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Abaixo as princesas 2

Seguindo com a lista de livros para crianças com boas personagens femininas, apresento dois livros de um dos meus autores favoritos, Philip Pullman:

A Filha do fabricante de fogos de artifício é a história de Lila que, como diz o título, é filha de um fabricante de fogos de artifício. Contrariando as expectativas de gênero, Lila decide seguir os passos do pai e tornar-se também uma fabricante de fogos de artifício. Para isso, embarca em uma jornada perigosa para aprender o segredo da profissão. O livro está longe de ser perfeito. Além de Lila, a única outra personagem feminina é uma deusa que aparece pouco e apenas interage com um personagem masculino. Lila, como muitas personagens de contos de fadas e histórias infantis, cresce sem a mãe, morta enquanto ainda era pequena. Dessa forma, o livro não retrata nenhuma relação positiva entre mulheres. Todas as interações de Lila são com homens, principalmente Chulak e seu pai, o que acaba reforçando a ideia de que histórias sobre mulheres precisam incluir personagens masculinos para tornarem-se relevantes. A despeito disso tudo, é um ótimo livro que desafia estereótipos sobre mulheres. Lila é determinada, corajosa e extremamente estóica quanto ao que precisa fazer para alcançar seu objetivo. Ela consegue suportar uma jornada fisicamente demandante e superar todos os desafios que aparecem em seu caminho. Em vários momentos, fica claro que Lila se importa muito pouco com sua aparência, especialmente quando há uma tarefa a ser realizada – e não há qualquer romance na história. Sua jornada para tornar-se quem quer ser é a jornada em direção a uma profissão, a algo que ela faz, não simplesmente algo que é. O livro é ainda mais legal por se passar num país asiático e relegar os personagens brancos a papéis secundários.

Clockwork, até onde pude constatar, ainda não foi traduzido. Deixo a dica de qualquer forma porque ler livros em inglês é uma ótima ajuda para quem está aprendendo a língua (o que muitas crianças fazem) e para deixar a referência, caso alguém resolva traduzi-lo. É difícil descrever Clockwork sem contar muito da história. Digamos apenas que um jovem escritor começa a contar uma história que acaba tomando rumos imprevistos. Em termos de representação feminina, Clockwork é pior do que A filha do fabricante de fogos de artifício. Com exceção de Gretl, todos os personagens relevantes da história são homens. Gretl aparece muito pouco na primeira parte da história e está totalmente ausente da segunda. A princesa Mariposa, que aparece na história-dentro-da-história, é supérflua e vaidosa, reforçando estereótipos sobre mulheres jovens. Ainda assim, confesso que gosto mais da história de Clockwork do que d’A filha. Ela é mais sombria, mais estranha e menos previsível. Mesmo querendo que a história tivesse mais personagens femininas, só a presença de Gretl já justifica sua inclusão. Descrita pelo autor como “uma menina corajosa”, Gretl é quem inegavelmente salva o dia – e faz isso não com violência, mas com compaixão. Algo do feminismo que se perdeu um pouco nos últimos anos é justamente a crítica não apenas à desigualdade de gênero, mas aos valores mais amplos perpetuados por nossa cultura. As feministas de um determinado momento defendiam que se substituísse os valores de competição, agressividade e individualismo, associados à esfera do masculino, por valores de compaixão, cooperação e comunidade, mais associados às mulheres*. Por mais brega que a ideia seja, ter um livro em que o dia é salvo por quem defende esses valores me parece algo bastante válido.

*Obviamente, não significa que homens e mulheres dividam-se, na vida real, entre esses polos. As pessoas não são unidimensionais; todas são capazes de demonstrar todos esses valores em momentos distintos, ou em relação a pessoas distintas. Nem mesmo pode-se dizer que esses conjuntos de valores representem, em média, homens ou mulheres, mas apenas uma visão tradicional de como homens e mulheres se comportam.

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Liberdade de expressão e a lei anti-games

No momento, encontra-se na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado um projeto de lei que propõe a censura de jogos no país. Por partes: o PL 170/06, de Valdir Raupp, do PMDB, propõe alterar a lei 7716, que “Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor”. O artigo 20 dessa lei proíbe “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. O PL 170/06 propõe alterar esse artigo “para incluir, entre os crimes nele previstos, o ato de fabricar, importar, distribuir, manter em depósito ou comercializar jogos de videogames ofensivos aos costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos”.

O problema está na linguagem vaga do projeto. O que é um jogo “ofensivo” aos costumes, religiões e credos? Quem determina isso? Matendo-se a indefinição, a escolha de que jogos permitir e quais censurar fica ao arbítrio do governo, ou ao arbítrio de grupos de pressão. A verdade é que qualquer pessoa (ou, mais provável, qualquer grupo religioso) pode afirmar que qualquer conteúdo que contrarie os dogmas de sua religião é “ofensivo”. A lista de possíveis ofensas é longa. O PL 170 é simplesmente uma proposta de censura e, portanto, uma ameaça à liberdade de expressão.

É óbvio que nenhum direito é absoluto, mas o limite de um direito é dado pela ponderação com os demais. Chamados à violência, ou a incitação de qualquer crime, claramente não podem ser protegidos pela liberdade de expressão. Se expandirmos a definição de “expressão” para incluir imagens e filmes, é claro que pornografia infantil tampouco pode ser protegida. Esses casos são violações claras de direitos. Ser ofensivo, contudo, não é. Como disse Philip Pullmanem resposta a uma pergunta sobre o fato de o título de seu último livro (The good man Jesus and the scoundrel Christ) ser ofensivo, “No one has a right to live without being shocked. No one has the right to spend their life without being offended. Nobody has to read this book. Nobody has to pick it up. Nobody has to open it and if they open it and read it, they don’t have to like it. And if you read it and you dislike it, you don’t have to remain silent about it, you can write to me, you can complain about it, you can write to the publisher, you can write to the papers, you can write your own book. You can do all those things, but there your rights stop. No one has the right to stop me writing this book. No one has the right to stop it being published or sold or bought or read. And that’s all I have to say on that subject.” (“Ninguém tem o direito de viver sem se chocar. Ninguém tem o direito de passar sua vida inteira sem ser ofendido. Ninguém tem que ler este livro. Ninguém tem que pegar este livro. Ninguém tem que abri-lo e se abrirem e lerem, eles não têm que gostar dele. E se você lê-lo e não gostar dele, você não tem que permanecer em silêncio sobre isso, você pode me escrever, você pode reclamar sobre ele, você pode escrever à editora, você pode escrever aos jornais, você pode escrever seu próprio livro. Você pode fazer todas essas coisas, mas nesse ponto seus direitos acabam. Ninguém tem o direito de me impedir de escrever este livro. Ninguém tem o direito de impedi-lo de ser publicado ou vendido ou lido. E isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre esse assunto.”)

Confesso que admito poucas exceções para a liberdade de expressão. Tirando os casos que descrevi acima, acredito que as pessoas devam ter o direito de dizer o que for. Mesmo que seja algo detestável. Mesmo que seja odioso Mesmo que sejam mentiras, e mesmo que sejam mentiras perigosas. A liberdade de expressão só é possível assim. Qualquer restrição de conteúdo, por ser “ofensivo”, “contra os costumes”, “detestável”, abre toda e qualquer expressão à ameaça de sanção pelo simples fato de alguém, em algum lugar, não concordar com ela. Neil Gaiman resume, de forma clara e simples: “If you accept — and I do — that freedom of speech is important, then you are going to have to defend the indefensible. That means you are going to be defending the right of people to read, or to write, or to say, what you don’t say or like or want said. (…) The Law is a blunt instrument. It’s not a scalpel. It’s a club. If there is something you consider indefensible, and there is something you consider defensible, and the same laws can take them both out, you are going to find yourself defending the indefensible”. (“Se você aceitar – e eu aceito – que a liberdade de expressão é importante, então você vai ter que defender o indefensável. Isso significa que você vai defender o direito das pessoas lerem, escreverem, dizerem, o que você não diz ou não gosta ou não quer que seja dito. (…) A Lei é instrumento bruto. Ela não é um bisturi. Ela é uma clava. Se existe algo que você considera indefensável, e existe algo que você considera defensável, e as mesmas leis podem acabar com as duas, você vai se encontrar defendendo o indefensável.”)

Aqui está a carta da Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (ACIGAMES) contra esse projeto de lei absurdo. Bônus: John Waters falando sobre filmes obscenos e por que as pessoas devem apoiá-los.

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His dark materials

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Minha casa sempre foi cheia de livros. Na verdade, acho que nosso apartamento sempre teve como principal função guardar livros. Todo o resto é secundário. Quando eu era criança, meus pais tinham o hábito de me dar livros de presente, do nada (hoje em dia eu já compro livros o suficiente para me manter ocupada). Lembro de meu pai chegar em casa, uma vez, com um livro de histórias do Oscar Wilde. Lembro de outro dia, em que minha mãe chegou em casa com um livro que tinha comprado porque ganhara a medalha Carnegie, prêmio máximo da literatura infanto-juvenil no Reino Unido. Tinha uns nove anos e minha primeira tentativa de ler o tal livro, A bússola dourada, de Philip Pullman, não deu muito certo. Não devo ter lido mais do que algumas páginas antes de fechar o livro e colocá-lo de volta na estante. Entretanto, por algum motivo, me incomodava ver o livro ali, largado, solitário, e resolvi tentar de novo. Não sei o motivo, mas, da segunda vez, não consegui largar a história de Lyra e Pan. A bússola dourada tornou-se meu favorito, aquele livro que eu queria fazer todas as pessoas lerem, porque como é possível viver sem conhecer essa história? Meu envolvimento com os personagens era tamanho que, quando cheguei no momento em que algo ruim acontece no segundo livro da trilogia*, parei de ler durante meses por medo do que viria em seguida.

Não sei dizer bem o que me encanta tanto no livro. Ou melhor: não sei escolher apenas uma coisa. Há a mensagem da trilogia, da necessidade de se questionar a autoridade e de se buscar o conhecimento. Há os personagens, que conheci como criança e que passei a ver de outra forma, não menos interessante, como adulta. Há os percursos épicos, por vezes atravessando vários mundos, das jornadas dos personagens. Há os seres fantásticos: bruxas, galivespianos e, meus favoritos, panserbjørne. Suspeito, contudo, que o que me prendeu foi a mesma coisa que me afastou do livro na primeira vez em que tentei ler. A noção, presente desde a primeira página, e cada vez mais clara, especialmente no fim do livro, de que esse mundo era muito maior e mais perigoso do que qualquer outra coisa que tivesse encontrado. Um mundo em que adultos fazem mal a crianças, em que ninguém está seguro, em que traições são sempre possíveis e em que não há uma luta do bem contra o mal, apenas pessoas fazendo o que creem ser o certo, ou avançando as próprias ambições.

 

Recomendo a leitura. Ah, e, por favor, esqueçam o filme.

 

*Este post não terá spoilers.

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