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Introdução ao gênero: sexo

Primeira parte da introdução ao gênero que começou na apresentação

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Esta parte é fácil, certo? Seres humanos têm diferenças físicas óbvias relacionadas à reprodução que dividem-nos em dois grupos. Podemos encerrar a discussão por aqui e partir para outras coisas.

Exceto que a realidade é mais complicada do que isso.

Vamos primeiro pensar no que o sexo é. O sexo, tal como o entendemos, é a combinação de diferentes características: cromossomas, hormônios, órgãos reprodutores e características secundárias de sexo (como ter ou não seios ou a quantidade de pêlos no corpo, para citar apenas dois exemplos). Ao contrário do que aprendemos na escola, nenhuma dessas categorias é binária; ou seja, há mais de duas opções em cada uma delas. Além disso, há mais de uma forma de essas diferentes características se combinarem. Para dar apenas um exemplo, existem pessoas que têm cromossomas XY mas que são insensíveis à testosterona e, por isso, desenvolvem fenótipos do sexo feminino. Elas são, assim, intersex, um termo que descreve todas as pessoas que não se enquadram na definição de sexo masculino ou feminino. Existem muitas formas de se ser intersex e pessoas intersex são de todos os gêneros possíveis (mas falaremos mais sobre identidade de gênero mais tarde). O que acontece com a espécie humana é que o sexo biológico existe num contínuo. A maioria das pessoas está em uma das duas pontas (sexo feminino ou masculino), mas existem inúmeras possibilidades no meio. Mais importante: essas possibilidades não são erros ou problemas de desenvolvimentos. Elas são parte da diversidade natural humana*.

Reconhecer essa diversidade é importante por vários motivos. Isso nos permite refutar a ideia de que humanos naturalmente se dividem em dois grupos e que, portanto, rejeitar esse binarismo é antinatural. Também é importante porque pessoas intersex são alvo de discriminação, além de frequentemente serem submetidas a intervenções médicas desnecessárias que visam a adequar seus corpos ao que se considera “normal”. Educar pais, médicos e a sociedade em geral sobre o que significa ser intersex é passo fundamental na garantia dos direitos dessas pessoas.

Mesmo com toda essa diversidade, seria possível argumentar que aquelas pessoas que se encontram nas pontas do contínuo (e que, afinal, são a maioria dos humanos) são essencialmente diferentes devido à diferença de sexo. Hoje em dia, com o desenvolvimento da neurociência, esse argumento geralmente se baseia na ideia de que os cérebros de homens e mulheres são fundamentalmente diferentes. Já dá para saber que o que vem agora é um “não é bem assim”.

Em primeiro lugar, a forma como o conhecimento produzido pela neurociência é veiculado pela mídia deixa a desejar (para dizer o mínimo). Vaughan Bell aponta um problema sério na forma como entendemos os estudos sobre o cérebro:

Imagens extremamente coloridas de cérebros são favoritas da mídia porque são simultaneamente atraentes e aparentemente fáceis de se compreender, mas, na realidade, elas representam algumas das informações científicas mais complexas que temos. Elas não são mapas de atividade, mas mapas do resultado de comparações estatísticas complexas de fluxos sanguíneos que se relacionam de forma desigual ao funcionamento real do cérebro. Isso é um problema de que os cientistas estão perfeitamente cientes mas que com frequência é deixado de lado quando os resultados chegam à imprensa.

Brightly coloured brain scans are a media favourite as they are both attractive to the eye and apparently easy to understand but in reality they represent some of the most complex scientific information we have. They are not maps of activity but maps of the outcome of complex statistical comparisons of blood flow that unevenly relate to actual brain function. This is a problem that scientists are painfully aware of but it is often glossed over when the results get into the press.

Mesmo antes das distorções introduzidas pela mídia, os estudos que supostamente indicariam diferenças nos cérebros de pessoas do sexo masculino e feminino já sofrem de limitações sérias. Em primeiro lugar, e como o próprio Bell reconhece, querer usar um estudo desse tipo como prova biológica da existência de uma diferença é um argumento circular porque os estudos de neurociência “tipicamente comparam grupos baseados em diferenças identificáveis e depois buscam saber como isso se reflete no cérebro” (“typically compare groups based on identifiable differences and then look for how this is reflected in the brain.”). Ou seja, estudos desse tipo que comparam homens e mulheres partem do princípio de que há uma diferença entre os dois grupos e depois buscam demonstrá-la no cérebro. É claro que um estudo com esse desenho já está enviesado para encontrar diferenças e o argumento, como diz Bell, torna-se circular.

Em segundo lugar, mesmo quando alguma diferença é identificável, ela é tênue. Neste vídeo (com legendas em inglês), a professora Daphna Joel explica que algumas características do cérebro são diferentes entre pessoas do sexo feminino e masculino, mas que essas diferenças se invertem em resposta a diferentes estíumlos. Longe de um todo masculino ou feminino, ela conclui, o cérebro de cada pessoa é um mosaico único de características femininas e masculinas. Já Cordelia Fine, autora do livro “Delusions of gender”, mostra como as diferenças identificadas em estudos de neurociência entre homens e mulheres em relação a habilidades específicas (como localização no espaço ou empatia) são mínimas. Fine também ressalta que esses estudos raramente dão conta de discutir a plasticidade do cérebro. Dizer que o cérebro é plástico significa que seu desenvolvimento responde aos estímulos que ele recebe. Considerando-se a forma diferente como meninos e meninas são tratados em nossa sociedade, não é possível olhar para as (mínimas) diferenças que existem e concluir que elas são, necessariamente, reflexo de diferenças biológicas, sem descrever seu desenvolvimento.

O resumo disso tudo, para quem tem preguiça de ler: o sexo biológico é uma articulação – que pode se dar de diferentes formas – de várias características, nenhuma das quais é binária. Os seres humanos existem num contínuo em termos do sexo biológico, com a maioria das pessoas ocupando as pontas (sexo feminino ou masculino) e uma diversidade imensa no meio. Essa diversidade é parte natural da nossa espécie. Mesmo em relação os grupos que estão nas pontas, não é possível afirmar que existam diferenças necessárias e biológicas com base numa ideia de que o cérebro masculino é diferente do feminino.

Continua na parte 2 e na parte 3!

*A quem se interessar mais, recomendo também este post, que descreve um estudo sobre o switch que controla a expressão do cromossoma Y e que conclui que fetos masculinos “se denvolvem perto da fronteira da ambiguidade sexual” (“human males actually develop near the edge of sexual ambiguity”)

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Introdução ao gênero: apresentação

Lendo este blog, fica claro que gênero é um tema que me interessa. Já escrevi sobre várias questões ligadas a gênero ao longo dos últimos anos, mas nunca cumpri a promessa de escrever um texto introdutório sobre o tema, em parte por falta de tempo, em grande medida por saber que não conseguiria dar conta de algo tão amplo e complexo. Resolvi pôr um fim à procrastinação e dizer logo o que posso. Em tempos de avanços de grupos conservadores, me parece importante ter algo, ainda que imperfeito, para combater visões machistas e preconceituosas.

Deixo claro o que esta introdução não é: não é uma discussão acadêmica do conceito de gênero, nem pretende ser uma apresentação exaustiva do tema. Não teria capacidade de fazer a primeira bem e a segunda é impossível. O que esta introdução pretende ser é apenas um primeiro contato com as discussões de gênero para quem ainda não parou para pensar muito sobre o assunto ou ainda está operando com uma visão tradicional da questão.

É justamente essa visão que será nosso ponto de partida. O senso comum sobre os seres humanos é que se dividem em dois grupos biologicamente distintos de acordo com o sexo. Ser do sexo masculino tornaria alguém, naturalmente, homem; ser do sexo feminino tornaria alguém, naturalmente, mulher. Mulheres e homens seriam diferentes por natureza e teriam comportamentos e sentimentos distintos. Por fim, a natureza humana também levaria à atração heterossexual. O sexo produziria gênero, que produziria a (hetero)sexualidade. Essa visão é defendida e sustentada tanto com apelos à natureza quanto com apelos à religião. Muitas pessoas pensam não só que essa é a realidade dos seres humanos, mas também que o é porque deus nos fez assim. Vejamos por que essa visão está completamente errada*.

Parte 1: sexo

Parte 2: gênero

Parte 3: orientação sexual

*Acho que a esta altura já está claro que sou ateia e que discordo de qualquer explicação que envolva (qualquer) deus. Contudo, não tenho o menor interesse em entrar numa discussão de religião aqui. Quando digo que o senso comum está errado é porque o gênero não funciona assim na prática. Independentemente de que papel você atribua a (algum) deus na vida humana, ele não pode ter criado algo que não existe.

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Dia Carl Sagan

Hoje seria aniversário de Carl Sagan. Já postei coisas de sua autoria antes. Hoje, em comemoração, compartilho algumas de minhas citações favoritas:If you wish to make an apple pie from scratch, you must first invent the universe.

 

It is far better to grasp the universe as it really is than to persist in delusion, however satisfying or reassuring.

 

Our species needs, and deserves, a citizenry with minds wide awake and a basic understanding of how the world works.

 

Science is a way of thinking much more than it is a body of knowledge.

 

For small creatures such as we the vastness is bearable only through love.

The nitrogen in our DNA, the calcium in our teeth, the iron in our blood, the carbon in our apple pies were made in the interiors of collapsing stars. We are made of star stuff.

 

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Se você quiser fazer uma torta de maçã do nada, primeiro precisa inventar o universo.

 

É melhor entender o universo tal como ele realmente é do que persistir na ilusão, por mais satisfatória ou tranquilizadora que seja.

 

Nossa espécia precisa, e merece, cidadãos com as mentes despertas e uma compreensão básica de como o mundo funciona.

 

A ciência é muito mais uma forma de pensar do que um corpo de conhecimento.

 

Para criaturas pequenas como nós a vastidão é tolerável apenas por meio do amor.

 

O nitrogênio em nosso DNA, o cálcio em nossos dentes, o ferro em nosso sangue, o carbono em nossas tortas de maçã foram produzidos no interior de estrelas em colapso. Nós somos feitos de estrelas.

 

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Mulheres e ciência

Por que as mulheres ainda estão subrepresentadas em algumas áreas científicas? Por incrível que pareça, ainda há quem defenda que isso simplesmente reflete uma menor capacidade das mulheres para as ciências exatas (o mais notório nos últimos anos talvez tenha sido o presidente de Harvard, Larry Summers). Eu poderia passar algumas horas discutindo como essa ideia de diferenças inatas entre homens e mulheres é absurda, ou discutindo os n mecanismos que tornam algumas carreiras quase totalmente dominadas por homens, mas vou deixar essas discussões para outro momento e simplesmente apresentar dois exemplos do passado recente*:

 

Rosalind Franklin era uma biofísica britânica. Trabalhando com a difração dos raios-X, ela fez contribuições cruciais para o descobrimento da forma do DNA. Na época, suas imagens foram mostradas a James Watson sem seu consentimento (sem mesmo seu conhecimento). Watson, ao lado do Francis Crick, formularia a hipótese sobre a estrutura do DNA com base nessas imagens e nas interpretações de Franklin. Contudo, os dois minimizaram as contribuições de Franklin à descoberta, se recusando inclusive a citar seu trabalho no artigo que publicaram sobre o DNA. James Watson, em seu livro, chegou a fazer a declaração absurda de que Franklin não sabia interpretar seus próprios dados (além de se referir o tempo inteiro a ela como “Rosy”, apelido pelo qual ela nunca foi chamada em vida).

 

Na graduação, Jocelyn Bell-Burnell era a única mulher entre os alunos de física. Quando ela entrava em sala para ter aula, os homens assobiavam e batiam os pés no chão. Ainda durante seu doutorado, Bell-Burnell descobriu pulsares, núcleos densos de estrelas que entraram em colapso. A descoberta recebeu o prêmio Nobel, que foi concedido não a Bell-Burnell, mas a seu supervisor, em conjunto com o chefe de departamento no qual trabalhava.

 

Quando a descoberta dos pulsares foi divulgada pela imprensa, os jornais se referiram a Bell-Burnell como uma garota (girl). Segundo ela, ainda pior foi o fato de pedirem “what were my vital statistics and how tall I was and, you know, – chest, waist and hip measurements, please, and all that kind of thing. They did not know what to do with a young female scientist, if you were a young female, you were page three**, you weren’t a scientist.” (“quais eram minhas estatísticas vitais e qual era minha altura e, você sabe, – medidas dos seios, cintura e quadril, por favor, e esse tipo de coisa. Eles não sabiam o que fazer com uma jovem cientista, se você era uma mulher jovem, você era página três**, você não era uma cientista.”) E, sendo apenas uma aluna de doutorado que dependia de seus supervisores para seguir na carreira acadêmica, Bell-Burnell não podia ofender os jornais porque o laboratório precisava da publicidade – supervisores esses (homens, todos) que não viam nenhum problema em deixar uma de suas alunas ser tratada desse jeito.

 

* Sim, a situação hoje em dia é melhor. Ainda assim, estamos longe do ideal.
** A página três é uma seção de tabloides em que aparecem fotos topless de mulheres. As modelos que aparecem regularmente nessa seção são conhecidas como “Page Three girls” (garotas da página três).

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