Category Archives: Gênero

Introdução ao gênero: orientação sexual

Esta é a terceira e última parte da introdução sobre o gênero. Aqui estão a apresentação, a primeira parte, sobre sexo, e a segunda, sobre gênero.

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A orientação sexual seria a última parte do esquema de senso comum que vimos na apresentação: o sexo (binário) leva ao gênero (binário) que leva à orientação (hetero)sexual. Já sabemos que há muito mais do que duas possibilidades tanto no sexo quanto no gênero e que não há nenhuma relação necessária entre os dois. Só com base nisso, já podemos descartar a ideia de que a heterossexualidade é “natural” ou “certa”. Há mais a se dizer do que só isso, então vamos começar com alguns termos.

Você provavelmente já sabe que existem pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo gênero e se identificam como homossexuais, gays ou lésbicas (se forem mulheres que sentem atração por outras mulheres). Existem pessoas que sentem atração por homens e mulheres e se identificam como bissexuais. Algumas pessoas, reconhecendo a inexistência do binarismo de gênero, preferem se identificar como pan ou omnisexuais – ou seja, sentem atração por pessoas de todos os gêneros. Menos conhecidos são os assexuais, pessoas que não sentem (ou sentem muito pouca) atração sexual. Pessoas assexuais podem ainda assim buscar e ter relacionamentos românticos*, apenas sem a dimensão sexual. Existem ainda pessoas que consideram sua orientação sexual fluida e que num momento de vida se identificam de uma forma e, num outro, de outra. Mesmo para quem não tem uma sexualidade fluida, ela não é tão rígida. Já sabemos disso desde, pelo menos, a década de 1940, quando Alfred Kinsey e seus colegas fizeram um estudo inovador sobre a sexualidade humana. Para esse estudo, desenvolveram a escala Kinsey, que classificava a orientação das pessoas de 0 (exclusivamente heterossexual) a 6 (exclusivamente homossexual), com os valores de 1 a 5 representando diferentes níveis de desejo por atividade sexual com homens e mulheres. Ainda que tenham recebido críticas, um achado específico, de que poucas pessoas são 0 ou 6 perfeitos, permanece relevante. O ponto mais importante é este: a realidade é mais diversa e mais complicada do que nossas representações de senso comum fazem parecer.

Bom, se não existe relação necessária entre sexo/gênero/orientação sexual, o que explica o fato de as pessoas terem a orientação sexual que têm? Aqui também vemos apelos frequentes à biologia. De tantos em tantos meses, vemos notícias falando da descoberta de algum “gene gay”, ou sobre como o cérebro de homens gays é parecido com o de mulheres hetero, ou alguma bobagem assim. Novamente, não há qualquer base científica para essas alegações. Os estudos que anunciavam ter descoberto o “gene gay” (e que parecem ter saído de moda, felizmente) não costumavam passar de associações tênues da presença de um gene com a atração por pessoas do mesmo gênero. Já discutimos os problemas dos estudos da área de neurociência. Há também um problema de hipersimplificação do que a sexualidade é. A atração vai muito além do gênero. O que é considerado bonito e atraente varia dependendo do contexto social. Mesmo que você se contraponha aos padrões de beleza, é inegável que eles exercem uma forte influência sobre nossa visão de nós mesmos e dos outros. Esses padrões (machistas, racistas, capacitistas**, gordofóbicos, etc., diga-se de passagem) certamente não podem ser reduzidos a um gene ou uma coformação do cérebro. A sexualidade também envolve o que se faz, e não só com quem. Isso escapa completamente à classificação hetero/homo/bi/etc. Não só isso, mas também é culturalmente mediado – o que é socialmente aceito? O que é tabu? O que “se faz” e o que “não se faz”? Isso não significa que todas as pessoas se comportem da mesma forma, mas que existem padrões que só podem ser compreendidos quando se leva em consideração o contexto das pessoas.

Voltamos ao mesmo ponto do último post: sabemos que existem pessoas com orientações diversas, ainda que não saibamos explicar por que. Como disse sobre a identidade de gênero, “Não precisamos de uma explicação científica para aceitarmos a autodefinição das pessoas, para acreditarmos quando falam de suas próprias experiências”.Contudo, isso ainda não justifica falar sobre orientação sexual numa introdução sobre gênero, dado que, como vimos, os dois não têm nenhuma relação necessária.

Aí que está o X da questão: a orientação sexual não tem relação necessária com o gênero em termos de um definir o outro mas há, sim, uma relação em termos da última dimensão do gênero que discutimos, ou seja, o gênero como uma forma de distribuir poder. Há uma relação muito estreita entre o policiamento de gênero e as tentativas de reprimir sexualidades consideradas desviantes porque a estrutura pressupõe a existência apenas de homens e mulheres e a heterossexualidade faz parte de sua caracterização. Um homem que sinta atração por outros homens está “se igualando” a uma mulher, nessa lógica, da mesma forma que uma lésbica “se iguala” a um homem. Pessoas queer***, simplesmente por existirem, ameaçam a estrutura e os privilégios que as pessoas cis e hetero recebem dela. É nessa lógica que se insere a violência homofóbica e lesbofóbica, as agressões e assassinatos e, especificamente no caso de lésbicas, os “estupros corretivos”. O objetivo é eliminar as ameaças à estrutura ao eliminar as pessoas que nela não se enquadram. Gênero e sexualidade estão, assim, intimamente associados e se autorreforçam, mas não da maneira como a visão de senso comum imagina.

É importante lembrar que essas estruturas não agem de forma binária. Não se trata de ter ou não privilégio, se beneficiar ou se prejudicar. Uma mulher cis e hetero recebe privilégio de ser essas duas coisas da mesma estrutura que a prejudica por ser mulher. Homens cis gays têm privilégio de gênero como resultado da mesma estrutura que os prejudica por sua orientação sexual. E por aí segue, em todas as combinações possíveis. É especialmente importante atentar para essas dinâmicas porque a tendência é que elas se reproduzam mesmo em espaços de luta por mudança social. Já falei um pouco da transfobia do movimento feminista. O movimento LGBT também tem dado mais espaço às demandas de seus membros com mais privilégio – os homens cis brancos de classe média.

Encerro por aqui esta breve introdução ao gênero. Como já disse, existe uma quantidade enorme de textos – acadêmicos, de militância, relatos pessoais – para cada ponto tratado nesta série. Espero que os meus textos ajudem a dar um pontapé inicial nessa discussão, especialmente no que diz respeito a desnaturalizar e desconstruir a visão de senso comum por aí.

*Algumas pessoas assexuais têm, assim, uma orientação romântica: trata-se das pessoas com quem buscam envolvimento romântico, não sexual.

** Capacitismo é a concepção de que pessoas com deficiência não são iguais, são incapazes, menos aptas do que as outras. No que diz respeito aos padrões de beleza, estamos falando da percepção de que pessoas com deficiência não podem ser belas ou atraentes, inclusive apagando sua sexualidade. Obrigada à Beatriz Barreto e à Fernanda Nunes pela correção do termo!

***Um termo amplo que abarca todas as pessoas que não são cisgênero e/ou heterossexuais

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Introdução ao gênero: gênero

É tão bom quando você começa uma série de posts e só depois percebe que o título de um deles vai ficar redundante…

Enfim, esta é a segunda parte da introdução sobre o gênero. Ela começa na apresentação; a parte 1 é sobre sexo.

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Você poderia passar o resto da vida estudando gênero. Existem cursos inteiros, livros, artigos, documentários, todo um mundo de coisas que eu obviamente não terei condição de abordar aqui. Neste texto, vou me concentrar em três ideias centrais: identidade de gênero, expressão de gênero e gênero como forma de distribuir poder na sociedade.

A identidade de gênero é o que está contido, por exemplo, na frase “sou mulher”. É como as pessoas se identificam. Colocar nesses termos já cria uma mudança em relação ao que estamos acostumados a pensar. Geralmente pensamos o gênero como algo que se é, como na frase acima. Há críticas a essa ideia que veremos mais à frente, mas o ponto a que quero chegar agora é o seguinte: se entendemos que não há nenhuma relação necessária entre sexo e gênero, se não há nenhuma base biológica para que se determine o gênero de uma pessoa, então a única maneira de se saber o gênero de alguém é sabendo como ela se identifica. Para entender melhor isso, vamos ver alguns conceitos ligados à identidade de gênero.

Quando nascemos, somos designados um gênero com base nos órgãos genitais. A maioria das pessoas, sendo do sexo masculino ou feminino, é designada como homem ou mulher, respectivamente. Aquelas pessoas que não se enquadram em uma das pontas do contínuo do sexo biológico também costumam ser designadas como um ou outro gênero, mas, nesses casos, as famílias costumam entender isso como uma escolha mais explícita do que quando se trata de crianças que estão nas pontas. Para a maioria das pessoas, a ideia de que o gênero (binário) segue do sexo (binário) é tão óbvia que pensam que uma criança necessariamente é menina por ter vagina ou necessariamente é menino por ter pênis. Em qualquer caso, ao escolher um nome, ao tratar a criança por pronomes femininos ou masculinos, ao escolher roupas, brinquedos, as cores do quarto, a família está fazendo uma escolha. É, na melhor das hipóteses, um chute: você diz a identidade de gênero que acha que será a da criança. Na pior das hipóteses, torna-se uma imposição violenta à criança de algo que ela não é.

Isso porque, enquanto a maioria das pessoas se identifica com o gênero que lhes foi designado ao nascer, algumas pessoas, não. Chamamos de cisgênero, ou apenas cis, as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi designado e transgênero, ou trans, as que não se identificam. Algumas pessoas trans se identificam como homens ou mulheres, mas outras se identificam como não-binárias. Isso significa que elas não se enquadram numa visão em que há apenas dois gêneros, homem e mulher. Algumas não se identificam com nenhum dos dois, outras se identificam com ambos, outras se identificam com um dos dois, mas não completamente, algumas têm uma identidade mais fluida, que passa de um a outro em momentos diferentes de vida… – e isso sem entrar na grande variedade de possibilidade de gêneros que existem em outras culturas. (Este vídeo traz uma discussão longa sobre diferentes identidades de gênero*)

Para pessoas cisgênero, que concordavam com o gênero que a família lhes impôs, que cresceram sem nunca ter sua identidade de gênero contestada, pode ser difícil entender que o gênero é algo com que ativamente nos identificamos, que fazemos ativamente, ao invés de uma essência, algo que somos desde que nascemos. Isso pode ser mais perceptível para pessoas trans, mas é verdade para todos. Isso também significa que nenhuma identidade de gênero é mais certa ou mais válida do que outras. Não é porque a maioria das pessoas é cis e binária, ou porque suas experiências não lhes permitem enxergar a falsidade da ideia de um gênero que segue, necessariamente, de um sexo biológico, que ser cis e/ou binário seja “natural” ou “certo”.

Por que algumas pessoas se identificam como homens, outras como mulheres, outras como não-binárias? Por que algumas pessoas são cis e outras trans? Há pessoas que tentam explicar isso com base na existência de cérebros masculinos ou femininos. Como já vimos, essa explicação não faz nenhum sentido.

Uma parte importante do motivo é o fato de que vivemos em uma sociedade organizada em torno do gênero. Somos expostos a ideia de que todas as pessoas têm gênero (mais especificamente, que são homens e mulheres) e que nós também temos desde que nascemos. Para falantes de línguas como o português, em que todos os substantivos têm gênero, em que artigos, adjetivos e pronomes todos concordam com gênero, essa compreensão do mundo (e de nós mesmos) é ainda mais reforçada.

Isso não responde totalmente a pergunta, obviamente. A verdade é que não há, até onde eu saiba, uma explicação definitiva. Isso, contudo, não nos impede de reconhecer que identidades de gênero múltiplas existem. Não precisamos de uma explicação científica para aceitarmos a autodefinição das pessoas, para acreditarmos quando falam de suas próprias experiências. Isso é especialmente importante em relação a pessoas trans e não-binárias, que são alvo de discriminação intensa em nossa sociedade, sendo constantemente silenciadas, representadas de forma preconceituosa e submetidas à aprovação da autoridade médica simplesmente para terem suas identidades reconhecidas.

Se a identidade de gênero é como a pessoa se identifica, a expressão de gênero está ligada à ideia de gênero como algo que fazemos. Aqui cabe entrar um pouquinho numa discussão mais acadêmica e falar do conceito de gênero como performance, da Judith Butler. Butler rejeita completamente a ideia de que gênero é algo que se é. Para ela, o gênero é um tipo de performance, algo que se faz. Segundo ela, é a “estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos dentro de um quadro regulatório rígido que se solidificam ao longo do tempo para produzir a aparência de substância, de um tipo natural de ser”. Vamos por partes porque o texto em si não é o mais claro possível. Quando ela fala de “atos repetidos” e da “estilização do corpo”, está se referindo a uma série de coisas, como a forma como as pessoas se portam, a forma como andam, como falam, como cortam o cabelo, as roupas que usam, etc. É uma estilização do corpo porque nada disso é natural, nada decorre naturalmente de um gênero, mas são coisas que introjetamos ao repeti-las ao longo dos anos, até que passam a parecer naturais. (Se ainda assim estiver complicado, este vídeo, que discute esse conceito a partir do jogo The Sims, talvez ajude.**)

A expressão de gênero, é, assim, o fazer o gênero, são as ações que tomamos que comunicam (e, para Butler, criam) nosso gênero. Há um segundo ponto da citação que é importante aqui: essas ações, segundo Butler, estão inscritas em um “quadro regulatório rígido”. Dizer que gênero é performance não é dizer que seja livre, muito pelo contrário. Existem expectativas sociais rígidas em relação ao gênero. Elas são regulatórias porque são essas expectativas que tornam o gênero inteligível. É ao nos conformarmos a essas expectativas que somos vistos como mulheres ou homens (a este ponto já deve estar claro que essas expectativas são estritamente binárias e que qualquer identidade que fuja ao binarismo também foge a essa inteligibilidade).

Que fique claro que ninguém corresponde plenamente a essas expectativas porque isso é impossível. Ainda assim, a maioria das pessoas se adequa em grande medida a essas expectativas. Por que? Pelo menos em parte, justamente porque crescemos com elas e introjetamo-nas. Nossa compreensão do que é ser mulher ou homem (e portanto do que somos ao sermos mulheres e homens) é informada por essas expectativas. Há também um preço a se pagar quando se desvia dessas expectativas, e essa é a outra maneira como elas agem de forma regulatória. Não se conformar às expectativas significa não ser inteligível, não ter sua identidade reconhecida, mas também pode significar sofrer discriminação e até violência. Isso é especialmente grave para pessoas trans. Em muitos países, uma pessoa trans tem que se submeter a cirurgias e/ou tratamentos hormonais para poder mudar seus documentos de forma que reflitam sua identidade de gênero. Conformar-se às expectativas e, mais ainda, parecer ser cis é com frequência a única forma de terem suas identidades respeitadas e, em muitos casos, é literalmente questão de vida ou morte. Essa cobrança, às vezes até por meio de violência, de que as pessoas correspondam às expectativas de gênero é o que chamamos de policiamento de gênero.

Essas expectativas não são iguais para todas as pessoas. O que espera-se de uma mulher é diferente de acordo com sua raça, classe, idade, e muitas outras dimensões. Ser mulher – ou fazer-se mulher – será diferente dependendo da posição que se ocupa nessas diferentes estruturas. Consequentemente, o policiamento de gênero também é diferente. Se uma mulher jovem usa roupas curtas ou justas, isso é considerado bonito, sexy. Se uma muher com mais de 60 anos faz o mesmo, ela é ridícula. Quando a Miley Cyrus se apropria do estilo de dança que os americanos chamam de twerking, é provocador, inusitado. Quando mulheres negras, especialmente de classe baixa, dançam da mesma forma, é vulgar.

A questão do policiamento de gênero nos leva ao último ponto deste texto, que é sobre como o gênero funciona como forma de distribuir poder na sociedade. Não quero entrar numa discussão do que poder é ou como exatamente defini-lo. Podemos concordar que existem diferentes tipos de poder na sociedade – o político, o econômico, o poder da mídia de determinar que histórias são contadas, o poder de tomar decisões numa família, e por aí vai. Nenhum desses tipos de poder é compartilhado igualmente por todos. Existem diferentes estruturas que determinam como esse poder é distribuído, como classe, raça e gênero. Negar o direito ao voto às mulheres é uma forma clara de concentrar o poder político, por exemplo, mas existem formas mais sutis de reduzir o poder das pessoas. O fato de mulheres serem desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho doméstico é um exemplo. Isso impede que mulheres compitam em pé de igualdade no mercado de trabalho e as mantém numa posição subordinada em suas famílias. Ou o fato de a sociedade não protegê-las da violência sexual e doméstica, deixando-as à mercê de agressores e empurrando-as para longe de espaços públicos, que, afinal, não são (tornados) seguros. O policiamento de gênero é também uma forma por meio da qual o gênero leva a uma distribuição desigual de poder. Qualquer pessoa que desvie das expectativas de gênero é uma ameaça a toda essa estrutura. Manter a estrutura de gênero (que é uma estrutura de poder) significa eliminar as possibilidades que desviam do roteiro.

Em nossa sociedade, a estrutura de gênero privilegia homens, pessoas cis, pessoas binárias e pessoas cuja expressão de gênero está de acordo com expectativas. Mas essa estrutura não existe sozinha. Ela interage com outras estruturas de poder, gerando diferentes tipos de (falta de) privilégio. Um exemplo perfeito disso é o famoso discurso “Ain’t I a woman?” (“Não sou uma mulher?”) de Soujorner Truth, uma norte-americana negra, ex-escrava, abolicionista e feminista. Nele, Truth aponta o que se diz de mulheres, que são delicadas e precisam de ajuda, e mostra como isso não se aplica a ela. Como escrava, Truth foi forçada a exercer um trabalho árduo durante longas horas. Da mesma forma, enquanto a maternidade de mulheres brancas e ricas era louvada, a dela era desconsiderada: seus filhos foram tirados dela, mera propriedade de alguém. Para uma mulher branca, a valorização da maternidade e a ideia de que mulheres são intelectual e fisicamente inferiores aos homens são formas de restringi-las à esfera doméstica e retirar-lhes poder e agência. Para mulheres negras, contudo, as representações de gênero não são iguais. Raça e gênero se combinam para gerar uma situação de exploração de seu trabalho e de seus corpos. Tudo o que Truth diz se aplica ao Brasil e suas consequências são sentidas até hoje, como vimos no debate sobre a PEC das domésticas. O conceito de interseccionalidade, o último de hoje, diz respeito justamente à forma como essas diferentes estruturas interagem umas com as outras para produzir as experiências das pessoas.

Para encerrar o texto, que já está longuíssimo, queria falar algumas coisas sobre feminismo. Existem muitos estereótipos sobre o que o feminismo é ou como as feministas são que têm o propósito de deslegitimar o que dizemos. O feminismo apenas reconhece que vivemos numa sociedade desigual em termos de gênero e que essa desigualdade é injusta. Isso não significa que o movimento feminista seja perfeito. Historicamente, o movimento feminista valorizou as demandas das mulheres mais privilegiadas, as brancas, cisgênero, de classe média, ignorando as vozes das demais. Esse problema está longe de ser resolvido. A transfobia de certas pessoas dentro do movimento é triste evidência disso. Mesmo assim, contribuiu para tornar a sociedade mais justa e acredito que pode contribuir ainda mais. Espero que esta breve introdução à discussão de gênero ajude a convencê-los do mesmo.

Continua na parte 3!

* Infelizmente, sem legendas
** Com legendas, mas só em inglês

 

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Introdução ao gênero: sexo

Primeira parte da introdução ao gênero que começou na apresentação

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Esta parte é fácil, certo? Seres humanos têm diferenças físicas óbvias relacionadas à reprodução que dividem-nos em dois grupos. Podemos encerrar a discussão por aqui e partir para outras coisas.

Exceto que a realidade é mais complicada do que isso.

Vamos primeiro pensar no que o sexo é. O sexo, tal como o entendemos, é a combinação de diferentes características: cromossomas, hormônios, órgãos reprodutores e características secundárias de sexo (como ter ou não seios ou a quantidade de pêlos no corpo, para citar apenas dois exemplos). Ao contrário do que aprendemos na escola, nenhuma dessas categorias é binária; ou seja, há mais de duas opções em cada uma delas. Além disso, há mais de uma forma de essas diferentes características se combinarem. Para dar apenas um exemplo, existem pessoas que têm cromossomas XY mas que são insensíveis à testosterona e, por isso, desenvolvem fenótipos do sexo feminino. Elas são, assim, intersex, um termo que descreve todas as pessoas que não se enquadram na definição de sexo masculino ou feminino. Existem muitas formas de se ser intersex e pessoas intersex são de todos os gêneros possíveis (mas falaremos mais sobre identidade de gênero mais tarde). O que acontece com a espécie humana é que o sexo biológico existe num contínuo. A maioria das pessoas está em uma das duas pontas (sexo feminino ou masculino), mas existem inúmeras possibilidades no meio. Mais importante: essas possibilidades não são erros ou problemas de desenvolvimentos. Elas são parte da diversidade natural humana*.

Reconhecer essa diversidade é importante por vários motivos. Isso nos permite refutar a ideia de que humanos naturalmente se dividem em dois grupos e que, portanto, rejeitar esse binarismo é antinatural. Também é importante porque pessoas intersex são alvo de discriminação, além de frequentemente serem submetidas a intervenções médicas desnecessárias que visam a adequar seus corpos ao que se considera “normal”. Educar pais, médicos e a sociedade em geral sobre o que significa ser intersex é passo fundamental na garantia dos direitos dessas pessoas.

Mesmo com toda essa diversidade, seria possível argumentar que aquelas pessoas que se encontram nas pontas do contínuo (e que, afinal, são a maioria dos humanos) são essencialmente diferentes devido à diferença de sexo. Hoje em dia, com o desenvolvimento da neurociência, esse argumento geralmente se baseia na ideia de que os cérebros de homens e mulheres são fundamentalmente diferentes. Já dá para saber que o que vem agora é um “não é bem assim”.

Em primeiro lugar, a forma como o conhecimento produzido pela neurociência é veiculado pela mídia deixa a desejar (para dizer o mínimo). Vaughan Bell aponta um problema sério na forma como entendemos os estudos sobre o cérebro:

Imagens extremamente coloridas de cérebros são favoritas da mídia porque são simultaneamente atraentes e aparentemente fáceis de se compreender, mas, na realidade, elas representam algumas das informações científicas mais complexas que temos. Elas não são mapas de atividade, mas mapas do resultado de comparações estatísticas complexas de fluxos sanguíneos que se relacionam de forma desigual ao funcionamento real do cérebro. Isso é um problema de que os cientistas estão perfeitamente cientes mas que com frequência é deixado de lado quando os resultados chegam à imprensa.

Brightly coloured brain scans are a media favourite as they are both attractive to the eye and apparently easy to understand but in reality they represent some of the most complex scientific information we have. They are not maps of activity but maps of the outcome of complex statistical comparisons of blood flow that unevenly relate to actual brain function. This is a problem that scientists are painfully aware of but it is often glossed over when the results get into the press.

Mesmo antes das distorções introduzidas pela mídia, os estudos que supostamente indicariam diferenças nos cérebros de pessoas do sexo masculino e feminino já sofrem de limitações sérias. Em primeiro lugar, e como o próprio Bell reconhece, querer usar um estudo desse tipo como prova biológica da existência de uma diferença é um argumento circular porque os estudos de neurociência “tipicamente comparam grupos baseados em diferenças identificáveis e depois buscam saber como isso se reflete no cérebro” (“typically compare groups based on identifiable differences and then look for how this is reflected in the brain.”). Ou seja, estudos desse tipo que comparam homens e mulheres partem do princípio de que há uma diferença entre os dois grupos e depois buscam demonstrá-la no cérebro. É claro que um estudo com esse desenho já está enviesado para encontrar diferenças e o argumento, como diz Bell, torna-se circular.

Em segundo lugar, mesmo quando alguma diferença é identificável, ela é tênue. Neste vídeo (com legendas em inglês), a professora Daphna Joel explica que algumas características do cérebro são diferentes entre pessoas do sexo feminino e masculino, mas que essas diferenças se invertem em resposta a diferentes estíumlos. Longe de um todo masculino ou feminino, ela conclui, o cérebro de cada pessoa é um mosaico único de características femininas e masculinas. Já Cordelia Fine, autora do livro “Delusions of gender”, mostra como as diferenças identificadas em estudos de neurociência entre homens e mulheres em relação a habilidades específicas (como localização no espaço ou empatia) são mínimas. Fine também ressalta que esses estudos raramente dão conta de discutir a plasticidade do cérebro. Dizer que o cérebro é plástico significa que seu desenvolvimento responde aos estímulos que ele recebe. Considerando-se a forma diferente como meninos e meninas são tratados em nossa sociedade, não é possível olhar para as (mínimas) diferenças que existem e concluir que elas são, necessariamente, reflexo de diferenças biológicas, sem descrever seu desenvolvimento.

O resumo disso tudo, para quem tem preguiça de ler: o sexo biológico é uma articulação – que pode se dar de diferentes formas – de várias características, nenhuma das quais é binária. Os seres humanos existem num contínuo em termos do sexo biológico, com a maioria das pessoas ocupando as pontas (sexo feminino ou masculino) e uma diversidade imensa no meio. Essa diversidade é parte natural da nossa espécie. Mesmo em relação os grupos que estão nas pontas, não é possível afirmar que existam diferenças necessárias e biológicas com base numa ideia de que o cérebro masculino é diferente do feminino.

Continua na parte 2 e na parte 3!

*A quem se interessar mais, recomendo também este post, que descreve um estudo sobre o switch que controla a expressão do cromossoma Y e que conclui que fetos masculinos “se denvolvem perto da fronteira da ambiguidade sexual” (“human males actually develop near the edge of sexual ambiguity”)

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Introdução ao gênero: apresentação

Lendo este blog, fica claro que gênero é um tema que me interessa. Já escrevi sobre várias questões ligadas a gênero ao longo dos últimos anos, mas nunca cumpri a promessa de escrever um texto introdutório sobre o tema, em parte por falta de tempo, em grande medida por saber que não conseguiria dar conta de algo tão amplo e complexo. Resolvi pôr um fim à procrastinação e dizer logo o que posso. Em tempos de avanços de grupos conservadores, me parece importante ter algo, ainda que imperfeito, para combater visões machistas e preconceituosas.

Deixo claro o que esta introdução não é: não é uma discussão acadêmica do conceito de gênero, nem pretende ser uma apresentação exaustiva do tema. Não teria capacidade de fazer a primeira bem e a segunda é impossível. O que esta introdução pretende ser é apenas um primeiro contato com as discussões de gênero para quem ainda não parou para pensar muito sobre o assunto ou ainda está operando com uma visão tradicional da questão.

É justamente essa visão que será nosso ponto de partida. O senso comum sobre os seres humanos é que se dividem em dois grupos biologicamente distintos de acordo com o sexo. Ser do sexo masculino tornaria alguém, naturalmente, homem; ser do sexo feminino tornaria alguém, naturalmente, mulher. Mulheres e homens seriam diferentes por natureza e teriam comportamentos e sentimentos distintos. Por fim, a natureza humana também levaria à atração heterossexual. O sexo produziria gênero, que produziria a (hetero)sexualidade. Essa visão é defendida e sustentada tanto com apelos à natureza quanto com apelos à religião. Muitas pessoas pensam não só que essa é a realidade dos seres humanos, mas também que o é porque deus nos fez assim. Vejamos por que essa visão está completamente errada*.

Parte 1: sexo

Parte 2: gênero

Parte 3: orientação sexual

*Acho que a esta altura já está claro que sou ateia e que discordo de qualquer explicação que envolva (qualquer) deus. Contudo, não tenho o menor interesse em entrar numa discussão de religião aqui. Quando digo que o senso comum está errado é porque o gênero não funciona assim na prática. Independentemente de que papel você atribua a (algum) deus na vida humana, ele não pode ter criado algo que não existe.

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Lilo e Stitch, gênero e ridículo

Quando decidi adotar uma cachorra, fiz uma lista de nomes possíveis. Havia alguns critérios de inclusão. Eram nomes de personagens de livros, filmes, séries de TV, ou mesmo músicas, de que eu gostava. O nome em si tinha que ser bonito; a personagem mais legal do mundo não me convenceria a colocar um nome feio na minha cachorra. O nome tinha que ser curto, porque nome de cachorro serve um propósito: tem que ser algo que o cachorro aprenda e a que responda quando chamado. Nomes como Lord Benedict Pickles III são engraçados, mas atrapalham. Também queria um nome simples de entender. Meu cachorro anterior se chamava Einstein (minha escolha) e qualquer consulta ao veterinário tornava necessário dizer “Einstein. E-i-n-s-t-e-i-n.” Dado tudo isso, acabei optando por Lilo, personagem principal do filme Lilo e Stitch, da Disney.

Sou fanática por animações, cresci com os filmes clássicos da Disney (Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin, Rei Leão…) e considero Lilo e Stitch um dos melhores do estúdio – certamente o melhor desde Mulan. É uma história bastante atípica para padrões Disney (aliás, para padrões Hollywoodianos também). O centro do filme é o relacionamento entre duas irmãs. A história não dá espaço para romance. Ao contrário da grande maioria dos filmes do estúdio, nenhum dos personagens principais (e quase nenhum dos secundários) é branco. As mulheres e meninas que aparecem no filme fogem do padrão magra-com-cintura-de-5cm que a Disney instituiu para suas personagens principais. Nani e Lilo são raras também por serem uma família pobre, ao menos nos padrões de pobreza dos Estados Unidos: menos uma ausência de bens do que uma instabilidade e insegurança permanentes, expressos no impacto devastador e imediato que a perda de emprego de Nani tem na vida das duas.

Essas características todas são fantásticas, mas não importariam tanto se não fosse pelo fato de Lilo e Stitch ter uma história ótima com personagens incríveis. Cobra Bubbles parece, no início, uma piada simples: o cara durão que está no papel de cuidar de crianças (Arnold Schwarzenegger e Vin Diesel já fizeram filmes cuja premissa inteira se resumia a isso). No fim, é um personagem que genuinamente se importa com o bem-estar de Lilo e que parece totalmente razoável, mesmo quando insiste em tirar Lilo de Nani – algo que facilmente o tornaria o vilão em uma história menos bem feita. Nani é uma adolescente, o que geralmente a relegaria ao papel de desmiolada inconsequente. Ao contrário, o filme retrata-a como uma pessoa fazendo o melhor que pode em circunstâncias extremamente difíceis. Talvez o mais interessante numa história voltada para crianças é que Nani é indiscutivelmente uma pessoa boa que tenta ao máximo e ainda assim falha – algo muito mais complexo do que se costuma ver nesse tipo de filme, em que os maus sempre perdem e os bons sempre ganham. Os alienígenas conseguem ser antagonistas simpáticos, por quem você acaba torcendo (ao menos um pouco) e totalmente hilários sem serem irritantes, como personagens “alívio cômico” costumam ser. E, claro, a própria Lilo é fantástica porque é uma criança. Não um mini-adulto em corpo infantil, mas uma criança crível, que briga com a irmã, bate nas outras crianças, não sabe lidar com a solidão que enfrenta como órfã pobre e excluída, e, ao mesmo tempo, é criativa, fofinha e engraçada.

Com todos esses motivos, Lilo me pareceu perfeito. Não imaginei por um segundo que isso se tornaria um problema. “É um filme da Disney”, pensei, “super conhecido e adorado. Claro que todo mundo vai entender na hora”. Aparentemente superestimei a popularidade do filme; acho que umas três pessoas, no máximo, captaram a referência. Isso, por si só, não seria um problema. O problema é a dificuldade de enteder que um nome terminado em “o” pode ser feminino. Minha escolha inocente acabou sendo um exemplo gritante de como as estruturas de gênero são introjetadas ao ponto do ridículo.

Começando pelo (que deveria ser) óbvio: cachorros não têm gênero. Cachorros têm sexo, mas gênero é um fenômeno de outra ordem. Sabe como cachorro acha que está vendo outro cachorro quando se vê no espelho, e até mesmo começa a latir e chamar para brincar? Isso é porque cachorros não têm consciência de si, como humanos têm, assim como não têm identidade. Para um cachorro, seu nome é apenas um sinal sonoro a que foi treinado a responder. Não tem qualquer conexão com uma imagem de si, uma identidade. Cachorros tampouco classificam e distinguem-se uns aos outros de acordo com diferenças sexuais como humanos o fazem. Qualquer atribuição de gênero a um cachorro é mera projeção.

Qual a necessidade, então, de se dar nomes femininos e masculinos para fêmeas e machos, respectivamente? De comprar vestidinhos e sainhas para uns e gravatas para outros? Não vou entrar na discussão de como animais domésticos, e cachorros em particular, são pessoalizados em culturas como a brasileira. O fato é que atribuímos tantas características humanas a cachorros, não é de se espantar que se atribua as noções introjetadas de gênero também. Assim, cachorros machos passam a ser a expressão dos traços associados a homens, enquanto fêmeas passam a ser expressão do que se atribui a mulheres. As divisões de gênero são a tal ponto naturalizadas que passa a ser impensável dar um nome que não seja absolutamente feminino a uma fêmea, ainda que para ela isso não faça a menor diferença, ainda que gênero seja um conceito inteiramente externo a sua existência. As pessoas que encontro na rua ficam chocadas – chocadas! – ao descobrir que minha cachorra tem um nome terminando em “o”. Pedem para repetir, assumem que ela é macho, ficam confusos. Alguns dizem até coisas como “que diferente, né?” e eu pensando É UM NOME DE CACHORRO, por que essa surpresa?

A moral da história, até agora, parece ser: cachorro pode ter nome de comida, de instrumento musical, de time de futebol, de cidade, de objeto, etc etc. Mas uma fêmea com nome terminado em “o”, aí não dá. É demais para as pessoas processarem.

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Como discutir a identidade de gênero da pior forma possível

Quantos absurdos pode conter uma matéria? Esta do G1 parece estar tentando quebrar recordes. A matéria aborda questões ligadas a pessoas trans a partir da história de Coy, menina trans que foi impedida de usar o banheiro feminino em sua escola[1]. Estou há algum tempo para escrever um guia básico sobre gênero, sexo e orientação sexual, mas por hoje vou só abordar os muitos erros da matéria

1) Transexual pode se descobrir já na primeira infância, dizem especialistas

Começa na primeira palavra do título. Muito simplificadamente, transgênero são as pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer. Explicando em outros termos: ao nascer, somos classificados como meninas ou meninos e tratados socialmente de acordo com essa classificação. A maioria das pessoas cresce concordando com essa classificação; algumas pessoas, não. Essas pessoas são transgênero. Note que o termo se refere à identidade de gênero, ou seja, com que gênero a pessoa se identifica. Transexual é um termo geralmente reservado para as pessoas transgênero que optam por tomar hormônios e/ou passar por cirurgias de mudança de sexo[2]. O termo trans (ou trans*) é usado de forma global para se referir a qualquer pessoa que não se identifique com o gênero que lhe foi socialmente designado[3]. Dado que a discussão toda do artigo é sobre identidade de gênero, o uso do termo transexual é um equívoco.

2) Caso de garoto de 6 anos que se vê como menina ganhou destaque.

Uma mulher trans não é um homem que se vê como mulher, ou que se sente mulher (que também é dito no artigo). Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. São. Não pensam que são, não se veem como, nem se sentem mulher ou homem, como também não se transformam em, nem são mulheres presas em corpos de homens ou vice-versa. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. Ponto. Se você ainda não captou, leia isso de novo. É importante.

3) A identificação com o sexo oposto e o eventual desejo de uma pessoa em assumir uma nova identidade de gênero começa geralmente na primeira infância, entre os 4 e 6 anos de idade

Se a identidade é de gênero, então a identificação não é com o sexo, e a expressão “sexo oposto” merece ser morta e enterrada. É uma ideia falsa não só porque pressupõe um binarismo que não existe, nem em termos biológicos, nem em termos de gênero, mas também porque leva a crer que homens e mulheres são opostos, o que é ridículo.

4) Na última semana, o G1 publicou a história do menino americano Coy Mathis, de 6 anos, que se identifica como menina e é aceito pelos pais

Ver 2). Also: faça o favor de acertar a concordância. Coy é uma menina. Ela é aceita, não aceito.

5) Transexual é a pessoa que tem um transtorno mental e de comportamento sobre sua identidade de gênero, ou seja, nasce biologicamente com determinado sexo, mas se vê pertencente a outro e cogita fazer tratamentos hormonais e cirurgia para mudar o corpo físico.

::respirando fundo:: Pessoas trans não têm transtorno mental, nem de comportamento. Ser trans não é doença. Novamente, as pessoas trans não se veem pertencendo a nada, elas são mulheres e homens; e mais uma vez, elas não se identificam com outro sexo, mas com outro gênero. Esses termos não são intercambiáveis. E nem todas as pessoas trans querem fazer tratamentos hormonais, nem cirurgias. Algumas querem, mas não todas. Isso não pode ser visto como critério para definição do que é ser trans.

6) “É muito comum crianças inverterem os papéis, e quando é algo pontual não há maiores problemas. Mas, se isso se tornar um hábito frequente, diário, o menino querer mudar de nome, usar presilha e brinco, é indicado que os pais e o filho passem por uma avaliação profissional antes de qualquer coisa, para ver se essa é uma questão familiar que a criança está tentando resolver dessa forma ou se já é um transtorno de gênero”

Essa declaração é de um psiquiatra que trabalha com casos de pessoas trans. Medo. De novo, ver 2): se a criança afirma ser uma menina, ela é uma menina, não um menino que quer mudar de nome. Ser trans não é transtorno. A questão da avaliação profissional é mais complexa e merece seu próprio ponto; vou falar disso depois.

7) Segundo Cossi, o preconceito da escola não é apenas contra transexuais e homossexuais, mas contra deficientes, pessoas com síndromes e tudo o que foge ao que é caracterizado “normal”

“Deficientes”? Mesmo, G1? Pessoas com deficiência não são deficientes. O único deficiente nessa história é a pessoa que não se deu ao trabalho de gastar dois segundos procurando o termo certo no Google.

8) “Hoje em dia, sabe-se que existe um cérebro feminino e um masculino, determinado no útero da mãe por hormônios masculinos circulantes. E isso interfere no desenvolvimento cerebral para uma linhagem feminina ou masculina. A cultura e o ambiente também têm importância, mas a determinação é biológica”

Isso é a fala de outro psiquiatra. Alguém tem que fazer uma intervenção nas residências de psiquiatria para ontem. A questão de gênero é longa demais para ser satisfatoriamente discutida aqui. O que pode ser dito é que gênero não é determinado biologicamente e uma declaração estapafúrdia dessas demonstra total ignorância dos estudos de gênero dos últimos 40 anos, pelo menos. Essa ideia de um “cérebro masculino” e um “cérebro feminino” é um exemplo perfeito dessa nova onda de usar a neurociência como explicação para tudo (como se fazia, e ainda se faz, com genes). Isso também é uma discussão longa, mas há que se lembrar que o cérebro não está plenamente desenvolvido no momento do nascimento e que seu desenvolvimento posterior responde aos estímulos que recebe. Num ambiente tão profundamente marcado pelo gênero como o nosso, esses estímulos são diferentes para meninos e meninas desde o nascimento. Querer deixar isso de lado é no mínimo míope, quando não é desonesto.

9) “Uma coisa é o desejo, a orientação, a prática sexual. Outra é o gênero, como a pessoa se vê, seus gostos e comportamentos – algo cultural, social, que varia com o tempo. Essa é a ideia do que um homem ou uma mulher faz, como pensa, como se veste, quais traços o definem. Já a identidade sexual envolve uma noção de inconsciente, inclui o fator psíquico, de como o sexo se constrói na mente e reconhece o que é homem e o que é mulher”, esclarece.

Esse aí é psicólogo. Eu confesso que nem entendi o que ele quis dizer com “identidade sexual”, para dizer a verdade, mas, mais uma vez, “homem” e “mulher” são categorias de gênero. “Como o sexo se constrói na mente” nada tem a ver com o reconhecimento do que é “homem” e o que é “mulher” porque essas não são categorias de sexo.

10)Brunna mora há dois anos na capital paulista, onde trabalha como orientadora sócio-educativa no Centro de Referência da Diversidade da ONG Grupo pela Vida

É uma reclamação menor, mas o nome certo é Pela Vidda. Mais um erro facilmente corrigível com uma simples busca no Google.

11) No ambulatório de São Paulo, criado em 2009 e considerado o primeiro do tipo no país a atender exclusivamente travestis e transexuais, há atualmente 1.500 pessoas cadastradas. Desse total, 65% (975) se consideram transexuais – 915 são homens biologicamente que se sentem como mulheres e 60 são o contrário.

Ver 2).

12) Antes de toda cirurgia para mudança de sexo, o Sistema Único de Saúde (SUS) exige que a pessoa, com mais de 21 anos, faça pelo menos dois anos de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, no qual seja diagnosticada com distúrbio de identidade de gênero.
e 13) “Esses dois anos de acompanhamento que oferecemos com psicoterapeuta, psiquiatra e endocrinologista servem para a pessoa ter certeza sobre a cirurgia. Aí fazemos o encaminhamento ao HC. Nesse período, alguns desistem. Outros vão para a Tailândia, mudam de sexo e se arrependem, porque lá não existe todo esse protocolo daqui”

Aí está uma discussão complexa. Antes de entrar nisso, é preciso falar do Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM) que é produzido pela Associação Americana de Psiquiatria. O DSM estipula os critérios de classificação de doenças mentais. Apesar de ser produzido exclusivamente por psiquiatras americanos, ele é adotado internacionalmente, inclusive pela Organização Mundial de Saúde. Para todos os efeitos, é o DSM que determina o que é doença mental e o que não é. Quando se fala que a homossexualidade deixou de ser vista como doença, por exemplo, estão falando de sua remoção do DSM. Uma nova edição do DSM será lançada em breve e possivelmente não mais incluirá a disforia de gênero[4], a exemplo do que foi feito com a homossexualidade.

As opiniões a respeito dessa decisão estão divididas. Por um lado, ativistas reconhecem que despatologizar a identidade trans é positivo. Por outro, há a questão do acesso ao tratamento para aquelas pessoas trans que desejam tomar hormônios e/ou fazer cirurgia de mudança de sexo. Tanto os hormônios quanto a cirurgia são extremamente caros. Se ser trans não for uma condição médica, planos de saúde e sistemas de saúde pública não serão obrigados a oferecê-los, deixando a maioria das pessoas trans sem acesso aos dois. Não vou fingir que tenho uma resposta para essa questão. Um ponto interessante é levantado pela blogueira Natalie Reed. Natalie, que é uma mulher trans, é uma das que afirmam que a categoria “disforia de gênero” deve permanecer no DSM. Segundo ela, não é a identidade trans que é o transtorno, mas sim a impossibilidade de pessoas viverem como seu gênero. Vou citar um pedaço do texto porque vale a pena:

[Gender dysphoria’s] inclusion in the manual for diagnosis does NOT categorize being transgender as in any way an illness. It categorizes the dysphoria that typically precedes and motivates transition as a disorder. Being trans is not the illness. I, as a transition(ed/ing) woman, am no longer suffering from gender dysphoria. Or, at the very least, am no longer suffering it nearly as acutely. The disorder has been treated, and is being held in check, through transition and exogenous endocrine treatment. Being a trans member of your identified sex is the ordered condition that responds to, and arguably “cures”, the disorder.

(“A inclusão [da disforia de gênero] no manual para diagnóstico NÃO categoriza ser transgênero de qualquer forma como uma doença. Ela categoriza a disforia que geralmente precede e motiva a transição[5] como um transtorno. Ser trans não é a doença. Eu, como uma mulher em transição/que já passei pela transição não sofro mais de disforia de gênero. Ou, no mínimo, não sofro disso de forma tão aguda. O transtorno foi tratado, e está sendo mantido sob controle, por meio de transição e de tratamento endócrino exógeno. Ser um membro trans do sexo com o qual você se identifica é a condição ordenada que responde a, e em tese “cura”, o transtorno”)

Que fique claro que isso é um posicionamento em meio a uma discussão ampla e complexa. O blog Por causa da mulher traz uma discussão mais longa e detalhada da questão.

Outra questão é a exigência do atendimento psicológico. Por um lado, ter esse atendimento é positivo. A transição costuma ser um processo difícil devido ao preconceito generalizado contra pessoas trans. Ter apoio psicológico nesse processo certamente é benéfico. Contudo, o objetivo do atendimento psicológico não é esse, mas sim “provar” que a pessoa é, de fato, trans e que portanto “pode” fazer a cirurgia. O fato de ser obrigatório evidencia esse caráter de prova. Isso é problemático pois impõe barreiras ao acesso ao tratamento e confere ao profissional médico a autoridade para legitimar ou deslegitimar a identidade de gênero da pessoa.

A possibilidade de que a pessoa venha a se arrepender é geralmente usada para afirmar a necessidade desse atendimento compulsório. “Sem nós”, os profissionais da área médica parecem dizer, “as pessoas vão fazer esses procedimentos pelos motivos errados, no momento errado, com as expectativas erradas, e se arrependerão”. Não tenho dados para afirmar se as pessoas de fato se arrependem, nem seria tão equivocada quanto a pessoa citada a atribuir o arrependimento a qualquer motivo único, como a falta de atendimento compulsório. O que pode ser dito é que se a preocupação é de fato com o bem-estar de pessoas trans, então o objetivo não deve ser criar mais barreiras à expressão de sua identidade de gênero. Isso se aplica tanto à área médica, quanto à área jurídica, que estabelece os critérios para que uma pessoa tenha seu gênero legalmente reconhecido[6]. O objetivo tem de ser disponibilizar o atendimento psicológico, não estabelecê-lo como critério de sanção da identidade de gênero.

[1] Seus pais estão atualmente processando a escola por esse motivo.
[2] Seguindo o uso feito, entre outros, no blog Sincerely, Natalie.
[3] No Brasil, há também mulheres trans que se identificam como travestis. Em outros países, esse termo não é usado. Antes de usá-lo, é importante conferir como a pessoa se identifica. Na dúvida, é melhor optar por trans – e, claro, se o fato de a pessoa ser trans não for relevante para a discussão, não há motivo nenhum para incluí-lo.
[4] Categoria de diagnóstico usada para pessoas trans.
[5] “Transição” é o termo geralmente usado para as pessoas trans quando passam a viver como o gênero com que se identificam.
[6] Esta matéria do CLAM aborda algumas dessas questões legais.

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Testes de sexo e policiamento de gênero entre atletas profissionais

Em um artigo publicado recentemente no The American Journal of Bioethics, as autoras Katrina Karkazis, Rebecca Jordan-Young, Georgiann Davis e Silvia Camporesi criticam as políticas de teste de sexo da International Association of Athletics Federation (IAAF) e do Comitê Olímpico Internacional (COI). Confesso que me surpreendi ao descobrir que ambas as organizações exigiram, durante a maior parte do século passado, que as atletas comprovassem que eram mulheres, dado o medo de que homens se disfarçassem de mulheres para competirem em provas mais fáceis. A IAAF abandonou essa exigência apenas em 1992; o COI, apenas em 1996. Contudo, o caso de Caster Semenya levou ambas as organizações a estabelecerem novas políticas de comprovação de sexo.

Para quem não lembra, Caster Semenya é uma corredora sul-africana que se destacou por sua performance em 2009 e que logo em seguida teve seu gênero publicamente questionado. Em resposta, a IAAF forçou Semenya a passar por testes humilhantes, cujos detalhes foram vazados para a mídia. Descobriu-se que Semenya tinha uma condição intersex. Apesar de ser proibida de competir enquanto os testes eram realizados, Semenya voltou a competir (e teve sua vitória reinstituída) posteriormente. Ainda assim, a organização foi fortemente criticada pela forma como lidou com as acusações contra a corredora.

Em resposta às críticas, a IAAF e o COI instituíram uma política nova, não mais testando todas as atletas, mas apenas aquelas suspeitas de serem “masculinas demais”. Mulheres “masculinas demais” seriam aquelas com níveis de testosterona acima da média, o que (imagina-se) lhes conferiria uma vantagem injusta. Mulheres com níveis acima da média de testosterona – que, as autoras apontam, são predominantemente intersex – poderão competir apenas se se sujeitarem a intervenção médica ou se for demonstrado que são “insensíveis” à testosterona. O tratamento consistiria em intervenção farmacêutica ou em gonadectomia.

As autoras apresentam algumas críticas a essas políticas. Em primeiro lugar, afirmam que não é tão simples assim definir e estabelecer o sexo biológico de uma pessoa. Os marcadores de sexo biológico (cromossomos, gônadas, hormônios, características sexuais secundárias, genitália externa e genitália interna) não se dividem de forma binária; tampouco sua expressão se distribui de uma forma consistente na população. A variabilidade humana é maior do que o que a visão binária levaria a concluir. As autoras concluem que sexo é sempre complexo e que não existe um marcador decisivo, que por si só sirva para estabelecer o sexo de uma pessoa.

Em segundo lugar, a relação entre capacidade atlética e testosterona não foi provada. Não existe evidência de que atletas bem-sucedidos têm mais testosterona do que atletas menos bem-sucedidos. As autoras afirmam que “excelência atlética é o produto de uma combinação complexa de fatores biológicos e recursos materiais que têm o potencial de influenciar a vantagem atlética.”

Ainda que testosterona confira alguma vantagem, as autoras acreditam que ela deve ser vista como qualquer vantagem biológica. Como exemplo, citam as variações mitocondriais encontradas em corredores e ciclistas que lhes dão capacidade aeróbica e resistência contra fadiga excepcionais. Pessoas com essas variações mitocondriais não são proibidas de competir por terem uma vantagem injusta; por que mulheres com níveis naturais de testosterona mais altos do que a média deveriam ser tratadas de forma diferente?

As autoras também levantam preocupações com o caráter coercitivo do tratamento imposto às atletas para que possam competir, especialmente quando o tratamento não for medicamente necessário. Apontam ainda que as propostas não são claras; o que seria o nível de testosterona necessário para competição? O nível médio para mulheres? Ou apenas algo abaixo do nível dos homens? Além disso, as autoras levantam preocupações com a privacidade das atletas, dada a dificuldade de se manter o sigilo das investigações.

O artigo (que recomendo fortemente) não apenas demonstra como certas concepções equivocadas de sexo biológico e de sua relação com gênero são amplamente difundidas até mesmo entre supostos experts, como mostra que essas preocupações com competição justa servem apenas para acobertar o policiamente de gênero que as atletas sofrem. Afinal, os fatores apontados como indicativos de excesso de testosterona (sem que haja fundamentação para tanto) são traços vistos como “masculinos” – e, paradoxalmente, também associados com atleticismo. Como dizem as autoras, “mulheres atletas sempre estiveram sob suspeita e mulheres com traços intersex serviram com frequência de bodes expiatórios para ansiedades amplas sobre a contradição de gênero inerente no próprio conceito de uma atleta de elite.”

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