Introdução ao gênero: apresentação

Lendo este blog, fica claro que gênero é um tema que me interessa. Já escrevi sobre várias questões ligadas a gênero ao longo dos últimos anos, mas nunca cumpri a promessa de escrever um texto introdutório sobre o tema, em parte por falta de tempo, em grande medida por saber que não conseguiria dar conta de algo tão amplo e complexo. Resolvi pôr um fim à procrastinação e dizer logo o que posso. Em tempos de avanços de grupos conservadores, me parece importante ter algo, ainda que imperfeito, para combater visões machistas e preconceituosas.

Deixo claro o que esta introdução não é: não é uma discussão acadêmica do conceito de gênero, nem pretende ser uma apresentação exaustiva do tema. Não teria capacidade de fazer a primeira bem e a segunda é impossível. O que esta introdução pretende ser é apenas um primeiro contato com as discussões de gênero para quem ainda não parou para pensar muito sobre o assunto ou ainda está operando com uma visão tradicional da questão.

É justamente essa visão que será nosso ponto de partida. O senso comum sobre os seres humanos é que se dividem em dois grupos biologicamente distintos de acordo com o sexo. Ser do sexo masculino tornaria alguém, naturalmente, homem; ser do sexo feminino tornaria alguém, naturalmente, mulher. Mulheres e homens seriam diferentes por natureza e teriam comportamentos e sentimentos distintos. Por fim, a natureza humana também levaria à atração heterossexual. O sexo produziria gênero, que produziria a (hetero)sexualidade. Essa visão é defendida e sustentada tanto com apelos à natureza quanto com apelos à religião. Muitas pessoas pensam não só que essa é a realidade dos seres humanos, mas também que o é porque deus nos fez assim. Vejamos por que essa visão está completamente errada*.

Parte 1: sexo

Parte 2: gênero

Parte 3: orientação sexual

*Acho que a esta altura já está claro que sou ateia e que discordo de qualquer explicação que envolva (qualquer) deus. Contudo, não tenho o menor interesse em entrar numa discussão de religião aqui. Quando digo que o senso comum está errado é porque o gênero não funciona assim na prática. Independentemente de que papel você atribua a (algum) deus na vida humana, ele não pode ter criado algo que não existe.

Tagged , , ,

A definição de pessoa

O que é uma pessoa? Se a resposta parece simples, você ainda não parou para pensar no assunto. Vamos deixar de lado definições legais e nos concentrar apenas na ideia de que existe uma categoria de ser vivo que é distinta de todos os outros seres vivos do planeta. Os seres pertencentes a essa categoria, por pertencerem a essa categoria, têm direito a certas garantias (ao menos em teoria): não podem ser mortos*; não podem ser propriedade; não podem ser mantidos em cativeiro; e por aí em diante. O que, então, define essa categoria? Aviso logo: não pretendo avançar qualquer definição aqui, apenas apontar os motivos pelos quais me parece necessário ter essa discussão.

Uma compreensão rasteira simplesmente equipararia ser humano a pessoa, mas rapidamente vemos que essa definição não é suficiente se pensarmos, por exemplo, em casos de morte cerebral. Nesses casos, temos um ser humano ainda vivo, mas que já não é mais considerado uma pessoa, a ponto de seus órgãos poderem ser doados. Por outro lado, há a questão dos outros animais. Por que apenas seres humanos podem ser considerados pessoas?

É muito fácil perceber que há uma diferença entre a espécie humana e as demais espécies com que dividimos o planeta. O que não é tão fácil é explicar a que atribuir essa diferença. Vou deixar de lado discussões religiosas tanto por ser ateia, quanto por não conhecê-las a fundo, quanto pelo fato de que a definição de pessoa deve ser a mais universal possível e nenhuma definição baseada em preceitos religiosos o é. Vamos olhar para o conhecimento científico que temos a nosso dispor.

Carl Sagan afirma, em seu livro “The pale blue dot”, que a ciência progressivamente desmentiu a percepção de que somos especiais. Ao mostrar que a Terra é um planeta nada excepcional, orbitando uma estrela nada excepcional**, em apenas uma de bilhões de galáxias, a ciência desfez a noção de que habitávamos um universo feito exclusivamente para nós. Sagan estava se referindo à astronomia, seu campo de estudo, mas a ideia se aplica a outras áreas do conhecimento. Charles Darwin deu um passo decisivo nesse sentido ao demonstrar que os seres humanos, longe de uma criação única e especial de Deus, eram fruto do mesmo processo biológico que gerou todas as outras espécies do planeta, compartilhando com elas um mesmo ancestral e, portanto, sendo parente de todas. Muitos anos depois, com o mapeamento do genoma humano, aprendemos também que não só temos menos genes do que esperávamos, como temos menos genes do que uma banana. Dos genes que temos, 99% são iguais aos de chimpanzés e bonobos. Claramente não é aí que se encontra a resposta.

Outras pesquisas trataram de desfazer outras ideias de singularidade. Jane Goodall demonstrou que chimpanzés usam ferramentas, algo que se pensava ser exclusivo a seres humanos***. Desde então, diversas outras espécies foram observadas usando ferramentas. A capacidade de comunicar-se, inteligência e emoções tampouco são atributos exclusivamente humanos. Quanto mais avança a compreensão que temos de outras espécies, mais difícil é manter a convicção de que seres humanos são radicalmente diferentes dos outros animais. O que parece haver é uma diferença de grau, mas não de natureza, especialmente em relação a nossos parentes mais próximos.

Se nem todos os seres humanos podem ser considerados pessoas e se não há uma diferença tão radical entre seres humanos e outros animais, torna-se necessário pensar em definições diferentes de pessoa. Existem grupos que defendem justamente que grandes macacos, cetáceos e até certos pássaros sejam considerados pessoas devido às suas capacidades cognitivas, psicológicas e emocionais. Recentemente, uma juíza americana concedeu o status de pessoas legais a dois chimpanzés usados em pesquisa laboratorial. O advogado que pede a libertação dos dois chimpanzés argumenta que eles são “suficientemente inteligentes, emocionalmente complexos e cientes de si para merecer alguns direitos humanos básicos” (“intelligent, emotionally complex and self-aware enough to merit some basic human rights”).

A discussão é importante por mais um motivo. Infelizmente, a questão de quem deve ser considerado uma pessoa é frequentemente apropriada por grupos anti-escolha para avançar sua agenda. Para esses grupos, a definição de pessoa é qualquer coisa que possibilite as maiores restrições possíveis à realização do aborto. Evidentemente, isso não é uma definição satisfatória. Isso não significa, contudo, que a questão do aborto não seja relevante aqui. O único critério que permite classificar um embrião ou um feto de até pelo menos 20 semanas como “pessoa” é o fato de pertencer à espécie humana****. Se as categorias “humano” e “pessoa” não forem mais idênticas, isso implica consequências claras para o direito ao aborto.

Por outro lado, há um risco sério de se criar uma definição que negue a certos humanos o status de pessoa. Não faltam exemplos na história humana de atrocidades cometidas contra grupos considerados algo menos do que pessoas por seus algozes. No artigo citado acima sobre a possibilidade de se classificar animais não humanos como pessoas, o argumento contrário mais forte é justamente o que aponta que uma definição ampla o suficiente para incluir todos os seres humanos também incluiria um número excessivamente grande de outros animais – e uma definição suficientemente estreita para excluir a maioria dos outros animais acabaria deixando de lado alguns humanos, por exemplo por serem muito novos.

Sei que é extremamente insatisfatório terminar um texto de forma tão pouco esclarecedora. Infelizmente, é um tema complexo, para o qual não há respostas simples. Certamente, não pretendo fingir ter uma resposta à questão. Posso apenas dizer que acredito sim que precisamos repensar (ou talvez pensar) o que significa ser uma pessoa e que simpatizo com a ideia de conferir esse status a membros de algumas outras espécies.

*Se partirmos para definições legais, é claro que há exceções.
** “Far out in the uncharted backwaters of the unfashionable end of the western spiral arm of the Galaxy”, segundo Douglas Adams
***A quem se interessar pelo assunto, recomendo fortemente o livro “Primates: the fearless science of Jane Goodall, Dian Fossey and Biruté Galdikas”, de Jim Ottaviani e Maris Wicks, que apresenta de forma extremamente didática (e divertida) os estudos feitos pelas três pesquisadoras com grandes macacos e suas contribuições para o campo científico e para esforços de conservação.
**** Luc Boltanski argumentaria que o que define um embrião ou feto como pessoa é o fato de estar inserido numa rede de relações simbólicas. Obviamente, esse argumento não satisfaria grupos anti-escolha pois o próprio fato de optar por um aborto torna o feto uma não-pessoa (dado que nega a esse feto sua construção simbólica) e justifica a interrupção da gravidez.

Tagged , , ,

Abaixo as princesas 4

Os livros de hoje são para crianças mais velhas (e adultos também, por que não?) e fecham, pelo menos por enquanto, a lista.

A menina que navegou ao Reino Encantado no barco que ela mesma fez é uma história incrível que recomendo para qualquer pessoa que goste de contos de fadas e histórias fantásticas, independentemente da idade. Setembro é transportada para o Reino Encantado, onde descobre que as coisas não vão tão bem. A história que segue é muito mais sombria do que as versões disneyficadas dos contos de fadas com que as crianças estão acostumadas. O mundo que Valente cria é muito mais próximo dos contos originais, ou do Alice no país das maravilhas. Aliás, já vi várias pessoas traçando a comparação entre este último e A menina… , não só pela temática, mas pela qualidade. Em termos de representatividade, este livro é possivelmente o melhor de toda a lista. Setembro é uma menina criativa, engenhosa e corajosa, o que se percebe por todas as suas interações no Reino Encantado (e em particular pelo tal barco que ela mesma faz). Para além disso, a antagonista da história e uma grande quantidade de personagens secundárias são também mulheres e meninas. Por mais que os dois companheiros de Setembro sejam personagens masculinos, a impressão é de uma história sobre mulheres. Valente escreveu duas continuações para o livro, The girl who fell beneath Fairyland and led the revels there, que também é fantástico, e The girl who soared over Fairyland and cut the moon in two, que ainda não li. Nenhum dos dois foi traduzido ainda, infelizmente. Fico torcendo para que isso ocorra, mas, enquanto isso, a história de A menina que navegou ao Reino Encantado no barco que ela mesma fez já vale a leitura.

Coraline é mais um livro escrito pelo Neil Gaiman, desta vez para crianças mais velhas. Coraline é uma menina que acaba de se mudar para uma nova casa com seus pais hiper-ocupados. Um dia, descobre uma passagem para um mundo aparentemente encantado onde sua Outra Mãe a espera. Rapidamente, esse novo mundo passa de convidativo a assustador. Coraline compartilha muitas das características de Setembro: inteligente, corajosa, altruísta. O livro também é cheio de personagens femininas, começando pela mãe de Coraline, passando pelas srtas. Spink e Forcible e chegando na Outra Mãe. É o mais assustador dos dois livros de hoje, mas, segundo Neil Gaiman, “de forma geral, Coraline […] é muito mais perturbador para adultos do que é para crianças, que tendem a lê-lo como uma aventura” (“As a general rule, Coraline […] is much creepier for adults than it is for kids, who tend to read it as an adventure.”)*É possível que vocês já conheçam o filme. Apesar de ser fã do Henry Selick e da Laika (o estúdio de animação), tenho que dizer que o livro é melhor, não só em termos da história como um todo, mas especificamente em termos de representação. O personagem Wybie não existe no livro. No filme, ele fica encarregado de ajudar Coraline de uma forma que reduz sua agência e perspicácia e retira dela o mérito de ter salvado a si própria. Por outro lado, não há motivo para quem tenha gostado do filme não gostar do livro, então recomendo Coraline para qualquer fã do filme de Selick também.

*Em: http://journal.neilgaiman.com/2009/01/is-coraline-right-for-insert-age-here.html

Tagged , , , , ,

Abaixo as princesas 3

Os livros de hoje são um pouco diferentes. Neles, importa menos o que a personagem principal é do que o que ela representa. (Admito ter flexibilizado um pouco as regras, mas achei que eles mereciam estar entre as recomendações).

Começando pelos livros-imagem da Suzy Lee: Onda, Espelho e Sombra. Como já disse, eles são totalmente diferentes dos que já apresentei: não têm propriamente uma história, nem desenvolvem muito da personagem principal. Ainda assim, acho que a inclusão é merecida, não só porque os livros são belíssimos, mas pelo que encorajam os leitores a fazer: interpretar a história e, com isso, se colocar no lugar da personagem principal.

Por não terem palavras, os livros de Lee criam a possibilidade de se ler várias histórias diferentes em suas páginas. Ao mostrar a personagem principal interagindo com o mundo, criam uma situação com que qualquer criança pode se identificar, mas, ao contrário da grande maioria dos livros, não coloca um menino branco como o representante universal de todos. Para quem tem crianças pequenas a presentear, recomendo fortemente qualquer um dos três (ou todos os três).

A árvore vermelha é outro livro com arte belíssima (obviamente, dado que é do Shaun Tan) e que não tem propriamente uma história. O livro trata da tristeza, solidão e depressão que todos sentem de vez em quando. A árvore vermelha do título aparece no fim da história, sem muita explicação, representando o que traz alegria nesses momentos. Como nos livros de Suzy Lee, a personagem apenas vivencia as experiências que o livro relata, mas não tem uma personalidade, nem objetivos, medos ou desejos. A própria forma como o livro é escrito indica como ela deve ser vista. Shaun Tan escreve: “às vezes o dia começa sem nada de interessante no horizonte. (…) a escuridão esmaga você.” A história não é sobre a personagem; ela está ali apenas como representante de algo universal, algo que o leitor – a quem Tan se dirige diretamente – também já viveu. Da mesma forma que a personagem dos livros de Suzy Lee, temos aqui uma pessoa qualquer, mas que não é um homem (ou menino) branco. Também gosto muito desse livro pelos temas que aborda. Livros infantis também devem falar de coisas difíceis, também devem apresentar ideias mais complexas sem dar respostas fáceis (A árvore generosa, de Shel Silverstein, vem à mente, mas não foi incluída por não ter personages femininas*). A árvore vermelha é um livro com pouco texto, ideal para crianças que estão aprendendo a ler.

*Na versão em português, “a árvore” dá a entender que se trata de uma personagem feminina, mas não há nada no texto que indique isso para além dessa peculiaridade da nossa língua de atribuir gênero a todos os substantivos.

Tagged , , , , , ,

Abaixo as princesas 2

Seguindo com a lista de livros para crianças com boas personagens femininas, apresento dois livros de um dos meus autores favoritos, Philip Pullman:

A Filha do fabricante de fogos de artifício é a história de Lila que, como diz o título, é filha de um fabricante de fogos de artifício. Contrariando as expectativas de gênero, Lila decide seguir os passos do pai e tornar-se também uma fabricante de fogos de artifício. Para isso, embarca em uma jornada perigosa para aprender o segredo da profissão. O livro está longe de ser perfeito. Além de Lila, a única outra personagem feminina é uma deusa que aparece pouco e apenas interage com um personagem masculino. Lila, como muitas personagens de contos de fadas e histórias infantis, cresce sem a mãe, morta enquanto ainda era pequena. Dessa forma, o livro não retrata nenhuma relação positiva entre mulheres. Todas as interações de Lila são com homens, principalmente Chulak e seu pai, o que acaba reforçando a ideia de que histórias sobre mulheres precisam incluir personagens masculinos para tornarem-se relevantes. A despeito disso tudo, é um ótimo livro que desafia estereótipos sobre mulheres. Lila é determinada, corajosa e extremamente estóica quanto ao que precisa fazer para alcançar seu objetivo. Ela consegue suportar uma jornada fisicamente demandante e superar todos os desafios que aparecem em seu caminho. Em vários momentos, fica claro que Lila se importa muito pouco com sua aparência, especialmente quando há uma tarefa a ser realizada – e não há qualquer romance na história. Sua jornada para tornar-se quem quer ser é a jornada em direção a uma profissão, a algo que ela faz, não simplesmente algo que é. O livro é ainda mais legal por se passar num país asiático e relegar os personagens brancos a papéis secundários.

Clockwork, até onde pude constatar, ainda não foi traduzido. Deixo a dica de qualquer forma porque ler livros em inglês é uma ótima ajuda para quem está aprendendo a língua (o que muitas crianças fazem) e para deixar a referência, caso alguém resolva traduzi-lo. É difícil descrever Clockwork sem contar muito da história. Digamos apenas que um jovem escritor começa a contar uma história que acaba tomando rumos imprevistos. Em termos de representação feminina, Clockwork é pior do que A filha do fabricante de fogos de artifício. Com exceção de Gretl, todos os personagens relevantes da história são homens. Gretl aparece muito pouco na primeira parte da história e está totalmente ausente da segunda. A princesa Mariposa, que aparece na história-dentro-da-história, é supérflua e vaidosa, reforçando estereótipos sobre mulheres jovens. Ainda assim, confesso que gosto mais da história de Clockwork do que d’A filha. Ela é mais sombria, mais estranha e menos previsível. Mesmo querendo que a história tivesse mais personagens femininas, só a presença de Gretl já justifica sua inclusão. Descrita pelo autor como “uma menina corajosa”, Gretl é quem inegavelmente salva o dia – e faz isso não com violência, mas com compaixão. Algo do feminismo que se perdeu um pouco nos últimos anos é justamente a crítica não apenas à desigualdade de gênero, mas aos valores mais amplos perpetuados por nossa cultura. As feministas de um determinado momento defendiam que se substituísse os valores de competição, agressividade e individualismo, associados à esfera do masculino, por valores de compaixão, cooperação e comunidade, mais associados às mulheres*. Por mais brega que a ideia seja, ter um livro em que o dia é salvo por quem defende esses valores me parece algo bastante válido.

*Obviamente, não significa que homens e mulheres dividam-se, na vida real, entre esses polos. As pessoas não são unidimensionais; todas são capazes de demonstrar todos esses valores em momentos distintos, ou em relação a pessoas distintas. Nem mesmo pode-se dizer que esses conjuntos de valores representem, em média, homens ou mulheres, mas apenas uma visão tradicional de como homens e mulheres se comportam.

Tagged , , , ,

Contra o “outubro rosa”

Aviso: Minha avó paterna morreu de câncer de mama quando eu tinha 11 anos. Não tenho o menor interesse de falar sobre isso, mas acho melhor deixar claro que esta discussão é bastante pessoal para mim, antes que me acusem de não saber do que estou falando ou, pior, recorram às “vítimas de câncer de mama” e suas famílias para defender esses absurdos, sem de fato ouvir o que temos a dizer.

Eu odeio o “outubro rosa”. Odeio tudo sobre ele, inclusive (ou especialmente) esse rosa particularmente horroroso que foi escolhido para se tornar símbolo do câncer de mama. Não sou nem de longe a primeira a apontar todas estas críticas, mas me pareceu importante organizá-las num post só, com referências e em português. Vamos, então, ao que interessa.

1) O “outubro rosa” tem uma origem no mínimo suspeita
Para falar de sua origem, precisamos primeiro dizer o que o “outubro rosa” é. A meu ver, o evento global “outubro rosa” é junção de três coisas distintas: 1) o estabelecimento de um mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama; 2) a associação da cor (e do lacinho) rosa com esse câncer; e 3) o envolvimento de empresas nesses eventos por meio da venda de produtos rosa e do direcionamento de (parte dos) lucros a ações de combate ao câncer de mama.

A ideia de promover um mês de campanhas de conscientização sobre o câncer de mama foi iniciada em parceria pela American Cancer Society e uma empresa farmacêutica que produz medicamentos para a doença. Isso significa que, desde seu início, longe de ter por foco a saúde das mulheres, o “outubro rosa” era uma campanha por maiores lucros. Já o laço rosa tão prevalente hoje tinha o mesmo objetivo, sendo criado por uma empresa de cosméticos, em parceria com uma revista, para que fosse distribuído nas lojas da empresa. A ligação final entre todas as partes foi ação de uma organização que hoje é estreitamente associada ao outubro rosa, a Susan B. Komen Foundation for the Cure, primeira a distribuir lacinhos rosa num evento de conscientização. Sem negar que a organização arrecada uma quantidade considerável de dinheiro para educação, pesquisa, e serviços a pacientes de câncer de mama, há críticas sérias à sua forma de operação, particularmente suas parcerias. A questão da comercialização do câncer de mama merece um ponto próprio e será discutida a seguir. Aqui quero apenas ressaltar que, em 2012, a Komen parou de repassar recursos à Planned Parenthood quando passou a ser chefiada por opositores ferrenhos do direito ao aborto, serviço oferecido pela organização. O problema é que o dinheiro da Komen não financiava abortos e sim exames de mama. Pior: as mulheres atendidas pela Planned Parenthood são de renda baixa e apenas têm acesso a esse exame (e a vários outros serviços de saúde) nessa organização. A Komen voltou atrás depois, mas o fato de ter tomado essa atitude mostra, para mim, que esse compromisso com o combate ao câncer de mama não é tão sério assim.

2) O rosa-câncer-de-mama é uma ótima forma de se ganhar dinheiro
A maior controvérsia envolvendo a Komen (mas que também se aplica a outras organizações do campo) é a facilidade com que forma parcerias com empresas que usam o rosa-câncer-de-mama em suas campanhas de marketing em troca de doações para o combate à doença. O problema é que há muito pouca transparência na forma como as empresas gastam o dinheiro arrecadado com seus produtos rosa-câncer-de-mama. Se você tiver visto algum produto ou serviço sendo anunciado como parte do “outubro rosa”, responda o seguinte: ficou claro para que organizações o dinheiro seria doado? Ou quanto do dinheiro arrecado por esse produto ou serviço de fato será direcionado a organizações ligadas ao câncer de mama? Há um valor limite que a empresa irá desembolsar? Essas são algumas das perguntas propostas pela campanha “Think before you pink”, da organização Breast Cancer Action. O que essa campanha aponta é que o “outubro rosa” é um ótimo jeito de empresas ganharem dinheiro e bancarem os bonzinhos, sem que isso necessariamente reverta em qualquer benefício para as pacientes. Pior: algumas das empresas que se aproveitam dessa onda do “outubro rosa” (em certos casos inclusive com apoio oficial da Komen) fazem uso do rosa para fins incompatíveis com a ideia da defesa da vida e saúde das pessoas. Há empresas vendendo armas rosa-câncer-de-mama, por exemplo. Talvez piores sejam as empresas cujos produtos causam câncer, como no caso desta fabricante de brocas para fracking, atividade de extração de gás natural que libera substâncias cancerígenas na água, solo e ar.

É assim que se dá o processo de pinkwashing, que usa o sofrimento de milhares de mulheres e suas famílias como estratégia de marketing para gerar mais lucros, inclusive vendendo produtos que causam morte e sofrimento. Samantha King argumenta em seu livro Pink Ribbons, Inc.: Breast Cancer and the Politics of Philanthropy que o câncer de mama passou de uma doença séria e uma experiência trágica individual para uma indústria de sobrevivência e marketing. Neste mês cabe lembrar que cada fitinha rosa, cada prédio e monumento iluminado, cada campanha equivocada no Facebook serve mais para alimentar essa indústria do que para contribuir minimamente com o combate ao câncer de mama. O que me leva ao próximo ponto.

3) A “conscientização” não merece esse nome
Talvez você pense que, a despeito disso tudo, o “outubro rosa” pode ter um efeito positivo. Afinal, é sempre válido aumentar a conscientização das pessoas sobre a doença. Entretanto, muito do que se propaga como “conscientização” durante este mês são informações desatualizadas e equivocadas sobre como detectar cedo o câncer.

Se você já leu alguma coisa sobre o câncer de mama, provavelmente se deparou com duas formas de detecção: o auto-exame e a mamografia. O auto-exame, ao contrário do que você talvez pensa, não é recomendado, pois há pouca evidência de que traz benefícios e ampla evidência de que acarreta danos. Vou repetir porque esta informação é importante: o auto-exame NÃO contribui para a detecção precoce do câncer de mama, mas gera danos a mulheres que, devido a resultados falso-positivos, se submetem a consultas e exames invasivos e desnecessários.

Já mamografias são sim um instrumento indispensável na detecção do câncer de mama. Contudo, a Força Tarefa de Serviços de Prevenção dos Estados Unidos (U.S. Preventive Services Task Force), grupo governamental norte-americano, recomenda que esse exame seja realizado apenas a cada dois anos e em mulheres acima de 50 anos de idade. As recomendações do grupo concluem que não há evidências de benefícios de mamografias anuais, ou de mamografias realizadas em mulheres abaixo dessa idade, mas há evidências de danos: em primeiro lugar, os danos psicológicos de um falso-positivo; em segundo, os danos de se tratar cânceres que não teriam se tornado aparentes durante a vida das pacientes (sobre-diagnóstico) ou que teriam se tornado aparentes, mas não reduzido suas vidas; em terceiro, o risco de exposição à radiação que, ainda que muito pequeno, deve ser levado em consideração devido à escala da intervenção. Assim, a realização de mamogramas em mulheres com menos de 50 anos só se justifica pelo contexto indvidual da mulher, especialmente as suas chances de desenvolver a doença.

Minha experiência me diz que neste exato momento há alguém pensando “mas o auto-exame/a mamografia anual/antes do 50 foi o que salvou a minha vida/a vida da minha mãe/irmã/amiga/namorada/colega de trabalho, etc”. Fico feliz que você ou alguém que você ama teve um tratamento bem-sucedido, quaisquer que tenham sido os fatores que contribuíram para isso – e digo isso sem qualquer ironia. A questão é que, para a maioria esmagadora das pessoas, o auto-exame e a mamografia excessiva não só não contribuem como tornam suas vidas piores – e é com base nisso que devemos instruir as pessoas.

Agora, é essa a mensagem do outubro rosa? Uma pesquisa rápida no Google revela que não. No pouco tempo que tive paciência para procurar, encontrei todos estes exemplos de sites recomendando o auto-exame e/ou mamografias anuais a partir dos 40. De onde se conclui que o “outubro rosa”, como as formas de “detecção precoce” que prega, causa mais danos do que benefícios às pessoas que supostamente deveria ajudar.

Mas pelo menos uma parte particularmente repugnante do “outubro rosa” parece (ainda) não ter chegado aqui:

4) A sexualização do câncer de mama
Realmente, ainda não vi exemplos disso no Brasil. Deixo este ponto aqui porque infelizmente faz parte do pacote “outubro rosa” em outros países e porque espero que, caso queiram importar essa moda, estejamos já preparados para rechaçá-la. A sexualização do câncer de mama diz respeito a campanhas “engraçadinhas” que focam no apelo sexual dos seios das mulheres como forma de encorajar a conscientização e o diagnóstico precoce. Em países de língua inglesa, há diferentes campanhas do tipo “salvem os peitos”, que deixam bem claro que o valor que se atribui às mulheres se reduz à sua aparência e disponibilidade sexual para homens hetero. O último exemplo ainda nos presenteia com a camisa “Save a life, grope your wife!” (Salve uma vida, apalpe sua esposa!) que une a normalização da violência sexual à objetificação das mulheres. Antes que pensem que esse é um problema de gringos, este vídeo produzido por nossos vizinhos chilenos é exemplo perfeito desse fenômeno.

Há quem pense que essa crítica é coisa de feminista sem senso de humor, que não sabe perceber que é uma brincadeira que, afinal, contribui para a conscientização sobre o câncer de mama. Em relação à conscientização, ver o ponto anterior. Em relação à “brincadeira”, não vejo graça nem utilidade de se pretender salvar a vida das mulheres reduzindo-as a coisas a serem vistas e apalpadas e desqualificando-as como pessoas. Se a escolha for entre salvar os seios e salvar uma pessoa (e é), a resposta tem que ser óbvia. A alternativa não merece ser considerada nem de brincadeira.

5) O câncer de mama domina as discussões sobre saúde da mulher
Aqui é o ponto em que invariavelmente vão me achar insensível, então refiro-os ao aviso no início do texto. Nada do que vou dizer aqui significa que não considero o câncer de mama um tema que mereça ser discutido, nem que sou contra ações de conscientização (de verdade) ou de obtenção de recursos para pesquisa e apoio a pacientes e famílias. Só acho que o câncer de mama não é o único tema, nem mesmo o mais importante, quando se trata de saúde da mulher.

A verdade é que 20% de mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica. Uma em cinco fará um aborto até o fim de sua vida reprodutiva, em sua maioria sob condições inseguras. Em 2012, cerca de 480 mil estupros foram registrados no Brasil o que, se mantida a proporção de vítimas mulheres dos casos registrados no SINAN, significa cerca de 380 mil mulheres estupradas só nesse ano. E o câncer de mama? Segundo o INCA, a estimativa é de cerca de 57 mil novos casos por ano – e nem todos são mulheres, ainda que a maioria seja.

Então por que temos um mês inteiro dedicado ao câncer de mama, com adesão do governo, da iniciative privada e de organizações não-governamentais, mas não temos nada desse porte para a violência doméstica, o aborto ou o estupro? Minha teoria é que é mais fácil tornar o câncer de mama palatável e, mais importante, comerciável do que essas outras coisas. O câncer de mama, ao contrário desses outros temas, não evoca qualquer discussão sobre a opressão de gênero ou as desigualdades de raça, classe, região, etc., do país. A percepção é de que o câncer de mama está fora do controle humano e quem ele vitimiza ou deixa de vitimizar independe de estruturas sociais ou agência de qualquer grupo ou indivíduo (o que não é uma visão inteiramente correta; afinal, o acesso a diagnóstico e tratamento de qualidade é determinado pela posição socio-econômica, raça e região, como pode-se argumentar que é a exposição a certas substâncias cancerígenas). As vítimas de violências doméstica e sexual e de abortos inseguros são responsabilizadas pelo que lhes ocorre: devia ter largado o marido, não devia ter se comportado dessa forma, não devia ter abortado. Jás as vítimas do câncer de mama são só isso, vítimas sem culpa e merecedoras de compaixão. Enfrentar a violência doméstica e sexual e o aborto inseguro requer que se altere fundamentalmente a sociedade e que se confronte os setores mais reacionários e anti-mulher do país. Apoiar as vítimas do câncer de mama requer apenas (de acordo com as campanhas do “outubro rosa”) que se use uma fitinha e que se gaste dinheiro comprando coisas. Para mim, está claro o que merece mais atenção.

Resumindo para quem não teve paciência de ler tudo: o “outubro rosa” é uma forma de se comercializar as experiências de pacientes de câncer de mama e suas famílias, gerando lucro e imprensa positiva para algumas empresas enquanto se dissemina informações incorretas e danosas sobre a doença. O sucesso em comercializar (e em alguns casos sexualizar) o câncer de mama foi tão grande que hoje em dia ele domina as discussões sobre saúde da mulher, a despeito de não ser nem de longe a questão mais importante desse campo – tudo isso embalado com um laço rosa para fazer as pessoas se sentirem bem com elas próprias.

Prefiro fechar este texto com um tom mais positivo porque sei, apesar das críticas todas, que a maioria das pessoas que aderem ao “outubro rosa” fazem isso por solidariedade com as pacientes e famílias. Se você quer, de fato, contribuir para a causa, tenho algumas sugestões: vote em candidatos e partidos que defendem a garantia de atendimento de qualidade no SUS; pesquise organizações de apoio a pacientes de câncer de mama e doe seu dinheiro diretamente às que fazem um bom trabalho; vire doador ou doadora de sangue; ou, se nada disso for possível, repasse as informações corretas e encoraje as pessoas a se informarem. Só deixe o lacinho rosa em casa; merecemos coisa melhor do que isso.

Tagged , , , , , ,

Sex from scratch

Nota: este post é uma resenha de um livro recém-lançado nos Estados Unidos e, por isso, apenas disponível em inglês. Fica como dica para quem lê inglês ou para quando for publicado por aqui, se isso chegar a acontecer.

Há pouco mais de três semanas, terminei um relacionamento longo e importante. Sendo o tipo de pessoa que sou, minha reação foi a de hiperanalisar tudo, de buscar entender o que houve e o por que e o que fazer agora – e de buscar ajuda com essas perguntas. Em meio a isso, descobri o livro Sex from scratch: making your own relationship rules e me vi, para meu total horror, interessada em um livro de auto-ajuda.

Eu poderia dizer que na verdade o livro é uma análise sobre como certos padrões de relacionamento são impostos a pessoas, ou que o que interessa são as entrevistas com pessoas com os tipos mais diferentes de experiências, mas isso seria desonesto. É um livro de auto-ajuda, ponto. Surpreendentemente, acho que é isso que o faz funcionar.

Explico: o propósito do livro é fazer com que os leitores reflitam sobre o que pensam e o que querem de relações românticas e, com isso, tenham relacionamentos melhores e vidas mais felizes. Se você for como eu, isso provavelmente não parece muito promissor, mas as ideias que temos sobre essas questões são tão arraigadas que me parece frutífero colocá-las nesses termos: o que você quer? Por que você quer isso? Há muito que as feministas dizem que o pessoal é político. Existe toda uma série de expectativas de como as pessoas devem ordenar suas vidas pessoais que é restritiva e opressora e talvez uma forma de se mudar isso seja levá-las a pensar por que querem o que querem e a encarar que existem outras possibilidades no mundo.

A verdade é que existe uma narrativa sobre o que as pessoas fazem e o que as pessoas fazem é casar e ter filhos e ficar com só aquela pessoa para o resto da vida. Isso é considerado uma vida bem-sucedida e qualquer desvio desse padrão é recebido com resistência e hostilidade (quando não violência). Para mulheres, em particular, a ideia de não estar em um relacionamento direcionado ao altar e filhos é em grande medida inaceitável – o que, como Amanda Marcotte ressalta, é uma ótima forma de assegurar que mulheres invistam uma boa parte de seu tempo e energia em “conseguir um homem” e que permaneçam em relacionamentos mesmo quando não valem a pena, só para estar com alguém.

Sex from scratch funciona ao focar no que é tabu e buscar desconstruir essas expectativas machistas, heterossexistas e furadas. O livro ataca, em sequência, a ideia de que estar em um relacionamento necessariamente é indicativo de “sucesso” na vida, ou melhor do que estar solteiro; de que todo relacionamento romântico deve ser mongâmico; de que todas as pessoas se conformam a uma visão binária de gênero, ou que o gênero é algo estável e idêntico para todas as pessoas; que ter filhos é necessário; que casar é necessário; e que o tempo de duração de um relacionamento é a maior marca do seu sucesso. No meio do caminho, ainda dedica um capítulo à necessidade de se construir relacionamentos feministas – especialmente, mas não apenas, no caso de pessoas em relacionamentos heterossexuais.

Para um livro sobre relacionamentos, Sex from scratch é muito pouco romântico. Ele está pouco interessado em dar dicas sobre como conquistar alguém e muito mais com questionar padrões e levar os leitores a confrontarem o que querem. Se me perguntar o que eu aprendi com ele, a verdade é que não muito. Para alguém que já pensa e discute essas coisas, o livro não tem muito a adicionar. Para quem ainda não tem familiaridade com essas ideiais, pode servir como uma boa introdução.

Sarah Mirk. Sex from scratch: making your own relationship rules. Microcosm Publishing: 2014. 192p.

Tagged , , , , ,