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Abaixo as princesas 4

Os livros de hoje são para crianças mais velhas (e adultos também, por que não?) e fecham, pelo menos por enquanto, a lista.

A menina que navegou ao Reino Encantado no barco que ela mesma fez é uma história incrível que recomendo para qualquer pessoa que goste de contos de fadas e histórias fantásticas, independentemente da idade. Setembro é transportada para o Reino Encantado, onde descobre que as coisas não vão tão bem. A história que segue é muito mais sombria do que as versões disneyficadas dos contos de fadas com que as crianças estão acostumadas. O mundo que Valente cria é muito mais próximo dos contos originais, ou do Alice no país das maravilhas. Aliás, já vi várias pessoas traçando a comparação entre este último e A menina… , não só pela temática, mas pela qualidade. Em termos de representatividade, este livro é possivelmente o melhor de toda a lista. Setembro é uma menina criativa, engenhosa e corajosa, o que se percebe por todas as suas interações no Reino Encantado (e em particular pelo tal barco que ela mesma faz). Para além disso, a antagonista da história e uma grande quantidade de personagens secundárias são também mulheres e meninas. Por mais que os dois companheiros de Setembro sejam personagens masculinos, a impressão é de uma história sobre mulheres. Valente escreveu duas continuações para o livro, The girl who fell beneath Fairyland and led the revels there, que também é fantástico, e The girl who soared over Fairyland and cut the moon in two, que ainda não li. Nenhum dos dois foi traduzido ainda, infelizmente. Fico torcendo para que isso ocorra, mas, enquanto isso, a história de A menina que navegou ao Reino Encantado no barco que ela mesma fez já vale a leitura.

Coraline é mais um livro escrito pelo Neil Gaiman, desta vez para crianças mais velhas. Coraline é uma menina que acaba de se mudar para uma nova casa com seus pais hiper-ocupados. Um dia, descobre uma passagem para um mundo aparentemente encantado onde sua Outra Mãe a espera. Rapidamente, esse novo mundo passa de convidativo a assustador. Coraline compartilha muitas das características de Setembro: inteligente, corajosa, altruísta. O livro também é cheio de personagens femininas, começando pela mãe de Coraline, passando pelas srtas. Spink e Forcible e chegando na Outra Mãe. É o mais assustador dos dois livros de hoje, mas, segundo Neil Gaiman, “de forma geral, Coraline […] é muito mais perturbador para adultos do que é para crianças, que tendem a lê-lo como uma aventura” (“As a general rule, Coraline […] is much creepier for adults than it is for kids, who tend to read it as an adventure.”)*É possível que vocês já conheçam o filme. Apesar de ser fã do Henry Selick e da Laika (o estúdio de animação), tenho que dizer que o livro é melhor, não só em termos da história como um todo, mas especificamente em termos de representação. O personagem Wybie não existe no livro. No filme, ele fica encarregado de ajudar Coraline de uma forma que reduz sua agência e perspicácia e retira dela o mérito de ter salvado a si própria. Por outro lado, não há motivo para quem tenha gostado do filme não gostar do livro, então recomendo Coraline para qualquer fã do filme de Selick também.

*Em: http://journal.neilgaiman.com/2009/01/is-coraline-right-for-insert-age-here.html

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Abaixo as princesas

Eu confesso que adoro contos de fadas; tenho alguns livros de contos em casa que leio e releio sempre. Também adoro os filmes da Disney, com suas histórias de príncipes e princesas e finais felizes. Contudo, pensar que as princesas dessas histórias, tão tradicionalmente femininas, delicadas e, em geral*, não empoderadas são a referência para crianças me incomoda. Incomoda mais ainda ao ver a indústria das princesas Disney e seus mil produtos cor-de-rosa que tiram qualquer valor que essas personagens podiam ter e as reduzem a princesas em vestidos bonitos. Pensei, então, que poderia fazer uma lista de alguns livros infantis e infanto-juvenis com boas personagens femininas. Esta lista não é apenas para meninas; meninos que só entram em contato com histórias em que homens são heróis e mulheres são princesas a serem resgatadas têm mais chance de crescer achando que mulheres não importam tanto quanto homens, que são menos corajosas, capazes, inteligentes e por aí em diante. Esta é uma lista para crianças, ponto. Para começar, dois livros para crianças pequenas:

Cabelo Doido

Ela disse: “Não que seja do meu interesse, mas, senhor, que cabelo doido é esse?”

Cabelo doido é um poema escrito por Neil Gaiman e ilustrado por Dave McKean. O poema é um diálogo entre Bonnie, uma menina de três anos**, e o dono do tal cabelo doido e totalmente indomável, que abriga animais selvagens, navios de piratas, dançarinos, músicos e muitas coisas mais. As ilustrações são lindas é o poema é muito divertido. Apesar de ter poucas falas, Bonnie é uma personagem bem interessante. Ela é curiosa, corajosa e tem espírito aventureiro. Em pouquíssimas palavras, ela se mostra uma referência muito mais positiva do que certas séries inteiras *coff* Crepúsculo *coff*

OS LOBOS DENTRO DAS PAREDES

Se os lobos saírem de dentro das paredes, está tudo acabado

Outro livro de Neil Gaiman e Dave McKean, Os lobos dentro das paredes é a história de Lucy, que um dia escuta barulhos estranhos em sua casa e conclui que há lobos dentro das paredes. Incapaz de convencer sua família, ela ouve de todos – mãe, pai e até do irmão mais novo – que “se os lobos saírem de dentro das paredes, está tudo acabado”. Lucy não se rende tão fácil e é quem toma a atitude para resolver o problema. A história é curta, mas muito bem escrita e ilustrada. É engraçada, um pouco assustadora, e tem um final inesperado.

Além de Lucy, o livro tem outra personagem feminina: sua mãe, com quem ela tem uma boa relação. Isso pode não parecer muito, mas em muitas histórias há uma única personagem feminina em meio a um mar de personagens masculinos. Mães, em particular, com frequência são deixadas de fora da história (pense em quantos filmes da Disney os personagens principais não têm mãe) ou dão lugar a madrastas malvadas (basicamente todos os contos de fadas ever). Histórias com representações verdadeiramente positivas de mulheres não podem mostrá-las apenas em relação a homens, como parte da história maior e mais importante dos homens. Também não podem mostrar as relações entre mulheres como sempre negativas, marcadas pela competição e pela inveja. Histórias com representações positivas refletem o que é a realidade: as histórias inter-relacionadas de muitas mulheres e homens, às vezes cooperando, às vezes competindo, às vezes se ajudando e às vezes se prejudicando mutuamente, e por aí em diante. Só princesas e madrastas malvadas não capturam o que há, de fato, no mundo.

Menção honrosa:

11011206 Quem quer este rinoceronte?, de Shel Silverstein, apresenta as muitas vantagens (e algumas desvantagens) de se ter um rinoceronte de estimação. O único personagem de fato da história é o rinoceronte do título, mas meninas e meninos aparecem interagindo igualmente com ele, e mesmo brincando em conjunto, contrariando as expectativas de 90% da indústria de brinquedos.

* Mulan é a exceção óbvia, mas Tiana, do A Princesa e o Sapo, e Rapunzel, do Enrolados, não ficam muito atrás.
** Na versão original do poema, Gaiman escreve “I’m forty, Bonnie’s three”. Na tradução, contudo, o verso virou “Nós estávamos calados ali” e essa informação se perde para que se mantenha a rima.

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Liberdade de expressão e a lei anti-games

No momento, encontra-se na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado um projeto de lei que propõe a censura de jogos no país. Por partes: o PL 170/06, de Valdir Raupp, do PMDB, propõe alterar a lei 7716, que “Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor”. O artigo 20 dessa lei proíbe “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. O PL 170/06 propõe alterar esse artigo “para incluir, entre os crimes nele previstos, o ato de fabricar, importar, distribuir, manter em depósito ou comercializar jogos de videogames ofensivos aos costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos”.

O problema está na linguagem vaga do projeto. O que é um jogo “ofensivo” aos costumes, religiões e credos? Quem determina isso? Matendo-se a indefinição, a escolha de que jogos permitir e quais censurar fica ao arbítrio do governo, ou ao arbítrio de grupos de pressão. A verdade é que qualquer pessoa (ou, mais provável, qualquer grupo religioso) pode afirmar que qualquer conteúdo que contrarie os dogmas de sua religião é “ofensivo”. A lista de possíveis ofensas é longa. O PL 170 é simplesmente uma proposta de censura e, portanto, uma ameaça à liberdade de expressão.

É óbvio que nenhum direito é absoluto, mas o limite de um direito é dado pela ponderação com os demais. Chamados à violência, ou a incitação de qualquer crime, claramente não podem ser protegidos pela liberdade de expressão. Se expandirmos a definição de “expressão” para incluir imagens e filmes, é claro que pornografia infantil tampouco pode ser protegida. Esses casos são violações claras de direitos. Ser ofensivo, contudo, não é. Como disse Philip Pullmanem resposta a uma pergunta sobre o fato de o título de seu último livro (The good man Jesus and the scoundrel Christ) ser ofensivo, “No one has a right to live without being shocked. No one has the right to spend their life without being offended. Nobody has to read this book. Nobody has to pick it up. Nobody has to open it and if they open it and read it, they don’t have to like it. And if you read it and you dislike it, you don’t have to remain silent about it, you can write to me, you can complain about it, you can write to the publisher, you can write to the papers, you can write your own book. You can do all those things, but there your rights stop. No one has the right to stop me writing this book. No one has the right to stop it being published or sold or bought or read. And that’s all I have to say on that subject.” (“Ninguém tem o direito de viver sem se chocar. Ninguém tem o direito de passar sua vida inteira sem ser ofendido. Ninguém tem que ler este livro. Ninguém tem que pegar este livro. Ninguém tem que abri-lo e se abrirem e lerem, eles não têm que gostar dele. E se você lê-lo e não gostar dele, você não tem que permanecer em silêncio sobre isso, você pode me escrever, você pode reclamar sobre ele, você pode escrever à editora, você pode escrever aos jornais, você pode escrever seu próprio livro. Você pode fazer todas essas coisas, mas nesse ponto seus direitos acabam. Ninguém tem o direito de me impedir de escrever este livro. Ninguém tem o direito de impedi-lo de ser publicado ou vendido ou lido. E isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre esse assunto.”)

Confesso que admito poucas exceções para a liberdade de expressão. Tirando os casos que descrevi acima, acredito que as pessoas devam ter o direito de dizer o que for. Mesmo que seja algo detestável. Mesmo que seja odioso Mesmo que sejam mentiras, e mesmo que sejam mentiras perigosas. A liberdade de expressão só é possível assim. Qualquer restrição de conteúdo, por ser “ofensivo”, “contra os costumes”, “detestável”, abre toda e qualquer expressão à ameaça de sanção pelo simples fato de alguém, em algum lugar, não concordar com ela. Neil Gaiman resume, de forma clara e simples: “If you accept — and I do — that freedom of speech is important, then you are going to have to defend the indefensible. That means you are going to be defending the right of people to read, or to write, or to say, what you don’t say or like or want said. (…) The Law is a blunt instrument. It’s not a scalpel. It’s a club. If there is something you consider indefensible, and there is something you consider defensible, and the same laws can take them both out, you are going to find yourself defending the indefensible”. (“Se você aceitar – e eu aceito – que a liberdade de expressão é importante, então você vai ter que defender o indefensável. Isso significa que você vai defender o direito das pessoas lerem, escreverem, dizerem, o que você não diz ou não gosta ou não quer que seja dito. (…) A Lei é instrumento bruto. Ela não é um bisturi. Ela é uma clava. Se existe algo que você considera indefensável, e existe algo que você considera defensável, e as mesmas leis podem acabar com as duas, você vai se encontrar defendendo o indefensável.”)

Aqui está a carta da Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (ACIGAMES) contra esse projeto de lei absurdo. Bônus: John Waters falando sobre filmes obscenos e por que as pessoas devem apoiá-los.

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Onzes de setembro

Tendo um número não-desprezível de amigos de esquerda, a reação mais frequente ao 10º aniversário do ataque ao World Trade Center que vi no Facebook foi de pessoas lembrando que em 11 de setembro de 1973 um golpe militar levou ao poder no Chile uma das piores ditaduras da América do Sul. Eu, pessoalmente, só consigo pensar que é algo extremamente americano transformar uma tragédia num espetáculo. Neil Gaiman, um dos meus autores favoritos, tem algo mais importante a dizer: "as long as you know who God wants you to hate and to hurt then anything you do to them is justified." (se você souber quem Deus quer que você odeie e fira, qualquer coisa que você faça contra eles é justificada).

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Harlequin Valentine

Um dos meus contos favoritos do Neil Gaiman, narrado pelo próprio autor, disponível para download de graça.

 

http://www.last.fm/music/Neil+Gaiman/_/Harlequin+Valentine

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