Category Archives: Saúde

A pediatra, a petista e a objeção de consciência

Uma pediatra de Porto Alegre se recusou a atender uma paciente porque sua mãe é petista. Rapidamente, representates de entidades médicas vieram à sua defesa, dizendo que o Código de Ética Médica permite a recusa de pacientes. Isso é verdade? E por que isso merece ser discutido num blog feminista?

Responder a primeira pergunta é surpreendentemente mais difícil do que pode parecer. Os que afirmam que a médica tinha direito de recusar o atendimento se respaldam nos seguintes artigos do Código:

Capítulo I

VII – O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente.

Capítulo V

É vedado ao médico

Art. 36. Abandonar paciente sob seus cuidados.

§ 1° Ocorrendo fatos que, a seu critério, prejudiquem o bom relacionamento com o paciente ou o pleno desempenho profissional, o médico tem o direito de renunciar ao atendimento, desde que comunique previamente ao paciente ou a seu representante legal, assegurando-se da continuidade dos cuidados e fornecendo todas as informações necessárias ao médico que lhe suceder.

Esses artigos realmente parecem dar razão à médica, só que existe uma complicação. O primeiro capítulo do Código estabelece seus princípios fundamentais. O primeiro princípio, e portanto o mais fundamental, é:

I – A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza. (ênfase minha)

Já o Capítulo IV, que trata dos direitos humanos, estabelece que é vedado ao médico “tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto”. (art. 23)

O que constitui discriminação nesse contexto? O Código não diz. Contudo, no segundo capítulo, que estabelece os direitos dos médicos, o Código afirma que é direito do médico:

I – Exercer a Medicina sem ser discriminado por questões de religião, etnia, sexo, nacionalidade, cor, orientação sexual, idade, condição social, opinião política ou de qualquer outra natureza. (ênfase minha)

A não ser que os Conselhos de Medicina entendam que existe um conjunto de discriminações possíveis para os médicos e outro para os pacientes, deixar de prestar atendimento por questão de opinião política é discriminação. E isso, diz o próprio Código, fere o princípio ético mais fundamental da profissão.

Se isso é uma interpretação legalmente aceitável, eu não sei, como não sei se algum Conselho de Medicina puniria um médico por comportar-se dessa forma (chuto que não). A questão é apenas de coerência. Se é discriminação um médico ser impedido de trabalhar por sua opinião política, então também deve ser recusar-se a prestar atendimento pelo mesmo motivo.

Tá, mas e o que isso tem a ver com feminismo? O que me chamou atenção e me fez querer escrever sobre o tema é que os artigos que os defensores da médica estão usando para apoiá-la são os que estabelecem a objeção de consciência. A objeção de consciência é velha conhecida das feministas porque os casos mais comuns em que é invocada são os de aborto. É com base nesses mesmos artigos que médicos se recusam a realizar abortos, alegando que isso “contraria os ditames de sua consciência”. Não deve ser surpresa para ninguém que eu me oponho ferozmente à existência dessa possibilidade.

Pense no seu emprego e nas atividades que dele fazem parte. Imagine que um dia você chegue no seu trabalho e diga que não realizará mais uma dessas atividades porque contraria os ditames da sua consciência. Como a chefia reagiria a isso? A não ser que você seja médico, imagino que não aceitariam isso como desculpa para deixar de cumprir as tarefas para as quais foi contratado e pelas quais é remunerado.

A verdade é que todos temos o direito de nos recusar a exercer atividades profissionais com que discordamos moralmente, mas a forma de exercer esse direito é não aceitando empregos que incluam essas atividades. Ninguém é obrigado a fazer medicina. Nenhum médico é obrigado a se especializar em ginecologia e obstetrícia. Ninguém com essa especialização é obrigado a atuar em um serviço em que abortos são realizados. Isso se aplica a qualquer procedimento legal autorizado pelo Conselho Federal de Medicina. Colocar o direito à objeção de consciência no Código de Ética Médico é colocar os médicos não só acima de qualquer outra categoria de profissionais, dado que ganham a distinção de poder recusar-se a fazer seu trabalho e ainda manter seu emprego, mas também acima do dever de atendimento ao paciente, do serviço à “saúde do ser humano e da coletividade”.

Penso o mesmo sobre o direito a recusar-se a atender pacientes, pelo menos nos serviços públicos. Pode-se pensar em uma exceção para o atendimento em consultórios particulares – afinal, todos os profissionais autônomos têm liberdade para aceitar ou não trabalhos –, mas apenas se for claramente definido o que constitui um motivo justo para a recusa e o que constitui discriminação. O Código de Ética Médico falha nesse ponto e a disposição das entidades médicas para defenderem o que claramente é uma ação discriminatória demonstra descaso com o alto padrão ético que a profissão deveria ter. Espero que esta situação ajude-nos a rever a forma como encaramos a medicina e os deveres e direitos dos médicos. Já está na hora.

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Contra o “outubro rosa”

Aviso: Minha avó paterna morreu de câncer de mama quando eu tinha 11 anos. Não tenho o menor interesse de falar sobre isso, mas acho melhor deixar claro que esta discussão é bastante pessoal para mim, antes que me acusem de não saber do que estou falando ou, pior, recorram às “vítimas de câncer de mama” e suas famílias para defender esses absurdos, sem de fato ouvir o que temos a dizer.

Eu odeio o “outubro rosa”. Odeio tudo sobre ele, inclusive (ou especialmente) esse rosa particularmente horroroso que foi escolhido para se tornar símbolo do câncer de mama. Não sou nem de longe a primeira a apontar todas estas críticas, mas me pareceu importante organizá-las num post só, com referências e em português. Vamos, então, ao que interessa.

1) O “outubro rosa” tem uma origem no mínimo suspeita
Para falar de sua origem, precisamos primeiro dizer o que o “outubro rosa” é. A meu ver, o evento global “outubro rosa” é junção de três coisas distintas: 1) o estabelecimento de um mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama; 2) a associação da cor (e do lacinho) rosa com esse câncer; e 3) o envolvimento de empresas nesses eventos por meio da venda de produtos rosa e do direcionamento de (parte dos) lucros a ações de combate ao câncer de mama.

A ideia de promover um mês de campanhas de conscientização sobre o câncer de mama foi iniciada em parceria pela American Cancer Society e uma empresa farmacêutica que produz medicamentos para a doença. Isso significa que, desde seu início, longe de ter por foco a saúde das mulheres, o “outubro rosa” era uma campanha por maiores lucros. Já o laço rosa tão prevalente hoje tinha o mesmo objetivo, sendo criado por uma empresa de cosméticos, em parceria com uma revista, para que fosse distribuído nas lojas da empresa. A ligação final entre todas as partes foi ação de uma organização que hoje é estreitamente associada ao outubro rosa, a Susan B. Komen Foundation for the Cure, primeira a distribuir lacinhos rosa num evento de conscientização. Sem negar que a organização arrecada uma quantidade considerável de dinheiro para educação, pesquisa, e serviços a pacientes de câncer de mama, há críticas sérias à sua forma de operação, particularmente suas parcerias. A questão da comercialização do câncer de mama merece um ponto próprio e será discutida a seguir. Aqui quero apenas ressaltar que, em 2012, a Komen parou de repassar recursos à Planned Parenthood quando passou a ser chefiada por opositores ferrenhos do direito ao aborto, serviço oferecido pela organização. O problema é que o dinheiro da Komen não financiava abortos e sim exames de mama. Pior: as mulheres atendidas pela Planned Parenthood são de renda baixa e apenas têm acesso a esse exame (e a vários outros serviços de saúde) nessa organização. A Komen voltou atrás depois, mas o fato de ter tomado essa atitude mostra, para mim, que esse compromisso com o combate ao câncer de mama não é tão sério assim.

2) O rosa-câncer-de-mama é uma ótima forma de se ganhar dinheiro
A maior controvérsia envolvendo a Komen (mas que também se aplica a outras organizações do campo) é a facilidade com que forma parcerias com empresas que usam o rosa-câncer-de-mama em suas campanhas de marketing em troca de doações para o combate à doença. O problema é que há muito pouca transparência na forma como as empresas gastam o dinheiro arrecadado com seus produtos rosa-câncer-de-mama. Se você tiver visto algum produto ou serviço sendo anunciado como parte do “outubro rosa”, responda o seguinte: ficou claro para que organizações o dinheiro seria doado? Ou quanto do dinheiro arrecado por esse produto ou serviço de fato será direcionado a organizações ligadas ao câncer de mama? Há um valor limite que a empresa irá desembolsar? Essas são algumas das perguntas propostas pela campanha “Think before you pink”, da organização Breast Cancer Action. O que essa campanha aponta é que o “outubro rosa” é um ótimo jeito de empresas ganharem dinheiro e bancarem os bonzinhos, sem que isso necessariamente reverta em qualquer benefício para as pacientes. Pior: algumas das empresas que se aproveitam dessa onda do “outubro rosa” (em certos casos inclusive com apoio oficial da Komen) fazem uso do rosa para fins incompatíveis com a ideia da defesa da vida e saúde das pessoas. Há empresas vendendo armas rosa-câncer-de-mama, por exemplo. Talvez piores sejam as empresas cujos produtos causam câncer, como no caso desta fabricante de brocas para fracking, atividade de extração de gás natural que libera substâncias cancerígenas na água, solo e ar.

É assim que se dá o processo de pinkwashing, que usa o sofrimento de milhares de mulheres e suas famílias como estratégia de marketing para gerar mais lucros, inclusive vendendo produtos que causam morte e sofrimento. Samantha King argumenta em seu livro Pink Ribbons, Inc.: Breast Cancer and the Politics of Philanthropy que o câncer de mama passou de uma doença séria e uma experiência trágica individual para uma indústria de sobrevivência e marketing. Neste mês cabe lembrar que cada fitinha rosa, cada prédio e monumento iluminado, cada campanha equivocada no Facebook serve mais para alimentar essa indústria do que para contribuir minimamente com o combate ao câncer de mama. O que me leva ao próximo ponto.

3) A “conscientização” não merece esse nome
Talvez você pense que, a despeito disso tudo, o “outubro rosa” pode ter um efeito positivo. Afinal, é sempre válido aumentar a conscientização das pessoas sobre a doença. Entretanto, muito do que se propaga como “conscientização” durante este mês são informações desatualizadas e equivocadas sobre como detectar cedo o câncer.

Se você já leu alguma coisa sobre o câncer de mama, provavelmente se deparou com duas formas de detecção: o auto-exame e a mamografia. O auto-exame, ao contrário do que você talvez pensa, não é recomendado, pois há pouca evidência de que traz benefícios e ampla evidência de que acarreta danos. Vou repetir porque esta informação é importante: o auto-exame NÃO contribui para a detecção precoce do câncer de mama, mas gera danos a mulheres que, devido a resultados falso-positivos, se submetem a consultas e exames invasivos e desnecessários.

Já mamografias são sim um instrumento indispensável na detecção do câncer de mama. Contudo, a Força Tarefa de Serviços de Prevenção dos Estados Unidos (U.S. Preventive Services Task Force), grupo governamental norte-americano, recomenda que esse exame seja realizado apenas a cada dois anos e em mulheres acima de 50 anos de idade. As recomendações do grupo concluem que não há evidências de benefícios de mamografias anuais, ou de mamografias realizadas em mulheres abaixo dessa idade, mas há evidências de danos: em primeiro lugar, os danos psicológicos de um falso-positivo; em segundo, os danos de se tratar cânceres que não teriam se tornado aparentes durante a vida das pacientes (sobre-diagnóstico) ou que teriam se tornado aparentes, mas não reduzido suas vidas; em terceiro, o risco de exposição à radiação que, ainda que muito pequeno, deve ser levado em consideração devido à escala da intervenção. Assim, a realização de mamogramas em mulheres com menos de 50 anos só se justifica pelo contexto indvidual da mulher, especialmente as suas chances de desenvolver a doença.

Minha experiência me diz que neste exato momento há alguém pensando “mas o auto-exame/a mamografia anual/antes do 50 foi o que salvou a minha vida/a vida da minha mãe/irmã/amiga/namorada/colega de trabalho, etc”. Fico feliz que você ou alguém que você ama teve um tratamento bem-sucedido, quaisquer que tenham sido os fatores que contribuíram para isso – e digo isso sem qualquer ironia. A questão é que, para a maioria esmagadora das pessoas, o auto-exame e a mamografia excessiva não só não contribuem como tornam suas vidas piores – e é com base nisso que devemos instruir as pessoas.

Agora, é essa a mensagem do outubro rosa? Uma pesquisa rápida no Google revela que não. No pouco tempo que tive paciência para procurar, encontrei todos estes exemplos de sites recomendando o auto-exame e/ou mamografias anuais a partir dos 40. De onde se conclui que o “outubro rosa”, como as formas de “detecção precoce” que prega, causa mais danos do que benefícios às pessoas que supostamente deveria ajudar.

Mas pelo menos uma parte particularmente repugnante do “outubro rosa” parece (ainda) não ter chegado aqui:

4) A sexualização do câncer de mama
Realmente, ainda não vi exemplos disso no Brasil. Deixo este ponto aqui porque infelizmente faz parte do pacote “outubro rosa” em outros países e porque espero que, caso queiram importar essa moda, estejamos já preparados para rechaçá-la. A sexualização do câncer de mama diz respeito a campanhas “engraçadinhas” que focam no apelo sexual dos seios das mulheres como forma de encorajar a conscientização e o diagnóstico precoce. Em países de língua inglesa, há diferentes campanhas do tipo “salvem os peitos”, que deixam bem claro que o valor que se atribui às mulheres se reduz à sua aparência e disponibilidade sexual para homens hetero. O último exemplo ainda nos presenteia com a camisa “Save a life, grope your wife!” (Salve uma vida, apalpe sua esposa!) que une a normalização da violência sexual à objetificação das mulheres. Antes que pensem que esse é um problema de gringos, este vídeo produzido por nossos vizinhos chilenos é exemplo perfeito desse fenômeno.

Há quem pense que essa crítica é coisa de feminista sem senso de humor, que não sabe perceber que é uma brincadeira que, afinal, contribui para a conscientização sobre o câncer de mama. Em relação à conscientização, ver o ponto anterior. Em relação à “brincadeira”, não vejo graça nem utilidade de se pretender salvar a vida das mulheres reduzindo-as a coisas a serem vistas e apalpadas e desqualificando-as como pessoas. Se a escolha for entre salvar os seios e salvar uma pessoa (e é), a resposta tem que ser óbvia. A alternativa não merece ser considerada nem de brincadeira.

5) O câncer de mama domina as discussões sobre saúde da mulher
Aqui é o ponto em que invariavelmente vão me achar insensível, então refiro-os ao aviso no início do texto. Nada do que vou dizer aqui significa que não considero o câncer de mama um tema que mereça ser discutido, nem que sou contra ações de conscientização (de verdade) ou de obtenção de recursos para pesquisa e apoio a pacientes e famílias. Só acho que o câncer de mama não é o único tema, nem mesmo o mais importante, quando se trata de saúde da mulher.

A verdade é que 20% de mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica. Uma em cinco fará um aborto até o fim de sua vida reprodutiva, em sua maioria sob condições inseguras. Em 2012, cerca de 480 mil estupros foram registrados no Brasil o que, se mantida a proporção de vítimas mulheres dos casos registrados no SINAN, significa cerca de 380 mil mulheres estupradas só nesse ano. E o câncer de mama? Segundo o INCA, a estimativa é de cerca de 57 mil novos casos por ano – e nem todos são mulheres, ainda que a maioria seja.

Então por que temos um mês inteiro dedicado ao câncer de mama, com adesão do governo, da iniciative privada e de organizações não-governamentais, mas não temos nada desse porte para a violência doméstica, o aborto ou o estupro? Minha teoria é que é mais fácil tornar o câncer de mama palatável e, mais importante, comerciável do que essas outras coisas. O câncer de mama, ao contrário desses outros temas, não evoca qualquer discussão sobre a opressão de gênero ou as desigualdades de raça, classe, região, etc., do país. A percepção é de que o câncer de mama está fora do controle humano e quem ele vitimiza ou deixa de vitimizar independe de estruturas sociais ou agência de qualquer grupo ou indivíduo (o que não é uma visão inteiramente correta; afinal, o acesso a diagnóstico e tratamento de qualidade é determinado pela posição socio-econômica, raça e região, como pode-se argumentar que é a exposição a certas substâncias cancerígenas). As vítimas de violências doméstica e sexual e de abortos inseguros são responsabilizadas pelo que lhes ocorre: devia ter largado o marido, não devia ter se comportado dessa forma, não devia ter abortado. Jás as vítimas do câncer de mama são só isso, vítimas sem culpa e merecedoras de compaixão. Enfrentar a violência doméstica e sexual e o aborto inseguro requer que se altere fundamentalmente a sociedade e que se confronte os setores mais reacionários e anti-mulher do país. Apoiar as vítimas do câncer de mama requer apenas (de acordo com as campanhas do “outubro rosa”) que se use uma fitinha e que se gaste dinheiro comprando coisas. Para mim, está claro o que merece mais atenção.

Resumindo para quem não teve paciência de ler tudo: o “outubro rosa” é uma forma de se comercializar as experiências de pacientes de câncer de mama e suas famílias, gerando lucro e imprensa positiva para algumas empresas enquanto se dissemina informações incorretas e danosas sobre a doença. O sucesso em comercializar (e em alguns casos sexualizar) o câncer de mama foi tão grande que hoje em dia ele domina as discussões sobre saúde da mulher, a despeito de não ser nem de longe a questão mais importante desse campo – tudo isso embalado com um laço rosa para fazer as pessoas se sentirem bem com elas próprias.

Prefiro fechar este texto com um tom mais positivo porque sei, apesar das críticas todas, que a maioria das pessoas que aderem ao “outubro rosa” fazem isso por solidariedade com as pacientes e famílias. Se você quer, de fato, contribuir para a causa, tenho algumas sugestões: vote em candidatos e partidos que defendem a garantia de atendimento de qualidade no SUS; pesquise organizações de apoio a pacientes de câncer de mama e doe seu dinheiro diretamente às que fazem um bom trabalho; vire doador ou doadora de sangue; ou, se nada disso for possível, repasse as informações corretas e encoraje as pessoas a se informarem. Só deixe o lacinho rosa em casa; merecemos coisa melhor do que isso.

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O que você precisa saber sobre a vacina contra HPV

A partir de amanhã a vacina contra o HPV será distribuída no SUS. É uma vacina que previne doenças sexualmente transmitidas que é aplicada em meninas novas (este ano, o público-alvo da vacinação serão meninas de 11 a 13 anos de idade). Essa combinação infelizmente tende a gerar reações histéricas, então achei que valia a pena disponibilizar algumas informações sobre a vacina.

Começando pelo HPV em si. O HPV, ou vírus do papiloma humano, é um vírus transmitido por via sexual e que causa verrugas e alguns tipos de câncer. Estima-se que até 75% de homens e mulheres sexualmente ativos contraiam o HPV durante suas vidas e não existe tratamento para o vírus, uma vez contraído. Felizmente, a maioria das infecções por HPV são assintomáticas, mas o HPV é responsável por cerca de 70% dos casos de câncer de colo de útero[1]. O câncer de colo de útero, ou cervical, é o “terceiro tumor mais frequente na população feminina, atrás do câncer de mama e do colorretal, e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil”, de acordo com o INCA [2]. O objetivo da distribuição da vacina é justamente reduzir o número de mulheres que desenvolvem o câncer de colo de útero e, consequentemente, que morrem da doença. Contudo, a vacina só é eficaz quando aplicada antes da exposição ao HPV (ver [1]), o que, dada a alta prevalência do vírus na população sexualmente ativa, requer que as pessoas sejam vacinadas antes de iniciar sua vida sexual. É por esse motivo que a vacina será oferecida a meninas de 11 a 13 anos*.

Agora que cobrimos o básico, vamos às críticas:

1) A vacina não é segura
Como pode ser visto neste infográfico, depois de serem vacinadas contra o HPV, cerca de 0,1% das pessoas sofreram efeitos colaterais leves (desmaio, tontura, enjoo, dor de cabeça, febre, dor no local de aplicação); 0,009% das pessoas sofreram efeitos colaterais sérios (que exigiram internação hospitalar); e 0,0004% morreram – mas nenhuma dessas mortes foi causada pela vacina em si. É importante entender que quando se diz que alguém morreu “depois de tomar a vacina”, isso significa apenas que um evento seguiu-se ao outro no tempo. Se alguém tiver tomado a vacina e depois sofrido um acidente de carro e morrido, ela terá morrido depois de tomar a vacina, mas não por causa da vacina. Algumas pessoas ignoram essa distinção para tentar fazer a vacina parecer menos segura do que é.

É possível que a vacina cause efeitos no longo prazo, o que ainda não é possível avaliar devido ao seu desenvolvimento recente. Contudo, isso é verdade de qualquer medicamento que chegue ao mercado. A lógica que se aplica nesses casos é de que os benefícios que o medicamento traz valem o risco de efeitos colaterais de longo prazo inesperados. No caso da vacina do HPV, que se mostrou, até agora, altamente eficaz e segura, essa lógica cabe. O que nos leva à segunda crítica:

2) A vacina não é custo-efetiva
Não existe tratamento para o HPV, mas existe tratamento para o câncer de colo de útero, que é altamente eficaz quando o câncer é detectado cedo. O exame usado para detectar o câncer é conhecido como papanicolau e é altamente eficaz e muito mais barato do que a vacina. Além disso, o câncer de colo de útero se desenvolve lentamente, dando bastante tempo para que seja detectado ainda nos estágios iniciais. Realizando esse exame regularmente, é praticamente garantido que a mulher não morrerá de câncer de colo de útero. Além disso, as vacinas atualmente disponíveis cobrem apenas dois ou quatro subtipos do HPV, mas o papanicolau detecta os efeitos de todos os subtipos. Somando tudo isso, não há motivos para que se vacine, certo?

Errado. Se tivéssemos um sistema de saúde perfeito, que garantisse todas as consultas a todos os pacientes, bem como o processamento com qualidade e em tempo hábil de todos os exames, esse argumento poderia ter validade. Acontece que o SUS certamente não é esse sistema perfeito e a realidade com que nos deparamos é outra. Os estudos apontam que a cobertura do papanicolau varia de acordo com as regiões e características como renda e escolaridade. A história é a mesma que já estamos cansados de ouvir: mulheres de renda e escolaridade altas e que vivem em áreas urbanas realizam o exame mais dos que as de renda e escolaridade baixas e que vivem em áreas rurais [3].

Estudos de escopo nacional realizados em 2003 apontaram uma cobertura do exame abaixo de 70%, sendo que, de acordo com a OMS, a cobertura mínima necessária seria de 80%. Não só isso, mas a qualidade dos exames realizados no Brasil está aquém do necessário e um número elevado (cerca de 45%, entre 1995 e 2002) de mulheres que só recebem o diagnóstico num momento em que o câncer está avançado demais para que o tratamento seja efetivo [3]. Olhar para essa realidade e dizer, “não precisamos de vacina, o exame nos basta” é demonstrar total ignorância da realidade do acesso à saúde no país.

Isso não significa que devemos abandonar o exame. Da mesma forma que não sabemos se a vacina tem efeitos colaterais de longo prazo, também não sabemos qual será sua eficácia no longo prazo. Além disso, como dito acima, ela só previne contra alguns subtipos do vírus. Nos Estados Unidos, identificou-se que os subtipos do HPV encontrados em mulheres negras são diferentes dos encontrados em mulheres brancas – e a vacina só previne contra os subtipos encontrados em mulheres brancas [4]. É óbvio que é importante fortalecer o SUS e garantir o acesso a esse exame e tantos outros. O que a vacina representa é uma proteção extra. A eficácia da vacina está perto de 100%, de acordo com os estudos realizados (ver [1]). Por que não oferecê-la também, ao lado do papanicolau?

Se você for razoável, provavelmente não conseguirá pensar em nenhum motivo. Para certas pessoas, contudo, o motivo é:

3) OH NÃO, VÃO FALAR DE SEXO PARA GAROTINHAS

Olha, eu sei que para muita gente é profundamente desconfortável pensar que seus bebês um dia vão fazer sexo e é pior ainda ter que falar sobre sexo com seus filhos, especialmente quando eles são novos. Acontece que seus filhos quase certamente vão fazer sexo em algum momento de suas vidas. Aliás, é melhor partir do pressuposto de que isso certamente vai acontecer porque 1) na grande maioria dos casos é verdade; e 2) você precisa se assegurar de que, quando isso acontecer, seus filhos saberão se proteger. E não, falar com seus filhos sobre sexo não vai fazer com que eles iniciem suas vidas sexuais mais cedo, nem que tenham mais parceiros, nem que se comportem de maneira mais arriscada. Pelo contrário: pesquisas que compararam os resultados de programas de educação sexual que apenas falavam de abstinência com os que discutiam uso de contraceptivos mostram que os jovens que aprendem sobre contracepção iniciam a vida sexual mais tarde, têm menos parceiros, relatam uma proporção mais alta de uso de camisinha e proporções mais baixas de gravidez na adolescência [5]. A vacina contra o HPV não só protegerá suas filhas contra uma doença gravíssima, como dá a oportunidade de ter uma conversa sobre doenças sexualmente transmissíveis e sexo seguro. Isso pode ser difícil, mas é necessário. Mais importante: não se sentir à vontade para falar sobre sexo com seus filhos não é motivo para se opor a uma vacina que pode salvar suas vidas.

E é isso por hoje. Ficou longo, mas eu espero que ajude.

[1] Informações disponíveis em: http://www.ghjournal.org/jgh-print/fall-2012-issue/human-papillomavirus-a-canadian-investigation-into-the-global-vaccination-controversy/
[2] http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/colo_utero/definicao
[3] Informações disponíveis em: http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v30n5/a02v30n5.pdf
[4] http://www.dukehealth.org/health_library/news/hpv-strains-affecting-african-american-women-differ-from-vaccines
[5] Informações disponíveis em: http://www.advocatesforyouth.org/publications450

*Mais adiante, a idade de vacinação será aos 9 anos.

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