheres acabam sendo as cuidadoras primárias na maioria dos casos. E o sistema de tutela é desenhado para favorecer o(a) cuidador(a) primário(a) na decisão da guarda dos filhos. Se homens fossem os cuidadores primários com mais frequência, eles ganhariam a guarda com mais frequência.

Evidentemente, isso não impede que o sistema seja enviesado para favorecer as mães, independentemente de como for dividido o cuidado com os filhos. A resposta a isso, contudo, é dada justamente pelo feminismo: é a divisão justa do cuidado dos filhos e a mudança de padrões culturais mais amplos que afirmam que cabe à mulher cuidar da casa e dos filhos.

Aliás, a primeira demanda da imagem também só pode ser resolvida pela própria ideologia que os MRAs tanto combatem e da qual tanto se ressentem. Dizer que é injusto que mulheres se aposentem mais cedo é ignorar que elas ainda realizam a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos – uma jornada dupla, ou até tripla, que não é contabilizada como tempo de serviço. Quando homens e mulheres trabalharem o mesmo número de horas também em casa, aí sim será possível ter a mesma idade de aposentadoria. Nesse sentido, concordo, sim, e sem ressalvas, com a demanda de licença paternidade de seis meses.

Quanto ao serviço militar: me parece uma atitude extremamente mesquinha de querer impor a todos o que é desagradável a um grupo. É claro que pode-se dar o benefício da dúvida e alegar que o autor queria apenas chamar a atenção para a necessidade de as mulheres cumprirem sua parte na provisão de um bem público realizando o serviço militar. Só que mulheres já estão nas forças armadas; não seria tempo de discutir a necessidade de serviço obrigatório em si? Mas isso é um outro tema para outro dia (e, provavelmente, outro blog)

PS: Antes que levem a sério, o título do post é referência a isto.

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Feminismo

Miss representation

O documentário Miss Representation* discute a forma como as mulheres são apresentadas na mídia e relaciona essa representação com a manutenção da desigualdade de gênero. Apesar de ser especificamente sobre os EUA, a situação apresentada é facilmente identificada também aqui no Brasil (e vale lembrar que os filmes, seriados e vídeos de música americanos são tanto nossa mídia quanto deles).

 

Ele não é perfeito; em primeiro lugar, o documentário fala a partir do lugar de sua narradora, oferecendo uma visão focada em mulheres brancas, hetero, cis, de classe média. Com a exceção de alguns poucos comentários de entrevistadas, o filme não aborda a forma como raça, sexualidade, classe e expressão de gênero conformam as formas como mulheres são representadas na mídia. Em segundo lugar, o documentário faz parecer que o problema é a sexualização das mulheres, ponto (notando as pernas da Katie Couric, por exemplo). Inadvertidamente, acaba por reforçar a ideia de que mulheres só podem ser levadas a sério se apagarem por completo sua sexualidade. O problema não é a sexualização, mas a objetificação das mulheres. Em todas essas imagens, as mulheres são retratadas apenas como objetos do desejo masculino, nunca como sujeitos em controle de sua própria sexualidade – o que é uma das principais coisas a alimentar a cultura de estupro, também apresentada apenas implicitamente.

 

Ainda assim, acho uma contribuição importante para a discussão. (prestem atenção especialmente na entrevista da Rachel Maddow, que é curtinha, mas excelente, como sempre)

 

*Vídeo com legendas em português

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Feminismo

Notícias sobre aborto

Na última semana, tivemos duas notícias importantes sobre aborto. No Rio de Janeiro, a Justiça autorizou uma mulher a interromper a gravidez de um feto anencéfalo. Já em Brasília, a comissão de juristas instituída pelo Senado para elaborar o anteprojeto do novo Código Penal aprovou a inclusão de novas exceções à lei que proíbe o aborto. Atualmente, o aborto só é permitido nos casos em que a gravidez resulta de estupro ou representa risco à vida da mãe. A comissão propõe que o aborto seja permitido nos casos em que o feto estiver “irremediavelmente condenado por anencefalia e outras doenças físicas e mentais graves”, quando a mulher “for vítima de inseminação artificial com a qual não tenha concordância”; e por vontade da gestante até a 12ª semana de gestação, “quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade”. Boas notícias, certo? Mais ou menos.

O primeiro problema gritante da proposta da comissão é o fato de que uma mulher só teria acesso ao aborto, caso não se enquadrasse em uma das outras exceções, se recebesse autorização de um médico ou psicólogo. Segundo o relator geral da comissão, essa barreira tem por objetivo comprovar “que a mulher não pode levar adiante a gravidez”. E, claro, para os juristas convocados, uma mera mulher não teria capacidade de dizer se pode ou não levar uma gravidez a termo. Ser a pessoa que ficará grávida por nove meses, dará à luz e (muito provavelmente) terá de cuidar da criança não é qualificação suficiente. É óbvio que um aborto é aceitável apenas com o aval de um profissional da área médica, devidamente treinado e licenciado. Deixando o sarcasmo de lado, esse paternalismo é, infelizmente, bastante comum, sobretudo quando se discute questões ligadas à reprodução. O recurso à autoridade (no caso médica, mas muitas vezes jurídica, como nos casos de anencefalia) decorre de dois temores. O primeiro, de que as mulheres estejam simplesmente mentindo – que, sendo pessoas irresponsáveis e egoístas, iriam interromper uma gravidez mesmo tendo condições de levá-la adiante (seja lá o que “ter condições” significa). O segundo, de que as mulheres são incapazes de entender as consequências de seus atos – que, sendo burras, precisariam de alguma autoridade para explicar-lhes o que estão fazendo, ou não seriam capazes de fazer a escolha certa. Esse medo é exacerbado pela crença de que, como disse o mesmo relator geral,”o aborto é sempre traumático e deixa sequelas psicológicas e físicas.” O que não é verdade. Não existe relação causal entre aborto e doença mental e, quanto à saúde física, o aborto é mais seguro do que levar uma gravidez adiante. O que importa, contudo, é que, seja lá quais forem as condições da gravidez, a pessoa mais capaz de determinar o melhor curso de ação (seja interrompê-la ou levá-la a termo) é a pessoa grávida. Não existe autonomia se esse princípio básico não for respeitado.

Mesmo assim, seria um avanço ter essas exceções incorporadas ao novo Código Penal. A chance disso acontecer, contudo, é basicamente zero. A oposição (religiosa) ao aborto no Congresso só faz crescer. Existem nada mais, nada menos do que quatro frente parlamentares contra o direito ao aborto: a Frente Parlamentar Evangélica; a Frente Parlamentar contra a Legalização do Aborto – pelo Direito à Vida; a Frente Parlamentar da Família e Apoio à Vida; e a Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o Aborto. A redundância por si só é evidência da importância que certos setores conferem à restrição dos direitos das mulheres. Nos últimos 15 anos, a maioria dos projetos de lei apresentados no Congresso visam a restringir ainda mais o direito ao aborto. Nesses projetos, incluem-se a proposta de mudar a Constituição de forma a garantir o direito à vida desde a concepção, a criação do “dia do nascituro”, a transformação de toda e qualquer forma de aborto em crime hediondo, a adoção da pena de reclusão nos casos de aborto provocado em razão de anomalia fetal e o atendimento e apoio especial às vítimas de estupro que decidam não interromper a gravidez, incluindo o pagamento de um salário mínimo até que a criança complete 18 anos (também conhecida como bolsa estupro).

É fácil ver o destino inevitável dessa proposta se olharmos para a última tentativa de flexibilização da legislação vigente. Em 2005, uma Comiss??o Tripartite composta por representantes do Executivo, Legislativo e da sociedade civil elaborou um anteprojeto que propunha a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, a ampliação do prazo da interrupção da gravidez em casos de estupro e a ausência de limite de tempo para o aborto em casos de grave risco à saúde da mãe e de má-formação do feto. Além disso, estabelecia que a interrupção voluntária da gravidez fosse realizada no SUS e coberta pelos planos e seguros privados de assistência à saúde. Esse projeto até hoje nãp foi votado.

Tampouco há muita esperançaa quanto à segunda notícia. Em 2004, a Confederaaoo Nacional dos Trabalhadores na Saúde, com assessoria da Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) visando a permitir o aborto nos casos de anencefalia. O STF inicialmente concedeu uma liminar autorizando o aborto nesses casos, mas ela foi cassada ainda em 2004. Supostamente, a decisão do STF deve sair ainda este ano. Mesmo que isso seja verdade, não me parece provável que a decisão final seja positiva. Cabe lembrar as declarações de Cezar Peluso, justificando seu voto favorável à cassação da liminar concedida em 2004: “(…) o sofrimento em si não é alguma coisa que degrade a dignidade humana; é elemento inerente à vida humana. O remorso também à forma de sofrimento (…) Nem quero discorrer sobre o aspecto moral e ético – não me interessa – de como o sofrimento pode, em certas circunstâncias, até engrandecer pessoas (…)”.

Que fique claro: apesar de tudo, ambas são, sim, boas notícias. Só acho pouco provável que tenham alguma repercussão maior.

Sobre a oposição religiosa ao aborto no Congresso, ver:

ALDANA, Myriam. Vozes católicas no Congresso Nacional: aborto, defesa da vida. Revista Estudos Feministas, v. 16, n. 2, p.639-646, maio/ago. 2008.

GOMES, Edlaine de Campos. A religião em discurso: a retórica parlamentar sobre o aborto. In: DUARTE, Luiz Fernando Dias; GOMES, Edlaine de Campos; MENEZES, Rachel Aisengart; NATIVIDADE, Marcelo (orgs.). Valores religiosos e legislação no Brasil: a tramitação de projetos de lei sobre temas morais controversos. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

ROCHA, Maria Isabel Baltar da. A discussão política sobre aborto no Brasil: uma síntese. Revista Brasileira de Estudos Populacionais, v. 23. n. 2, p. 369-374, jul./dez. 2006.

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Feminismo

A misoginia da guerra dos sexos

A esta altura, o machismo e misoginia dos anúnicos de cerveja já não devia me surpreender. Ainda assim, de vez em quando me deparo com uma coisa destas e me irrito:

 

 

No anúncio, homens e mulheres são apresentados como dois exércitos prestes a lutar. Um homem e uma mulher fazem discursos a cada um dos “exércitos” para motivá-los para a batalha. A mulher chega a dizer, no início, que “nos custou muito chegar até aqui” e pergunta se as mulheres querem voltar a como as coisas eram antes, se querem voltar a não votar. A partir daí, contudo, o anúncio é uma sucessão de estereótipos batidos da velha guerra dos sexos. As mulheres reclamam porque os homens querem passar mais tempo com os amigos, os homens reclamam porque as mulheres são controladoras e os impedem de se divertir. Há uma breve alusão ao fato de que os padrões de beleza cobram mais de mulheres do que de homens (nós ficamos gordas, mas, neles, a barriguinha é sexy), mas aí o comercial consegue ficar ainda pior. Homens e mulheres partem para o confronto e vários casais se formam (esqueceram de avisar que alguns homens gostam de homens e algumas mulheres gostam de mulheres, aparentemente). As mulheres se dispõem a ir a jogo de futebol (coisa de que mulher nenhuma gosta, como vocês sabem) e a lavar a roupa íntima dos homens (porque uma namorada ou esposa nada mais é do que uma empregada a quem não se tem que pagar, aparentemente) e os homens dizem às mulheres que invadam sua privacidade lendo suas mensagens (somos todas fofoqueiras e inseguras) e estourem seus cartões de crédito (porque mulher só quer saber de gastar o dinheiro de algum homem, não é verdade?). E quando você acha que não podia ficar pior, o comercial encerra com: “Quando o machismo e feminismo se encontram, nasce o igualismo.”

 

Eu queria por um fim, de uma vez por todas, a essa falsa equiparação entre feminismo e machismo. Entre as feministas, é comum dizer que o feminismo nunca matou ninguém; o machismo mata todos os dias. Mas quero deixar bem claro o que isso quer dizer. Cheris Kramarae e Paula Treichler definiram o feminismo como “a noção radical de que mulheres são pessoas” (“Feminism is the radical notion that women are people”). Não é a afirmação da superiordade de um gênero sobre outro, mas o reconhecimento de que existem desigualdades estruturais de gênero, mantidas e reforçadas por atitudes e concepções machistas. É o motivo de mulheres serem 80% das vítimas de estupro e 87% das vítimas de violência doméstica no estado do Rio de Janeiro, um padrão que se repete em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 40% das mulheres de São Paulo e 48% das de Pernambuco relataram terem sofrido ao menos uma vez na vida violência psicológica e 27% e 33%, respectivamente, terem sofrido violência física. As mulheres brasileiras têm mais anos de estudo, em média, do que os homens, mas ganham apenas 70% do rendimento dos homens. A taxa de desocupação ainda é maior entre as mulheres do que entre os homens. Dados da PNAD de 2007 mostravam ainda uma grande desigualdade na realização do trabalho doméstico, com as mulheres trabalhando mais do que o dobro de horas por semana em afazeres domésticos do que os homens. E isso sem falar na sub-representação das mulheres na política.

 

Às mentes brilhantes que criaram esse comercial – e que acreditam que feminismo e machismo são, de alguma forma, equiparáveis: o mundo real merece uma visita um dia desses.

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