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Introdução ao gênero: gênero

É tão bom quando você começa uma série de posts e só depois percebe que o título de um deles vai ficar redundante…

Enfim, esta é a segunda parte da introdução sobre o gênero. Ela começa na apresentação; a parte 1 é sobre sexo.

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Você poderia passar o resto da vida estudando gênero. Existem cursos inteiros, livros, artigos, documentários, todo um mundo de coisas que eu obviamente não terei condição de abordar aqui. Neste texto, vou me concentrar em três ideias centrais: identidade de gênero, expressão de gênero e gênero como forma de distribuir poder na sociedade.

A identidade de gênero é o que está contido, por exemplo, na frase “sou mulher”. É como as pessoas se identificam. Colocar nesses termos já cria uma mudança em relação ao que estamos acostumados a pensar. Geralmente pensamos o gênero como algo que se é, como na frase acima. Há críticas a essa ideia que veremos mais à frente, mas o ponto a que quero chegar agora é o seguinte: se entendemos que não há nenhuma relação necessária entre sexo e gênero, se não há nenhuma base biológica para que se determine o gênero de uma pessoa, então a única maneira de se saber o gênero de alguém é sabendo como ela se identifica. Para entender melhor isso, vamos ver alguns conceitos ligados à identidade de gênero.

Quando nascemos, somos designados um gênero com base nos órgãos genitais. A maioria das pessoas, sendo do sexo masculino ou feminino, é designada como homem ou mulher, respectivamente. Aquelas pessoas que não se enquadram em uma das pontas do contínuo do sexo biológico também costumam ser designadas como um ou outro gênero, mas, nesses casos, as famílias costumam entender isso como uma escolha mais explícita do que quando se trata de crianças que estão nas pontas. Para a maioria das pessoas, a ideia de que o gênero (binário) segue do sexo (binário) é tão óbvia que pensam que uma criança necessariamente é menina por ter vagina ou necessariamente é menino por ter pênis. Em qualquer caso, ao escolher um nome, ao tratar a criança por pronomes femininos ou masculinos, ao escolher roupas, brinquedos, as cores do quarto, a família está fazendo uma escolha. É, na melhor das hipóteses, um chute: você diz a identidade de gênero que acha que será a da criança. Na pior das hipóteses, torna-se uma imposição violenta à criança de algo que ela não é.

Isso porque, enquanto a maioria das pessoas se identifica com o gênero que lhes foi designado ao nascer, algumas pessoas, não. Chamamos de cisgênero, ou apenas cis, as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi designado e transgênero, ou trans, as que não se identificam. Algumas pessoas trans se identificam como homens ou mulheres, mas outras se identificam como não-binárias. Isso significa que elas não se enquadram numa visão em que há apenas dois gêneros, homem e mulher. Algumas não se identificam com nenhum dos dois, outras se identificam com ambos, outras se identificam com um dos dois, mas não completamente, algumas têm uma identidade mais fluida, que passa de um a outro em momentos diferentes de vida… – e isso sem entrar na grande variedade de possibilidade de gêneros que existem em outras culturas. (Este vídeo traz uma discussão longa sobre diferentes identidades de gênero*)

Para pessoas cisgênero, que concordavam com o gênero que a família lhes impôs, que cresceram sem nunca ter sua identidade de gênero contestada, pode ser difícil entender que o gênero é algo com que ativamente nos identificamos, que fazemos ativamente, ao invés de uma essência, algo que somos desde que nascemos. Isso pode ser mais perceptível para pessoas trans, mas é verdade para todos. Isso também significa que nenhuma identidade de gênero é mais certa ou mais válida do que outras. Não é porque a maioria das pessoas é cis e binária, ou porque suas experiências não lhes permitem enxergar a falsidade da ideia de um gênero que segue, necessariamente, de um sexo biológico, que ser cis e/ou binário seja “natural” ou “certo”.

Por que algumas pessoas se identificam como homens, outras como mulheres, outras como não-binárias? Por que algumas pessoas são cis e outras trans? Há pessoas que tentam explicar isso com base na existência de cérebros masculinos ou femininos. Como já vimos, essa explicação não faz nenhum sentido.

Uma parte importante do motivo é o fato de que vivemos em uma sociedade organizada em torno do gênero. Somos expostos a ideia de que todas as pessoas têm gênero (mais especificamente, que são homens e mulheres) e que nós também temos desde que nascemos. Para falantes de línguas como o português, em que todos os substantivos têm gênero, em que artigos, adjetivos e pronomes todos concordam com gênero, essa compreensão do mundo (e de nós mesmos) é ainda mais reforçada.

Isso não responde totalmente a pergunta, obviamente. A verdade é que não há, até onde eu saiba, uma explicação definitiva. Isso, contudo, não nos impede de reconhecer que identidades de gênero múltiplas existem. Não precisamos de uma explicação científica para aceitarmos a autodefinição das pessoas, para acreditarmos quando falam de suas próprias experiências. Isso é especialmente importante em relação a pessoas trans e não-binárias, que são alvo de discriminação intensa em nossa sociedade, sendo constantemente silenciadas, representadas de forma preconceituosa e submetidas à aprovação da autoridade médica simplesmente para terem suas identidades reconhecidas.

Se a identidade de gênero é como a pessoa se identifica, a expressão de gênero está ligada à ideia de gênero como algo que fazemos. Aqui cabe entrar um pouquinho numa discussão mais acadêmica e falar do conceito de gênero como performance, da Judith Butler. Butler rejeita completamente a ideia de que gênero é algo que se é. Para ela, o gênero é um tipo de performance, algo que se faz. Segundo ela, é a “estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos dentro de um quadro regulatório rígido que se solidificam ao longo do tempo para produzir a aparência de substância, de um tipo natural de ser”. Vamos por partes porque o texto em si não é o mais claro possível. Quando ela fala de “atos repetidos” e da “estilização do corpo”, está se referindo a uma série de coisas, como a forma como as pessoas se portam, a forma como andam, como falam, como cortam o cabelo, as roupas que usam, etc. É uma estilização do corpo porque nada disso é natural, nada decorre naturalmente de um gênero, mas são coisas que introjetamos ao repeti-las ao longo dos anos, até que passam a parecer naturais. (Se ainda assim estiver complicado, este vídeo, que discute esse conceito a partir do jogo The Sims, talvez ajude.**)

A expressão de gênero, é, assim, o fazer o gênero, são as ações que tomamos que comunicam (e, para Butler, criam) nosso gênero. Há um segundo ponto da citação que é importante aqui: essas ações, segundo Butler, estão inscritas em um “quadro regulatório rígido”. Dizer que gênero é performance não é dizer que seja livre, muito pelo contrário. Existem expectativas sociais rígidas em relação ao gênero. Elas são regulatórias porque são essas expectativas que tornam o gênero inteligível. É ao nos conformarmos a essas expectativas que somos vistos como mulheres ou homens (a este ponto já deve estar claro que essas expectativas são estritamente binárias e que qualquer identidade que fuja ao binarismo também foge a essa inteligibilidade).

Que fique claro que ninguém corresponde plenamente a essas expectativas porque isso é impossível. Ainda assim, a maioria das pessoas se adequa em grande medida a essas expectativas. Por que? Pelo menos em parte, justamente porque crescemos com elas e introjetamo-nas. Nossa compreensão do que é ser mulher ou homem (e portanto do que somos ao sermos mulheres e homens) é informada por essas expectativas. Há também um preço a se pagar quando se desvia dessas expectativas, e essa é a outra maneira como elas agem de forma regulatória. Não se conformar às expectativas significa não ser inteligível, não ter sua identidade reconhecida, mas também pode significar sofrer discriminação e até violência. Isso é especialmente grave para pessoas trans. Em muitos países, uma pessoa trans tem que se submeter a cirurgias e/ou tratamentos hormonais para poder mudar seus documentos de forma que reflitam sua identidade de gênero. Conformar-se às expectativas e, mais ainda, parecer ser cis é com frequência a única forma de terem suas identidades respeitadas e, em muitos casos, é literalmente questão de vida ou morte. Essa cobrança, às vezes até por meio de violência, de que as pessoas correspondam às expectativas de gênero é o que chamamos de policiamento de gênero.

Essas expectativas não são iguais para todas as pessoas. O que espera-se de uma mulher é diferente de acordo com sua raça, classe, idade, e muitas outras dimensões. Ser mulher – ou fazer-se mulher – será diferente dependendo da posição que se ocupa nessas diferentes estruturas. Consequentemente, o policiamento de gênero também é diferente. Se uma mulher jovem usa roupas curtas ou justas, isso é considerado bonito, sexy. Se uma muher com mais de 60 anos faz o mesmo, ela é ridícula. Quando a Miley Cyrus se apropria do estilo de dança que os americanos chamam de twerking, é provocador, inusitado. Quando mulheres negras, especialmente de classe baixa, dançam da mesma forma, é vulgar.

A questão do policiamento de gênero nos leva ao último ponto deste texto, que é sobre como o gênero funciona como forma de distribuir poder na sociedade. Não quero entrar numa discussão do que poder é ou como exatamente defini-lo. Podemos concordar que existem diferentes tipos de poder na sociedade – o político, o econômico, o poder da mídia de determinar que histórias são contadas, o poder de tomar decisões numa família, e por aí vai. Nenhum desses tipos de poder é compartilhado igualmente por todos. Existem diferentes estruturas que determinam como esse poder é distribuído, como classe, raça e gênero. Negar o direito ao voto às mulheres é uma forma clara de concentrar o poder político, por exemplo, mas existem formas mais sutis de reduzir o poder das pessoas. O fato de mulheres serem desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho doméstico é um exemplo. Isso impede que mulheres compitam em pé de igualdade no mercado de trabalho e as mantém numa posição subordinada em suas famílias. Ou o fato de a sociedade não protegê-las da violência sexual e doméstica, deixando-as à mercê de agressores e empurrando-as para longe de espaços públicos, que, afinal, não são (tornados) seguros. O policiamento de gênero é também uma forma por meio da qual o gênero leva a uma distribuição desigual de poder. Qualquer pessoa que desvie das expectativas de gênero é uma ameaça a toda essa estrutura. Manter a estrutura de gênero (que é uma estrutura de poder) significa eliminar as possibilidades que desviam do roteiro.

Em nossa sociedade, a estrutura de gênero privilegia homens, pessoas cis, pessoas binárias e pessoas cuja expressão de gênero está de acordo com expectativas. Mas essa estrutura não existe sozinha. Ela interage com outras estruturas de poder, gerando diferentes tipos de (falta de) privilégio. Um exemplo perfeito disso é o famoso discurso “Ain’t I a woman?” (“Não sou uma mulher?”) de Soujorner Truth, uma norte-americana negra, ex-escrava, abolicionista e feminista. Nele, Truth aponta o que se diz de mulheres, que são delicadas e precisam de ajuda, e mostra como isso não se aplica a ela. Como escrava, Truth foi forçada a exercer um trabalho árduo durante longas horas. Da mesma forma, enquanto a maternidade de mulheres brancas e ricas era louvada, a dela era desconsiderada: seus filhos foram tirados dela, mera propriedade de alguém. Para uma mulher branca, a valorização da maternidade e a ideia de que mulheres são intelectual e fisicamente inferiores aos homens são formas de restringi-las à esfera doméstica e retirar-lhes poder e agência. Para mulheres negras, contudo, as representações de gênero não são iguais. Raça e gênero se combinam para gerar uma situação de exploração de seu trabalho e de seus corpos. Tudo o que Truth diz se aplica ao Brasil e suas consequências são sentidas até hoje, como vimos no debate sobre a PEC das domésticas. O conceito de interseccionalidade, o último de hoje, diz respeito justamente à forma como essas diferentes estruturas interagem umas com as outras para produzir as experiências das pessoas.

Para encerrar o texto, que já está longuíssimo, queria falar algumas coisas sobre feminismo. Existem muitos estereótipos sobre o que o feminismo é ou como as feministas são que têm o propósito de deslegitimar o que dizemos. O feminismo apenas reconhece que vivemos numa sociedade desigual em termos de gênero e que essa desigualdade é injusta. Isso não significa que o movimento feminista seja perfeito. Historicamente, o movimento feminista valorizou as demandas das mulheres mais privilegiadas, as brancas, cisgênero, de classe média, ignorando as vozes das demais. Esse problema está longe de ser resolvido. A transfobia de certas pessoas dentro do movimento é triste evidência disso. Mesmo assim, contribuiu para tornar a sociedade mais justa e acredito que pode contribuir ainda mais. Espero que esta breve introdução à discussão de gênero ajude a convencê-los do mesmo.

Continua na parte 3!

* Infelizmente, sem legendas
** Com legendas, mas só em inglês

 

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Como discutir a identidade de gênero da pior forma possível

Quantos absurdos pode conter uma matéria? Esta do G1 parece estar tentando quebrar recordes. A matéria aborda questões ligadas a pessoas trans a partir da história de Coy, menina trans que foi impedida de usar o banheiro feminino em sua escola[1]. Estou há algum tempo para escrever um guia básico sobre gênero, sexo e orientação sexual, mas por hoje vou só abordar os muitos erros da matéria

1) Transexual pode se descobrir já na primeira infância, dizem especialistas

Começa na primeira palavra do título. Muito simplificadamente, transgênero são as pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer. Explicando em outros termos: ao nascer, somos classificados como meninas ou meninos e tratados socialmente de acordo com essa classificação. A maioria das pessoas cresce concordando com essa classificação; algumas pessoas, não. Essas pessoas são transgênero. Note que o termo se refere à identidade de gênero, ou seja, com que gênero a pessoa se identifica. Transexual é um termo geralmente reservado para as pessoas transgênero que optam por tomar hormônios e/ou passar por cirurgias de mudança de sexo[2]. O termo trans (ou trans*) é usado de forma global para se referir a qualquer pessoa que não se identifique com o gênero que lhe foi socialmente designado[3]. Dado que a discussão toda do artigo é sobre identidade de gênero, o uso do termo transexual é um equívoco.

2) Caso de garoto de 6 anos que se vê como menina ganhou destaque.

Uma mulher trans não é um homem que se vê como mulher, ou que se sente mulher (que também é dito no artigo). Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. São. Não pensam que são, não se veem como, nem se sentem mulher ou homem, como também não se transformam em, nem são mulheres presas em corpos de homens ou vice-versa. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. Ponto. Se você ainda não captou, leia isso de novo. É importante.

3) A identificação com o sexo oposto e o eventual desejo de uma pessoa em assumir uma nova identidade de gênero começa geralmente na primeira infância, entre os 4 e 6 anos de idade

Se a identidade é de gênero, então a identificação não é com o sexo, e a expressão “sexo oposto” merece ser morta e enterrada. É uma ideia falsa não só porque pressupõe um binarismo que não existe, nem em termos biológicos, nem em termos de gênero, mas também porque leva a crer que homens e mulheres são opostos, o que é ridículo.

4) Na última semana, o G1 publicou a história do menino americano Coy Mathis, de 6 anos, que se identifica como menina e é aceito pelos pais

Ver 2). Also: faça o favor de acertar a concordância. Coy é uma menina. Ela é aceita, não aceito.

5) Transexual é a pessoa que tem um transtorno mental e de comportamento sobre sua identidade de gênero, ou seja, nasce biologicamente com determinado sexo, mas se vê pertencente a outro e cogita fazer tratamentos hormonais e cirurgia para mudar o corpo físico.

::respirando fundo:: Pessoas trans não têm transtorno mental, nem de comportamento. Ser trans não é doença. Novamente, as pessoas trans não se veem pertencendo a nada, elas são mulheres e homens; e mais uma vez, elas não se identificam com outro sexo, mas com outro gênero. Esses termos não são intercambiáveis. E nem todas as pessoas trans querem fazer tratamentos hormonais, nem cirurgias. Algumas querem, mas não todas. Isso não pode ser visto como critério para definição do que é ser trans.

6) “É muito comum crianças inverterem os papéis, e quando é algo pontual não há maiores problemas. Mas, se isso se tornar um hábito frequente, diário, o menino querer mudar de nome, usar presilha e brinco, é indicado que os pais e o filho passem por uma avaliação profissional antes de qualquer coisa, para ver se essa é uma questão familiar que a criança está tentando resolver dessa forma ou se já é um transtorno de gênero”

Essa declaração é de um psiquiatra que trabalha com casos de pessoas trans. Medo. De novo, ver 2): se a criança afirma ser uma menina, ela é uma menina, não um menino que quer mudar de nome. Ser trans não é transtorno. A questão da avaliação profissional é mais complexa e merece seu próprio ponto; vou falar disso depois.

7) Segundo Cossi, o preconceito da escola não é apenas contra transexuais e homossexuais, mas contra deficientes, pessoas com síndromes e tudo o que foge ao que é caracterizado “normal”

“Deficientes”? Mesmo, G1? Pessoas com deficiência não são deficientes. O único deficiente nessa história é a pessoa que não se deu ao trabalho de gastar dois segundos procurando o termo certo no Google.

8) “Hoje em dia, sabe-se que existe um cérebro feminino e um masculino, determinado no útero da mãe por hormônios masculinos circulantes. E isso interfere no desenvolvimento cerebral para uma linhagem feminina ou masculina. A cultura e o ambiente também têm importância, mas a determinação é biológica”

Isso é a fala de outro psiquiatra. Alguém tem que fazer uma intervenção nas residências de psiquiatria para ontem. A questão de gênero é longa demais para ser satisfatoriamente discutida aqui. O que pode ser dito é que gênero não é determinado biologicamente e uma declaração estapafúrdia dessas demonstra total ignorância dos estudos de gênero dos últimos 40 anos, pelo menos. Essa ideia de um “cérebro masculino” e um “cérebro feminino” é um exemplo perfeito dessa nova onda de usar a neurociência como explicação para tudo (como se fazia, e ainda se faz, com genes). Isso também é uma discussão longa, mas há que se lembrar que o cérebro não está plenamente desenvolvido no momento do nascimento e que seu desenvolvimento posterior responde aos estímulos que recebe. Num ambiente tão profundamente marcado pelo gênero como o nosso, esses estímulos são diferentes para meninos e meninas desde o nascimento. Querer deixar isso de lado é no mínimo míope, quando não é desonesto.

9) “Uma coisa é o desejo, a orientação, a prática sexual. Outra é o gênero, como a pessoa se vê, seus gostos e comportamentos – algo cultural, social, que varia com o tempo. Essa é a ideia do que um homem ou uma mulher faz, como pensa, como se veste, quais traços o definem. Já a identidade sexual envolve uma noção de inconsciente, inclui o fator psíquico, de como o sexo se constrói na mente e reconhece o que é homem e o que é mulher”, esclarece.

Esse aí é psicólogo. Eu confesso que nem entendi o que ele quis dizer com “identidade sexual”, para dizer a verdade, mas, mais uma vez, “homem” e “mulher” são categorias de gênero. “Como o sexo se constrói na mente” nada tem a ver com o reconhecimento do que é “homem” e o que é “mulher” porque essas não são categorias de sexo.

10)Brunna mora há dois anos na capital paulista, onde trabalha como orientadora sócio-educativa no Centro de Referência da Diversidade da ONG Grupo pela Vida

É uma reclamação menor, mas o nome certo é Pela Vidda. Mais um erro facilmente corrigível com uma simples busca no Google.

11) No ambulatório de São Paulo, criado em 2009 e considerado o primeiro do tipo no país a atender exclusivamente travestis e transexuais, há atualmente 1.500 pessoas cadastradas. Desse total, 65% (975) se consideram transexuais – 915 são homens biologicamente que se sentem como mulheres e 60 são o contrário.

Ver 2).

12) Antes de toda cirurgia para mudança de sexo, o Sistema Único de Saúde (SUS) exige que a pessoa, com mais de 21 anos, faça pelo menos dois anos de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, no qual seja diagnosticada com distúrbio de identidade de gênero.
e 13) “Esses dois anos de acompanhamento que oferecemos com psicoterapeuta, psiquiatra e endocrinologista servem para a pessoa ter certeza sobre a cirurgia. Aí fazemos o encaminhamento ao HC. Nesse período, alguns desistem. Outros vão para a Tailândia, mudam de sexo e se arrependem, porque lá não existe todo esse protocolo daqui”

Aí está uma discussão complexa. Antes de entrar nisso, é preciso falar do Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM) que é produzido pela Associação Americana de Psiquiatria. O DSM estipula os critérios de classificação de doenças mentais. Apesar de ser produzido exclusivamente por psiquiatras americanos, ele é adotado internacionalmente, inclusive pela Organização Mundial de Saúde. Para todos os efeitos, é o DSM que determina o que é doença mental e o que não é. Quando se fala que a homossexualidade deixou de ser vista como doença, por exemplo, estão falando de sua remoção do DSM. Uma nova edição do DSM será lançada em breve e possivelmente não mais incluirá a disforia de gênero[4], a exemplo do que foi feito com a homossexualidade.

As opiniões a respeito dessa decisão estão divididas. Por um lado, ativistas reconhecem que despatologizar a identidade trans é positivo. Por outro, há a questão do acesso ao tratamento para aquelas pessoas trans que desejam tomar hormônios e/ou fazer cirurgia de mudança de sexo. Tanto os hormônios quanto a cirurgia são extremamente caros. Se ser trans não for uma condição médica, planos de saúde e sistemas de saúde pública não serão obrigados a oferecê-los, deixando a maioria das pessoas trans sem acesso aos dois. Não vou fingir que tenho uma resposta para essa questão. Um ponto interessante é levantado pela blogueira Natalie Reed. Natalie, que é uma mulher trans, é uma das que afirmam que a categoria “disforia de gênero” deve permanecer no DSM. Segundo ela, não é a identidade trans que é o transtorno, mas sim a impossibilidade de pessoas viverem como seu gênero. Vou citar um pedaço do texto porque vale a pena:

[Gender dysphoria’s] inclusion in the manual for diagnosis does NOT categorize being transgender as in any way an illness. It categorizes the dysphoria that typically precedes and motivates transition as a disorder. Being trans is not the illness. I, as a transition(ed/ing) woman, am no longer suffering from gender dysphoria. Or, at the very least, am no longer suffering it nearly as acutely. The disorder has been treated, and is being held in check, through transition and exogenous endocrine treatment. Being a trans member of your identified sex is the ordered condition that responds to, and arguably “cures”, the disorder.

(“A inclusão [da disforia de gênero] no manual para diagnóstico NÃO categoriza ser transgênero de qualquer forma como uma doença. Ela categoriza a disforia que geralmente precede e motiva a transição[5] como um transtorno. Ser trans não é a doença. Eu, como uma mulher em transição/que já passei pela transição não sofro mais de disforia de gênero. Ou, no mínimo, não sofro disso de forma tão aguda. O transtorno foi tratado, e está sendo mantido sob controle, por meio de transição e de tratamento endócrino exógeno. Ser um membro trans do sexo com o qual você se identifica é a condição ordenada que responde a, e em tese “cura”, o transtorno”)

Que fique claro que isso é um posicionamento em meio a uma discussão ampla e complexa. O blog Por causa da mulher traz uma discussão mais longa e detalhada da questão.

Outra questão é a exigência do atendimento psicológico. Por um lado, ter esse atendimento é positivo. A transição costuma ser um processo difícil devido ao preconceito generalizado contra pessoas trans. Ter apoio psicológico nesse processo certamente é benéfico. Contudo, o objetivo do atendimento psicológico não é esse, mas sim “provar” que a pessoa é, de fato, trans e que portanto “pode” fazer a cirurgia. O fato de ser obrigatório evidencia esse caráter de prova. Isso é problemático pois impõe barreiras ao acesso ao tratamento e confere ao profissional médico a autoridade para legitimar ou deslegitimar a identidade de gênero da pessoa.

A possibilidade de que a pessoa venha a se arrepender é geralmente usada para afirmar a necessidade desse atendimento compulsório. “Sem nós”, os profissionais da área médica parecem dizer, “as pessoas vão fazer esses procedimentos pelos motivos errados, no momento errado, com as expectativas erradas, e se arrependerão”. Não tenho dados para afirmar se as pessoas de fato se arrependem, nem seria tão equivocada quanto a pessoa citada a atribuir o arrependimento a qualquer motivo único, como a falta de atendimento compulsório. O que pode ser dito é que se a preocupação é de fato com o bem-estar de pessoas trans, então o objetivo não deve ser criar mais barreiras à expressão de sua identidade de gênero. Isso se aplica tanto à área médica, quanto à área jurídica, que estabelece os critérios para que uma pessoa tenha seu gênero legalmente reconhecido[6]. O objetivo tem de ser disponibilizar o atendimento psicológico, não estabelecê-lo como critério de sanção da identidade de gênero.

[1] Seus pais estão atualmente processando a escola por esse motivo.
[2] Seguindo o uso feito, entre outros, no blog Sincerely, Natalie.
[3] No Brasil, há também mulheres trans que se identificam como travestis. Em outros países, esse termo não é usado. Antes de usá-lo, é importante conferir como a pessoa se identifica. Na dúvida, é melhor optar por trans – e, claro, se o fato de a pessoa ser trans não for relevante para a discussão, não há motivo nenhum para incluí-lo.
[4] Categoria de diagnóstico usada para pessoas trans.
[5] “Transição” é o termo geralmente usado para as pessoas trans quando passam a viver como o gênero com que se identificam.
[6] Esta matéria do CLAM aborda algumas dessas questões legais.

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