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Dia Carl Sagan

Hoje seria aniversário de Carl Sagan. Já postei coisas de sua autoria antes. Hoje, em comemoração, compartilho algumas de minhas citações favoritas:If you wish to make an apple pie from scratch, you must first invent the universe.

 

It is far better to grasp the universe as it really is than to persist in delusion, however satisfying or reassuring.

 

Our species needs, and deserves, a citizenry with minds wide awake and a basic understanding of how the world works.

 

Science is a way of thinking much more than it is a body of knowledge.

 

For small creatures such as we the vastness is bearable only through love.

The nitrogen in our DNA, the calcium in our teeth, the iron in our blood, the carbon in our apple pies were made in the interiors of collapsing stars. We are made of star stuff.

 

***

 

Se você quiser fazer uma torta de maçã do nada, primeiro precisa inventar o universo.

 

É melhor entender o universo tal como ele realmente é do que persistir na ilusão, por mais satisfatória ou tranquilizadora que seja.

 

Nossa espécia precisa, e merece, cidadãos com as mentes despertas e uma compreensão básica de como o mundo funciona.

 

A ciência é muito mais uma forma de pensar do que um corpo de conhecimento.

 

Para criaturas pequenas como nós a vastidão é tolerável apenas por meio do amor.

 

O nitrogênio em nosso DNA, o cálcio em nossos dentes, o ferro em nosso sangue, o carbono em nossas tortas de maçã foram produzidos no interior de estrelas em colapso. Nós somos feitos de estrelas.

 

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The pale blue dot

No que uma pessoa ateia acredita? Não posso falar por todos, apenas por mim mesma. O que penso é o seguinte: nós estamos sozinhos num universo vasto e indiferente. Na escala do universo, ou mesmo na escala da história humana, cada um de nós, individualmente, é insignificante. É inútil pensar que há algum sentido externo, maior, pré-determinado, para cada uma de nossas existências. É também inútil esperar que alguma divindade corrija nossas injustiças, acerte nossos erros, nos salve, enfim, de nós mesmos. Nós temos apenas uma vida curta e é com essa vida e com o impacto que temos sobre o mundo e sobre as pessoas ao nosso redor que temos que nos preocupar.  

Não consigo pensar em uma forma mais eloquente de descrever no que acredito do que o texto The pale blue dot, do astrônomo Carl Sagan. Reproduzo a seguir parte desse texto e a tradução que fiz. Peço desculpas por não ter conseguido fazer uma tradução à altura do original; vocês podem ter certeza de que qualquer deselegância ou falta de clareza do texto é inteiramente minha culpa. 

 

The spacecraft was a long way from home. I thought it might be a good idea just after Saturn to have them take one last glance homeward. From Saturn, the Earth would appear too small for Voyager to make out any detail. Our planet would be just a point of light, a lonely pixel, hardly distinguishable from the many other points of light Voyager would see, nearby planets, far off suns. But precisely because of the obscurity of our world thus revealed, such a picture might be worth having. It had been well-understood by the scientists and philosophers of classical Antiquity that the Earth was a mere point in a vast, encompassing cosmos, but no one had ever seen it as such. Here was our first chance, and perhaps also our last, for decades to come. 

 

So, here they are. A mosaic of squares laid down on top of the planets  in a background smattering of more distant stars. Because of the reflection of sunlight off the spacecraft, the Earth seems to be sitting in a beam of light, as if there were some special significance to this small world, but it’s just an accident of geometry and optics. There is no sign of humans in this picture. Not our reworking of the Earth’s surface, not our machines, not ourselves. From this vantage point, our obsession with nationalism is nowhere in evidence. We are too small. On a scale of worlds, humans are inconsequential, a thin film of life on an obscure and solitary lump of rock and metal.

 

Consider again that dot. That’s here. That’s home. That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every “supreme leader”, every “superstar”, every saint and sinner in the history of our species lived there — on a mote of dust suspended in a sunbeam.

 

The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot.

 

Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves. Like it or not, for the moment, the Earth is where we make our stand.

 

It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the only home we’ve ever known, the pale blue dot.

 

— Carl Sagan, Pale Blue Dot, 1994 (com adaptações) 

***

A nave espacial estava longe de casa. Pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la olhar uma última vez na direção de casa. De Saturno, a Terra apareceria pequena demais para a Voyager captar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um solitário pixel, dificilmente distinguível dos muitos outros pontos de luz que a Voyager veria, planetas próximos, sóis distantes. Mas, precisamente devido à obscuridade de nosso mundo dessa forma revelada, uma tal foto poderia ser útil. Os cientistas e filósofos da Antiguidade clássica haviam compreendido bem que a Terra era um mero ponto num cosmos vasto e abrangente, mas ninguém a tinha visto dessa forma. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez também nossa última, por décadas.

Então, aqui estão elas. Um mosaico de quadrados superposto aos planetas num pano de fundo de estrelas mais distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na nave, a Terra parece estar apoiada num raio de luz, como se houvesse algum significado especial nesse pequeno mundo, mas isso é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há sinal de humanos nesta foto. Nem nossa transformação da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Deste ponto de observação, nossa obsessão com nacionalismo não se encontra em parte alguma. Nós somos pequenos demais. Numa escala de mundos, humanos são inconsequentes, uma fina camada de vida sobre um pedaço obscuro e solitário de rocha e metal.

Considere mais uma vez esse ponto. Ele é aqui. Ele é nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todas as pessoas de quem você já ouviu falar, cada ser humano que jamais existiu, viveram suas vidas. O agregado de nossa alegria e sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, criança esperançosa, inventor e explorador, cada ensinador de morais, cada político corrupto, cada “líder supremo”, cada “superstar”, cada santo e pecador na história de nossa espécie viveu ali – num grão de poeira suspenso num raio solar.

A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nas crueldades sem fim impostas pelos habitantes de um canto desse pixel nos habitantes quase indistinguíveis de algum outro canto, o quão frequentes seus mal-entendidos, o quão dispostos estão a matar um ao outro, o quão fervorosos os seus ódios. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em glória e triunfo, pudessem tornar-se os mestres momentários de uma fração de um ponto.

Nossas posturas, nossa imaginada importância, a ilusão de termos alguma posição privilegiada no universo, são questionadas por este ponto pálido de luz. Nosso planeta é uma partícula solitária no grande e envolvente escuro cósmico. Em nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há nada que nos leve a crer que a ajuda virá de outro lugar para salvar-nos de nós mesmos. Gostando ou não, por enquanto a Terra é onde marcamos nossa posição.

Já foi dito que a astronomia é uma experiência que imbui as pessoas de humildade e constrói caráter. Talvez não haja demonstração melhor da insensatez das pretensões humanas do que esta imagem distante de nosso pequeno mundo. Para mim, ela reforça nossa responsabilidade de lidar de forma mais gentil uns com os outros e de preservar e estimar o único lar que conhecemos, o pálido ponto azul.

— Carl Sagan, Pale Blue Dot, 1994

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